Nunca duvide da capacidade de organização de Agents of S.H.I.E.L.D.
Lá no começo da temporada, por volta do terceiro, ou quarto episódio, tudo parecia bem separado, solto e desconexo. As tramas existentes na série aparentemente caminhavam de forma isolada, separadas umas das outras. A única união existia dentro das duplas e grupos que eram formados, mas a história mesmo parecia estar caminhando com tramas distintas. Inumanos de um lado, Hydra do outro e ATCU no meio. Neste oitavo episódio da série a unificação dos plots veio. E olha, veio de uma forma que somente uma equipe de roteiristas como a de MAoS sabe fazer, brilhantemente.
O fantasma da Hydra existe e sempre existirá dentro da mitologia da S.H.I.E.L.D. Ward, porém, não. E eu até entendo o motivo de alguns comentários reclamando da presença de um personagem que, para várias pessoas, já deveria ter partido para uma pior. Sim, a vingança do personagem soou extremamente infantil, mas coerente com o que foi apresentado desde o começo da série. Grant Ward é um homem que segue regras e ordens, para o heroísmo, ou vilania, ele é o soldado perfeito. Para ser um líder é preciso muito mais do que entender uma cadeia de comando. Many Heads, One Tale existe para salientar o ponto positivo e negativo do personagem dentro da série. São aspirações de vassalo, para quem quer ser suserano.
Ao dedicar um episódio inteiro para tratar o posicionamento de Ward, MAoS nos demonstra que todas as reclamações a respeito de sua utilidade dentro da série, são plausíveis. A imagem de um novo líder, dando um sentido para a missão do até então responsável pela liderança da organização criminosa, expõe a principal falha de caráter do traíra. Não existe honra na vingança, mesmo que ela sacie o apetite, é preciso algo maior, algo mais valioso para lutar, até para os vilões. Assim como a escolha de dar um propósito para o Ward mostra que sim, vocês estavam certos em reclamar, a decisão de separar a mitologia da Hydra, nascida em Capitão América: O Primeiro Vingador, expõe a derradeira separação da série, do universo dos filmes, algo que vem acontecendo desde a inclusão dos inumanos na segunda temporada. Para quem lê histórias em quadrinhos, imagine que os filmes são o arco central, a séries os tie-ins. Você não precisa ler tudo, mas com certeza vai ter um entendimento melhor se acompanhar as entrelinhas aka série maníacos.

E no meio de toda a confusão, tempestade, Hydra e inumanos, existiu o primeiro beijo entre Jemma Simmons e Leo Fitz. Eu aprovo bastante a maneira com que Agents trabalha o romance dentro da série. De um lado temos Coulson e Rosalind em um claro jogo de poder e manipulação, mas com uma pitada de sentimento envolvido. Do outro, FizSimmons, o casal que todos esperávamos desde o primeiro ano da série e que, agora, começou a mostrar todo seu potencial. Diferente de outras séries, em que o shipp delimita o que acontecerá na trama, a maturidade do roteiro de MAoS demonstra um equilíbrio enorme. Não é meramente um caso amoroso, mas sim algo que impulsiona as personagens para outros patamares, além de exigir dos atores um comprometimento e química que dificilmente produções do gênero conseguem impor. E quando você tem Iain de Caestecker e Elizabeth Henstridge, é bom aproveitar o potencial dos dois, responsáveis por um verdadeiro show nesta terceira temporada.
E é fácil notar as diferenças, até dentro da casa. Em Demolidor, com Matt e Claire Temple, apesar do romance potencial ser carregado de um apelo mais adulto, não chegou a decolar, ou a ser importante para a trama. Tanto que o sumiço da Claire não incomodou, apesar de ter sido sentido. O mesmo vale para Flash, ou Arrow, que impõe regras dos quadrinhos para construir o lado sentimental dos seus protagonistas, minando qualquer possibilidade de liberdade para os personagens. Arrow até quebrou esse lado, mas a mão dos fãs pesou mais forte do que a necessidade do herói. Esqueça as séries que mencionei anteriormente, em Agents o amor é uma força, mas não chega a ter o impacto suficiente para destruir o bom andamento da trama. O sentimento é essencial para Jemma e Fitz, mas não os força a agir como adolescentes no calor da puberdade. A parcimônia, o caminho direto, o beijo e o sofrimento, contam, mas é a maneira com que ambos personagens reagem que mostra em que patamar estamos. Jemma sabe a dor e sofrimento que está infligindo em Fitz, assim como o Fitz sabe que amar de verdade é fazer o possível para que a outra pessoa esteja feliz, mesmo que nos braços de outro. E por mais doloroso que isso seja, por mais que ambos lutem, não tem como esconder o brilho, ele é muito forte.
