Carrie e suas asas quebradas.
Digamos que o ser humano fosse dividido em dois grupos, como bem sugere Otto, nesse episódio da quinta temporada de Homeland: os que são terrenos, que permanecem atentos a tudo que for prático e seguro; e os alados, que preferem o risco das incertezas do horizonte, voando pelo prazer da descoberta, rejeitando laços de permanência e com isso, muitas vezes, forçando a própria vida a desconhecer os limites.
Oriole é o nome de um pássaro conhecido pelas penas douradas e também o nome do roteiro dessa semana, focado em como Carrie avança, intensamente, na sua investigação para descobrir porque se tornou um alvo. Ela é a que nasceu com asas, a que se vê obrigada a voar mesmo quando estabeleceu um ninho. E é bem isso mesmo… Nessa temporada os movimentos dela não são parte de uma escolha e sim de uma circunstância inevitável.
Ironicamente, muita gente está voando nesse ponto do show. Oriole estabeleceu a possibilidade de que Saul encontre com Carrie numa rota cada vez maior de afastamento da CIA. É um caminho que me deixa intrigado, porque ao que me parece, uma deserção não deve ser dos pecados mais perdoáveis da agência. Saul está num terreno movediço e mesmo que ao final da temporada a verdade escondida o redima de alguma culpa, a relação com seus superiores esfarelou-se e há muitas desconfianças sendo fortalecidas no processo.
Quem andou voando de modo ousado demais também foi Allison. Engraçado como por todo o episódio vimos a personagem amargar um perigo latente de ser desmascarada, arriscando tudo numa mentira que se anunciava como uma cilada. E tudo isso porque ela achava que, uma vez em posse dos documentos, Carrie encontraria a verdade em segundos. Seria Carrie, enfim, a responsável por capturar Allison de seu voo espião. Porém, por razões que ainda desconhecemos, não só Carrie não chegou até Allison, como também procurou-a para pedir ajuda, aparentemente. O pássaro Oriole voando pros braços errados, enfim.
Allison se tornou uma personagem interessante e que merecia ter seu desenvolvimento estendido além desse ano. Sabemos que provavelmente ela morre no season finale ou perto dele, mas como o próprio parceiro dela diz, Allison está numa posição muito privilegiada, onde nenhum outro espião russo já esteve e com uma atenção dramática devida, ela pode se tornar um personagem fixo de grande valor pro show. Eu tenho profundo interesse em acompanhar a forma como isso impacta a vida de uma pessoa e pelo ataque de pânico que ela teve nesse episódio, deu pra ver que muito caldo poderia vir daí.
Quinn continua profundamente desinteressante pra mim. Sei que vocês discordam disso e acham que estou de implicância, mas ainda não me desce o novelo de coincidências que beiram o absurdo. Não só ele foi salvo por um cara que o levou pra uma célula jihadista, como também agora um dos sujeitos tem laços com um importante alvo da CIA. Chega a ser cômico… Quinn passou de caçador nas mãos de Saul para caçador nas mãos de Dar.
Por fim, essa semana foi uma semana complicada para Homeland… Os ataques a França, organizados pelo Estado Islâmico, fizeram com que a dramaturgia de Alex Gansa e Howard Gordon voltasse a fazer mais sentido do que gostaríamos. Muito corretamente, um recado aos espectadores foi colocado na tela antes do início do episódio, principalmente porque o EI também tem sido muito citado no enredo dessa quinta temporada. A sensação no set da série deve ser de apreensão, principalmente porque se antes dos ataques a abordagem já devia ser delicada, agora ainda mais. O problema é que já deve estar tudo filmado e não adianta mais tentar evitar qualquer coisa. Fico preocupado às vezes, que essa organização comece a atacar até mesmo a série. Sei lá… Eles são loucos. Infelizmente, vivemos num mundo em que a vida desafia a ficção com interferências que poderiam muito bem nunca virem a ser reais. O que aconteceu em Paris foi como um roteiro agitado de 24 Horas ou um traço sócio-político predominante de Homeland. A tristeza reside no fato de que aqueles que morreram não eram figurantes remunerados… Eram vidas pulsantes, que jantavam, assistiam a um show, a um jogo de futebol; e pretendiam voltar para suas casas logo em seguida, para quem sabe, enfim, assistirem a um episódio de seu show favorito.
Carrie’s Pills: Otto me deixou com a pulga atrás da orelha com aquilo de querer não renovar o contrato com Carrie. Aquela forma de falar sobre a ex-agente não combina com o jeito sempre sedutor com o qual ele fala com ela. Aliás, muito bom ver o diálogo entre ele e Jonas não acontecendo em inglês.
Carrie’s Pills 2: Qual a senha do Wi-Fi? Papa Francisco.
















