Orange Is The New Black 4×08: Friends In Low Places

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Marcada para sempre.

Dentre toda sorte de cenas difíceis de assistir, a que encerra o episódio que antecede esse entra fácil na lista das mais tensas. A soberba de Piper, totalmente fora de controle e alimentada pela fantasia de que ela estava, afinal, comandando o espaço da prisão, encontrou um ponto final dramático.

Mesmo achando que suas estratégias para manter sua gangue (não há outro nome para chamar essa “associação” de presas, convenhamos) bastante questionáveis, ela retrocede ao perceber o monstro que estava criando. Obviamente, isso não a exime da culpa de ter sido o estopim para o que se tornou uma questão racial e por ter dado mais anos de cadeia a Ruiz, mas a “tatuagem” nazista é algo realmente devastador, o que transparece na reação da personagem nesse episódio.

Piper encolheu e não tem para onde fugir, não pode se esconder. Esse é o preço que ela deve pagar e uma lição inesquecível sobre a Lei do Mais Forte. Aqui, não é a força física que vale. Piper foi derrotada psicologicamente e suas lágrimas não são de arrependimento apenas, mas de uma vergonha impossível de mensurar.

Taylor Schilling deu um show ao mostrar sua personagem completamente devastada. Vimos um arco aparentemente cômico se transformar em drama de modo exemplar, o que para mim, pessoalmente, foi a solução perfeita. No começo disso tudo não estava gostando muito do rumo das coisas e achando brincadeira demais com o tema. Orange Is The New Black não deixou por menos e, como sempre faz, virou a mesa e nos surpreendeu.

Ainda nesse assunto, outra cena memorável traz o encontro de Piper, Vause , Nichols e uma boa dose de drogas. A sequência é hilária e triste ao mesmo tempo. Todas revelam alguma coisa que está pesando nos ombros e na consciência. Depois, a questão da suástica é resolvida de forma ainda dolorosa, mas poética de certa forma. Piper sempre terá essa janela para olhar e fazê-la pensar duas vezes antes de agir novamente.

E aproveitando a deixa sobre Nichols, o que ela faz com Morello, jogando com as inseguranças e com os sabidos pontos fracos dela para reatar uma relação que preenche seu vazio existencial e sexual é o que eu chamo de sacanagem. A mesma definição fica para o roubo dos pertences de Red.

A coexistência de Pensatucky com Coates é outra história que vale menção. Desenvolvida lentamente, essa ainda é uma das questões mais importantes da temporada, por levantar questões que vão além do que vemos na tela. Pensemos além da série: Coates é todo homem que acha que “tem o direito”. Muitos homens foram criados para pensar e agir assim, como se a mulher, seja ela namorada, esposa ou desconhecida, existisse para satisfazê-lo sexualmente, independente de sua vontade.

O fato de ele demorar a interpretar que o que ele fez foi estupro é uma alegoria da nossa sociedade. Hoje em dia, nós, mulheres, estamos jogando na cara de todo mundo o que é ser tratada desse modo, qual a sensação que isso traz e levantando nossas vozes contra esse pensamento de que estamos aqui para servir ao “instinto” do sexo oposto. E mesmo quando deixamos tão claro tudo isso, ainda vemos gente questionando, culpando as vítimas, achando que esposas têm obrigação. E não têm. Ninguém tem. Nossa obrigação é apenas com nós mesmas e com nosso bem estar. O fato de Coates e tantos homens interpretarem sexo forçado como ato de amor precisa mudar e ser colocado assim, para que todos vejam que mesmo que você não ache que é por causa da sua criação ou do seu raciocínio, ainda é estupro.

Outra questão racial entra em debate com Judy King e seu beijo em Cindy.  “My mother gonna see me kissing a white woman” é uma frase engraçada que fica no meio de um reconhecimento importante, ao passo que o racismo, assim como a questão do estupro, é outro problema que ainda demora a ser reconhecido. Existe grande hipocrisia nesse balaio, é claro, e vemos ainda a questão do privilégio branco muito bem colocada em diálogos que misturam as roommates mais comentadas da temporada: Judy e Yoga Jones.

Não podemos esquecer, é claro, da nova “aula” das detentas: Construção 101. Esse uso do sistema é algo que vem realmente me irritando e me fazendo pensar sobre a temporada e mais ainda: sobre as pessoas atrás dos muros das prisões. A falta de humanidade no tratamento nos incomoda quando vista na TV, num seriado, mas precisamos pensar além e trazer isso para o mundo real.

Litchfield ainda é um paraíso perto do que deve acontecer de verdade e é difícil sequer citar a questão do meu e do nosso mundo confortável.

Aqui entra ainda a questão de Sophia, esquecida na solitária apenas por ser quem é e por representar uma fatia ainda mais discriminada que as demais: mulher, negra, transgênero. Junte essas três coisas e teremos uma palavra para descrever: ISOLAMENTO.

Impossível perdoar Caputo por se fingir de cego e ainda ter a capacidade de conviver romanticamente (e sequer humanamente) com Linda, uma criatura que representa tudo o que há de errado nesses sistema, controlado por corporativistas que viram na prisão um modo fácil de reinstaurar o trabalho escravo.

  • edujakel

    essa review saiu só agora mesmo? que coisa esquisita. rs

    parabens para a série por abordar estes temas, foi sensacional!

  • edujakel

    essa review saiu só agora mesmo? que coisa esquisita. rs

    parabens para a série por abordar estes temas, foi sensacional!

  • ferrers405

    E eu achava que tava extremamente atrasado por acabar OITNB só semana passada. x-x

  • ferrers405

    E eu achava que tava extremamente atrasado por acabar OITNB só semana passada. x-x

  • NowSilva

    A cena das 3 se drogando já entrou para o hall de cenas hilárias memoráveis da série. Nunca mais olharei para um milharal da mesma forma! Rindo eternamente das caras e bocas delas. A Piper só não barra a Nicky no quesito chapada! kkkkk
    Deu pena sim da loira sendo “marcada” igual a gado. Era óbvio que seu reinado estava prestes a acabar. Claramente ela mexeu com a latina errada. Porém OITNB sem tragédias e comédias, não séria OITNB.

  • NowSilva

    A cena das 3 se drogando já entrou para o hall de cenas hilárias memoráveis da série. Nunca mais olharei para um milharal da mesma forma! Rindo eternamente das caras e bocas delas. A Piper só não barra a Nicky no quesito chapada! kkkkk
    Deu pena sim da loira sendo “marcada” igual a gado. Era óbvio que seu reinado estava prestes a acabar. Claramente ela mexeu com a latina errada. Porém OITNB sem tragédias e comédias, não séria OITNB.

  • Vitória Martins Souto

    Tava com saudades de suas reviews, amei!

  • Vitória Martins Souto

    Tava com saudades de suas reviews, amei!

  • VALERIANA BARROS

    Ótima review.
    Fiquei com muita pena da Piper. Não gosto dessa Maria.

  • VALERIANA BARROS

    Ótima review.
    Fiquei com muita pena da Piper. Não gosto dessa Maria.