Em seu oitavo episódio, Agents conseguiu impor o ritmo necessário para aumentar a tensão, criar maiores expectativas, mas principalmente, dar coesão para sua trama, que como eu disse antes, parecia bem dispersa. Mesmo de uma forma “separada”, todos trabalharam em conjunto, valorizando a força de cada membro da equipe. Daisy como apoio tecnológico, Hunter e Bobbi como o bom casal de espiões que sempre foram, Coulson como mente e operação, Fitz e Simmons na parte teórica e filosófica. Ninguém ficou de fora, todo mundo cooperou para que o ponto chave fosse alcançado. Até mesmo a May, calada como sempre, teve a conclusão sentimental parcial do seu ápice ideológico no episódio passado. Sem esquecer que foi graças a ela, que o Lincoln ganhou uns pontos a mais, mas só por causa dela. E se você não consegue entender a importância de um bom direcionamento para uma série, dificilmente conseguirá apreciar o roteiro de Agents of S.H.I.E.L.D., uma produção que sabe soltar os fios e costurá-los com a mesma praticidade.
Easter eggs e outras informações

– Essa é para os fãs de Angel. Vocês viram que no passado a Hydra assumiu o símbolo de uma cabeça de bode? Agora tudo o que falta é um veado e um lobo para conseguirmos conectar a Hydra com a Wolfram and Hart – Firma de advocacia e grande vilã da série Angel. Nos extras de Era de Ultron é possível ver, em Asgard, um homem com cabeça de lobo, outro com cabeça de bode e o terceiro com uma cabeça de veado. Whedonverse!
– Vamos fazer uma aulinha de história com o tema Hydra? Durante o início da civilização humana, Imhotep e um grupo de egípcios lutou contra a invasão da raça alienígena Brood. Desta união nasceram duas organizações, Irmandade do Escudo e Irmandade da Lança. A Irmandade da Lança cresceu e começou a infiltrar-se nos mais diversos campos da sociedade humana – política, ciência, magia. Com o tempo ela adotou outros nomes, com várias “cabeças”, como Seita Cátara, Sociedade Thule. Durante a segunda guerra mundial o grupo foi reformulado e passou a ser conhecido e temido como a Hydra. Irmandade do Escudo vocês já imaginam por qual nome ela atende hoje, né?
– Existem duas possibilidades para o inumano aprisionado no planeta exílio. Uma é Maelstrom – filho de um geneticista inumano, o personagem, com o auxílio de seu pai, iniciou pesquisas com a névoa terrígena para criar uma raça melhor, que conseguiria rivalizar com os próprios inumanos e a família real. Ele mesmo se considera como um tipo diferente de criatura, parte inumano, parte eterno e humano. Sua conexão com Agents poderia ser explicada através da tentativa de criar um exército perfeito, através da manipulação da névoa e do DNA, algo que justificaria seu exílio.
– A segunda opção é o Unspoken – Ele foi o rei antes do Raio Negro, mas acabou destronado quando escondeu uma arma poderosa presenteada pelos Kree, a Slave Engine. O Unspoken percebeu o perigo que a arma representava, mas acabou sendo exilado por tê-la escondido e se recusado a revelar o paradeiro. O “Aquele que não deve ser falado” teve sua história apagada dos registros inumanos, por isso não possui nome. Ele é superpoderoso, já que pode ser considerado a versão em carne e osso da névoa terrígena, capaz de qualquer coisa.
– Coulson faz uma menção a seus objetos e sua fascinação pela chamada ‘Era de Ouro’. Era de Ouro é o nome dado as histórias clássicas dos super-heróis, em ambas editoras.















