Cada um de nós já teve um momento na vida em que teve que fazer uma decisão difícil. Elas são inatas a nossa existência, mas não por isso deixam de ser tão dispendiosas. Mudar ou não o curso da faculdade, parar ou não de fumar, largar ou não um trabalho desmotivador, sacrificar-se ou não pela família. Independentemente da decisão tomada, o processo agonizante e, muitas vezes, confuso que nos leva ao resultado é tão intenso que, mesmo depois de resolvido, ficamos com aquela dúvida coçando nossa mente: e se eu tivesse escolhido de outra forma? Art Is Like Religion soube novamente sincronizar as vidas de seus personagens e uni-los através de situações decisivas. E essa foi exatamente a beleza desse capítulo: não tivemos mitologia, nem Jonas ou Angelica. O que importou aqui foi o desenvolvimento de cada personagem e a forma que o compartilhamento passou a influenciar os seus rumos.
Após um ótimo episódio, ficou a expectativa de que a peteca não caísse e, felizmente, esse foi o caso. Art Is Like Religion foi o episódio mais visual, emocional e pessoal da série até o momento. Em What’s Going On?, nós acompanhamos a tensão entre os diversos perigos que os protagonistas passavam e o forma que a conexão entre eles acontecia. Aqui, a jornada ficou centrada em Kala, Sun e Capheus, três figuras que enfrentavam um divisor de águas em suas vidas. Sacrificar-se por sua família que a desprezou? Garantir uma vida melhor para sua mãe enquanto se envolve com o crime? Casar-se com um homem que não se ama e relegar a vida a frustração de algo tudo poderia ter sido diferente? A série firma a sua lógica narrativa nas escolhas de eixos de desenvolvimento por episódio, sem trabalhar o elenco completo igualitariamente, o que é acertado, afinal, como bem demonstrado aqui, não é necessário colocar todos em evidências para que as tramas sejam interligadas. O compartilhamento compensa isso, principalmente quando ele começa a aumentar.
Importante notar que a série não está ignorando o desenvolvimento de seus personagens e também não está esquecendo as conexões realizadas anteriormente. No terceiro episódio, Sun e Capheus compartilharam por serem tomados pela fúria. Dessa vez, o rapaz não teve a ajuda da coreana. Foi um alívio perceber que a série não irá trabalhar a troca de habilidades de forma conveniente. Quando foi abordado pelo grupo de criminosos, Capheus precisava ser lutador e isso não ocorreu, no entanto, a inspiração derivada da admiração pela fúria da coreana com espírito de Van Damme foi o que fez ele ir buscar a mochila que o levaria aos remédios de sua mãe. Ótimo forma de crescer o personagem, ao invés de estagná-lo na conveniência.
Dessa vez conhecemos mais sobre Sun e como funciona sua mente e a razão de sua perturbação mental diante da escolha de se sacrificar ou não. Nós pensamos imediatamente “Mulher, acorde para vida, e denuncie logo teu irmão e manda teu pai junto!” e isso tem fundamento: é perceptível a forma que o pai a desdenha e também o impacto que isso gerou em sua vida. No entanto, quando ela pensa em talvez se deixar presa, não é no pai e no irmão que ela, mas sim na mãe e no fato de que, se não os salvar, suas últimas palavras a ela terão sido mentira. Em outro contexto, essa poderia ser uma justificativa vazia e implausível. No entanto, o olhar terno da coreana ao falar da mãe e o sofrimento em se imaginar ferindo sua memória junto a ela nos mostra que, na verdade, injusto seria não ponderar isso. E a força dessa cena e da decisão tomada por ela ao final, quando entrega seu cachorro ao mestre, foi derivada da interação dela com Capheus. Sem dúvidas, foi a conexão mais bem construída pelo roteiro. Um momento bonito e fundamental para a decisão a ser tomada tanto por ela quanto pelo rapaz.
Fechando o trio principal esteve Kala. Finalmente, ela ganhou mais tempo de tela e se tornou uma personagem mais rica. Não importa se o seu desejo é simples: não se casar com o homem que não ama. Isso é grande e ressonante o suficiente para que nos comovamos com ela. Linda a breve cena em que Sun assume seu lugar na entrada de seu casamento, quando compartilharam um ápice de nervosismo. Mais que isso, a conversa dela com a mãe a tia foi a prova que precisávamos para compreendermos de vez que ela pode respeitar e sentir carinho pelo noivo, mas, de fato, ela não o ama e não se enxerga capaz de desenvolver o sentimento por ele após o casamento (basta perceber o contraste com a expressão mais vívida de Kala em todas vezes que viu o alemão até agora). Diante disso, os momentos finais de seu casamento se tornaram tragicamente belos, pois, apesar das cores vivas, do cenário exuberante e dos figurinos pomposos, o olhar e a expressão dela eram profundamente tristes. Por isso, o surgimento de Wolfgang provocou um alívio tão grande que gerou o riso.
Riley continuou sem ter um tratamento maior pelo roteiro e isso pode significar que ela ganhará muito destaque mais a frente na temporada. Lito começou a sentir de forma intensa a conexão com os outros sensates e foi hilária as reações dele quando fazia compartilhamento com Sun. E não dá para ignorar a diversão da cena de ação do astro latino quando assumiu as habilidades de Will. Depois de salvar Nomi, o policial se concentra novamente em Angelica e foi confortante saber que ele não esqueceu da ex-hacker. Esta está cada vez mais confusa quanto as visões dos sensates, depois do diagnóstico do médico e agora fica a pergunta: teria ele se submetido aos caprichos da mãe de Nomi ou ele teria interesse em analisar o cérebro dela? Sabemos que há outros sensates no mundo e provavelmente pessoas que os perseguem. Ele não estaria em busca do cérebro dela como uma forma de descobrir como rastrear os outros?
Sense8 prova que What’s Going On? não foi um incidente no destino: a série entrou em uma curva ascendente de qualidade e nos resta agora aproveitar a jornada.
P.S.: Como é que pode a montagem e a trilha sonora daquela sequência final, hein? Trabalho impecável.















