O dilema entre o ganho coletivo e o próprio.
Joe Caputo sempre foi um homem correto. Essa é a moral da história em We Can Be Heroes (“O herói em cada um”), mais um excelente episódio desta ótima reta final de temporada. E era uma escolha previsível, visto que Caputo é outro que, como Norma, vem sendo trabalhado com muito mais esmero do que o normal nesta terceira temporada.
Mais do que isso, era uma escolha necessária. A esta altura, compreender Caputo por meio de sua história de vida nos faz analisar suas escolhas de maneira muito mais consciente. O “chefe de mentirinha” da nova prisão de Litchfield é extremamente calejado nesta vida, e tem uma tendência forte às decisões altruístas.
Não há como negar que a ex-mulher de Caputo é uma ridícula aproveitadora, mas ela tem razão em um ponto: o personagem não poderia culpá-la de uma escolha que ele decidiu fazer. Apesar de ter feito manha e possivelmente manipulado o cara a abandonar tudo por ela, a moça não chegou sequer a pedir que ele o fizesse, e ele poderia facilmente ter saído em turnê com a banda sem se preocupar com isso. Ainda que seja uma sacanagem absurda largá-lo quando o outro cara ficou rico e famoso, parte considerável do destino de Caputo foi traçado por ele mesmo.
E, no fim das contas, ele conseguiu fazer carreira na prisão e chegar ao cargo de comando máximo em termos da locação física. Provavelmente isso aconteceu justamente por sua capacidade de sentir empatia e compreender o que era necessário para um lugar como aquele funcionar. A maneira como ele lidou com a fuga de Angie, talvez a mais hilária da história da ficção e que acabou dando à personagem um divertido espaço no episódio, evidência essa competência do personagem.
Isso nos leva à decisão de Caputo de se tornar um mais novo líder sindical de Orange Is The New Black. Confesso que, depois do discurso de Danny, que basicamente disse que é demodê se importar com os outros e que hoje em dia todo mundo só se importa consigo mesmo (pura verdade!), achei que Caputo iria tomar uma resolução para sua vida e passar a agir com egoísmo. Mas não é assim que ele funciona. Caputo tem muitos defeitos e erra bastante, mas tem essencialmente em si o instinto de fazer o que é certo. E não é um simples discurso que elimina isso de alguém.
Mas não podemos confundir a decisão de Caputo com puro senso de justiça. É claro que ser visto como um líder, ser amado, ser valorizado pela sua posição é algo sedutor aos olhos dele. Ele não quer simplesmente fazer o que é certo. Ele quer também ser reconhecido, ser venerado por isso. Pra ele, é como um direito conquistado: você faz o que é certo pelo bem coletivo, mas as pessoas lhe devem em razão disso. Em uma situação que me lembra bastante uma discussão interessante entre Joey e Phoebe, de Friends, Orange Is The New Black lança a seguinte questão: afinal, será que existem mesmo boas ações altruístas?
Big Boo nos dá, no mesmo episódio, a esperança de que a resposta seja sim. Foi interessantíssima sua maneira de lidar com o estupro de Pennsy, e, confesso, muito bacana vê-la compartilhando e legitimando toda a visão que eu havia explicitado na review anterior sem ter assistido ao episódio e usando essa capacidade analítica para tornar-se uma ajuda efetiva à amiga.
Às vezes, é necessário um tratamento de choque para que as pessoas percebam que precisam tomar uma atitude e mudar, não se conformar. Foi exatamente o que Boo fez quando mostrou que a maneira como ela lidava com as relações entre gêneros era basicamente uma prostituição velada. Mas nada disso era intencional. Foi assim que Pennsatucky aprendeu a enxergar os homens e as mulheres. Na cabeça dela, essa relação abusiva era algo relativamente normal. Com esse chacoalhão, restou à caipira render-se e compreender que as coisas estavam erradas. Agora, só me resta ansiar para ver qual será o plano de vingança de Big Boo nessa parceria maravilhosa com a nova amiga.
Quem, por outro lado, não tem se mostrado nada altruísta é nossa mais nova “gênia” do crime, Piper Chapman. Diante das novas exigências da greve liderada por Flaca – que justificou totalmente o episódio centrado na personagem, pois precisávamos compreender de onde a latina vem para aceitar sua posição de líder desse movimento -, Piper ficou completamente perdida. E eis que a cavalaria vermelha chega para ajudá-la (por módicos 8% do lucro, claro). Mais uma vez a relação entre a protagonista e Red, que começou lá na primeira temporada e foi extremamente bem desenvolvida pela série desde então, beneficia absurdamente a trama da nossa Katy Perry loira.
