Depois de dois capítulos, Sun e Capheus ganharam a atenção devida e o resultado foi o melhor episódio até agora. Não só isso: depois de ter sido relegado a uma atmosfera cômica e novelesca, a trama de Lito ganhou tensão. Com o fortalecimento de mais três peças de seu quebra-cabeça, Sense8 atingiu um novo patamar, que foi bem exaltado em seus trailer: a energia. Não foi necessário um mergulho na mitologia nem uma reviravolta na narrativa. O que acompanhamos em Smart Money’s On The Skinny Bitch foi uma melhor construção do passado de um personagem, a exploração da perturbação da mente de outra figura e uma melhor conexão entre os personagens e a atmosfera geral. Aqui, a série alcançou o que é fundamental em qualquer projeto televisão com grandes elencos: coesão narrativa.

Sun deve ter falado umas cinco linhas de diálogo ao longo desse terceiro episódio. Mesmo assim, a perturbação de sua mente ficou evidente em todos os seus momentos em tela. Ela descobriu que há alguma irregularidade no aspecto financeiro da empresa, que provavelmente está ligado ao irmão e agora ela tem que decidir entre seguir as palavras de sua mãe de proteger o irmão ou seguir limpa na trama. O mais curioso aqui é que toda a justificativa para as ações dela ficam baseadas em suposições. Ela é, ao lado de Kala, a personagem com menos embasamento e isso é o que tornou a atuação de Doona Bae exemplar. Os olhares de preocupação e de intensidade da atriz nos fizeram ficar curiosos sobre quais seriam os seus próximos passos na trama, elevando a tensão no ápice do episódio.

E nesse ponto vale ressaltar algo. Ela estava naquele ringue para extravasar toda a confusão de emoções que estava enfrentando e isso fez com que sua fúria sincronizasse com o ódio e indignação de Capheus. Este, ao contrário de Sun, teve o seu passado revelado. Um rapaz que usa a sua profissão como um meio de alcançar um tratamento melhor para a mãe. Mais que isso, a analogia com a zebra ganha dois significados até chegar ao principal: ele não queria ser uma zebra por sua agilidade ou por andarem em bandos, mas sim, porque, em caso de fome, ele poderia comer grama e não se preocupar mais com ela. Seu contexto atual também é trágico. Ele tem uma mãe que avança em sua doença, mas os medicamentos que ela toma são adulterados e levam a efeitos colaterais nocivos.

O problema é que a realidade que poderia reverter essa situação é ainda pior: seria mais barato e requereria menos esforço simplesmente deixar a mãe morrer. Dessa forma, o otimismo e a determinação do rapaz se uniram ao senso de justiça e criaram uma cena banhada em indignação. O roubo do remédio foi cru e brutal. Pior que não poder ajudar a mãe, é saber que ele teve em suas mãos algo para acalentar sua dor e isso foi tirado dele pela violência social. E isso foi o que possibilitou que nós vibrássemos e torcêssemos pelo rapaz na cena sequência final. Mais uma vez vale o elogio para a sagacidade da montagem da série. O que começou como uma cena em que a fúria unia Sun e Capheus, tornou-se uma ciranda projetada em que a habilidade da coreana se projetava no contexto do rapaz.

O resto do elenco não foi deixado de lado, com exceção de Kala, pra variar. Nomi continuou presa no hospital e prestes a sofrer uma cirurgia contra sua vontade. Mesmo que tenha sido resultado de uma ação vilanesca da mãe, é inegável que o senso de indignação e tensão transbordaram em suas cenas. Sua namorada conseguiu impedir que a cirurgia ocorresse dessa vez, no entanto será difícil produzir incêndios sem ser pega no futuro. Assim, a deixa para que Will vá em resgate de Nomi se torna urgente para o próximo capítulo. E fica a curiosidade em saber quais serão os resultados desse possível encontro. Haverá alguma resposta quando há o contato entre dois sensates? Isso irá repercutir no restante do grupo?

Lito também teve sua fatia do bolo e, inicialmente, ficou a decepção quanto à possibilidade de ele, de fato, ser um alívio cômico para a história. Não que as cenas entre ele, Hernando e Daniela não tenham sido divertidas. A dinâmica entre os três exala leveza e a química entre os atores consegue entreter. O problema é que era necessário que Lito se conectasse com os temas da trama geral. Já ficou claro que a ligação entre os sensates é ativada quando eles compartilham emoções conjugadas ou complementares, vide o caso de Sun e Capheus, e era necessário estabelecer isso na história do rapaz. Felizmente, a introdução de Joaquin trouxe a tensão para a vida do astro latino e fica a expectativa de saber com qual dos outros sensates ele terá compartilhamentos.

Por outro lado, Kala foi para o trabalho, recebeu uma mensagem do noivo e só (rapaz, até Daniela tem mais personalidade e plano de fundo que a indiana; tá difícil). Riley foi lembrada de forma discreta (bem discreta, quando comparada a sua importância na première) e sua participação serviu somente para conhecermos sua origem e percebemos que há algo que ela tenta esconder sobre sua tentativa de suicídio. E Will teve o desenrolar de sua perseguição a Jonas: este foi preso e aquele virou herói. No entanto, a garotinha do passado ganha cada vez mais importância. Vimos uma sequência de sonho em que ele e Sara, quando crianças, acompanhavam um cirurgião abrindo o crânio de uma pessoa. Será esse o estopim que o levará a resgatar Nomi? Ele estaria prevendo distorcidamente o que poderia acontecer com ela?

Sense8 conseguiu entregar um episódio que empolgou, deixando para trás a memória mais arrastada do episódio anterior. Foi um episódio que soube explorar bem os quarenta e oito minutos de exibição e finalmente apresentou os dois personagens que careciam disso em seu universo. Agora que as apresentações acabaram, que a trama comece a tomar forma e pegue fogo.

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