A experiente Red revelou-se a parceira ideal para esse tipo de crime: não só guiou Piper por todo o processo para atender as exigências das “funcionárias” como também a orientou muito corretamente (e digo “correta” do ponto de vista de eficácia de gestão, não de tratamento humano, obviamente) a demitir aquela que incitou todas contra a chefe, cortando a cabeça correta da hidra e livrando-se de muitos problemas certos no futuro.
Quem fez uma leitura perfeita de toda a situação foi Alex (que me matou de rir na cena em que engana Lolly, vale dizer): Piper está tão embriagada por poder que não percebe onde está se metendo. Tornou-se uma pessoa egoísta, aproveitadora, sem noção de certo e errado. Basicamente o que a própria Alex já foi um dia. Aliás, uma das coisas que mais têm me agradado nesta segunda metade da temporada é essa versão reformada de Alex Vause. Depois de experimentar a liberdade e compreender seu valor, nada mais natural que sua nova postura de tentar fazer o que é certo e não se envolver em encrencas. Acho justíssimo, portanto, que ela tenha decidido terminar o relacionamento e deixado Piper livre para se engalfinhar com a Justin Bieber – que, suspeito, acabará ficando entediante com o tempo.
Toda essa situação funciona para instigar a seguinte reflexão: quanto o sistema carcerário é realmente eficaz em sua função de recuperar os detentos para devolvê-los a sociedade? Piper era basicamente uma patricinha que cometeu um erro. Agora, com a influência de uma mafiosa experiente como Red, usou a inteligência que tem de sobra para se tornar uma líder do crime organizado. Será que encarcerá-la junto a essas mulheres é mesmo uma boa ideia? Será que Soso, que está em situação similar, acabará com um destino semelhante? Não sei, mas sei que estou louco pra ver como isso vai acabar. E já desesperado por saber que logo precisarei esperar mais um ano pra ver como continua.
Observações (é tanta minitrama paralela que as observações ficam quase maiores que o texto!):
– Impossível não se chocar com a cena de sexo entre Caputo e Fig, e sensacional a análise impecável que a bitch fez dos motivos que o levaram a fazer sexo com ela.
– Soso desafiou a religião normangélica e sofreu sua primeira agressão física. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. E a reação (ou falta de) de Norma ao que está acontecendo responderá exatamente à pergunta que fizemos após Tongue-Tied: o que a leva a assumir a postura de profeta? Fé? Empatia? Ou o poder e os benefícios que ela gera? Logo poderemos bater o martelo, mas, por ora, a cena em que a mudinha dá de ombros e come o chocolate que ganhou de suas seguidoras é muito sugestiva.
– A briga entre Sophia e Gloria finalmente chegou a proporções desastrosas e está transformando todo o presídio em um bando de transfóbicas. Foi para isso que o roteiro precisou inserir Aleida nesse contexto, já que esse tipo de falha de caráter não combina com nossa ex-chefe de cozinha. E, mais uma vez, a série erra com Taystee, que deveria ser uma personagem mais leve do que vem sendo tratada nos dois últimos anos (ou ter arcos interessantes que compensassem essa imagem negativa dela que insistem em passar).
– Healy finalmente conseguiu o que queria e deu um baita golpe para derrubar Berdie. Eu já o detestava bem antes disso, mas agora mal posso esperar pelo retorno triunfal da psicóloga para pôr esse mala no lugar dele. #HealyGolpista
– Lindo o diálogo entre Suzanne e Poussey, em que elas finalmente fizeram as pazes. Fiquei muito tocado.
– A review do episódio anterior ficou tão concentrada na importante discussão sobre o estupro que eu acabei me esquecendo de comemorar a participação do nosso saudoso Pablo Shreiber como Pornstache. Não sei o que é mais perturbador: a fixação dele por Daya e o bebê ou o visual de cara lisa e mullets.
– Adorei o presentinho que ganhamos dos roteiristas! Rosa é bad-ass até em uma participação especial minúscula nos flashbacks!
– Desculpem-me pela demora pra publicar esta review. Acabei furando o cronograma, mas tive alguns contratempos e não consegui publicar no mesmo ritmo frenético das duas semanas anteriores. Segunda e terça que vem tem mais, sem falta! =)














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