Os imorais.

Spoilers Abaixo:

Quase sempre o conceito de certo e errado se perde dentro das nossas próprias necessidades. Enquanto muitos fazem o errado pensando estar certo, outros fazem o certo sabendo que vai dar tudo errado. A moral – nome de guerra dos apelidos “certo” e “errado” – é um código implícito que dita as normas do que é permitido ou não em sociedade. Ela agrupa valores vitalícios, que servem para nos informar o que é permitido perante o que os outros querem e perante o que nós queremos. Por isso, o tempo todo, estamos flexibilizando a moral para satisfazer as vontades dos outros, ou a nossa.

Partindo desse princípio, a moral é um elástico ficando frouxo. A gente finge que tem, mas por motivos que sempre consideramos justos, vamos esticando esse conceito pra um lado e pro outro, para justificar nossas ações sem que sejamos condenados ao inferno. A moral é só isso… Um grande medo de ir para o inferno.

Quem precisa mentir muito durante a vida, sabe bem o que é sentir-se imoral. Quem precisa matar como consequência do trabalho, aprendeu a transformar a moral em massinhas de modelar. Não existe verdade absoluta. Sob alguns aspectos, matar, roubar, fornicar e mentir, são desvios permitidos ou até mesmo, chancelados. Assim fica fácil para quem organiza os próprios objetivos. A desmoralização é inerente à raça humana.

Homeland apresenta para todos nós, a cada semana, a história de dois mártires da imoralidade: Carrie e Brody. Dois personagens construídos sobre a base do que é errado na maior parte do tempo, mas que no caso deles, está sempre permitido pelo víeis da “justiça”. Essa semana, nesse irônico episódio intitulado I’ll Fly Away, passamos o tempo todo diante de duas pessoas que nesse ponto da vida delas, são incapazes de determinar o que não são mais capazes de fazer.

Como percebemos na semana passada, Brody está numa rua sem saída. Pra onde quer que ele corra, vai se dar mal no trajeto. Ele chegou a um ponto em que precisa avaliar o que pode ser menos danoso para si. Segundo essa premissa, para Brody, o menos devastador seria impedir outro ataque que mataria muitos inocentes. Sendo assim, ele decide parar de mentir muito para os “mocinhos” e começa a mentir muito para os “vilões”. A moral de Brody lhe diz que é isso que ele precisa fazer… O problema é que o sacrifício para proteger o mundo, inclui outra série de leviandades. Ele continua traindo a esposa, a filha, o governo… Agora trai também os “amigos” que aprendeu a respeitar enquanto esteve preso. Brody não consegue escolher um lado e enfrentar as consequências. Ele oscila com o vento mais forte… Ele só sabe trair.

Então trai Roya novamente, e de quebra, trai o esquema de espionagem que o livrara da cadeia. Isso é completamente compreensível. Um rato acuado tenta qualquer brecha pra escapar. O problema é que os valores de Brody são tão sujos, que no meio do processo, ele ainda consegue esquecer a culpa, a mentira, a relação em frangalhos com a filha, a esposa… Ele consegue esquecer tudo, só para poder transar com aquela que ainda o faz sentir-se no controle.

Chegamos a um ponto com Brody que dá pra começar a temer o futuro dele na série. Homeland está indo tão bem na crescente de terrores desse personagem, que começo a pensar que não existe muita saída pra ele depois daqui. O que começou com um certo cheiro de equívoco (a mensagem de texto no meio de uma reunião da CIA já é um ícone do absurdo dramatúrgico), acabou encontrando seu caminho definitivamente. Brody virou um escravo da própria moral amolecida, e agora não sabe qual sistema precisa trair em primeiro lugar. Até porque, o encontro com Nazir no final do episódio, pode acabar fazendo-o recuar para antigas posições.

O engraçado é notar que o contraponto de tudo isso é sua filha. Dana se contorce para tentar seguir os preceitos morais que lhe foram incutidos desde pequena, mas pra onde quer que ela olhe, só vê mais e mais gente esticando esses preceitos para tirar algum proveito do resultado. Antes era a máquina governamental que impedia a verdade, agora é o lado da vítima que precisa de uma fatia do bolo. Sob esse aspecto, a trama do atropelamento ganha um papel interessante, ainda que a saga moral de Dana precise encontrar um fim, antes que comece a nos aborrecer.

Carrie é aquela coisa de sempre… Ela não conhece limites. Ela é uma das personagens mais arrogantes que temos na televisão, porque acha que tudo que faz está perdoado por ser fruto de uma vontade de “fazer o bem”. Até aí ok… De fato, nenhuma daquelas loucuras de Carrie faz tanto mal a alguém, como faz para ela mesma. Foi extremamente emblemático o momento em que ela faz sexo com Brody enquanto todos na central ouvem. Ali ficou claro para todos eles que aquela mulher está perdida, e que por melhor que sejam as intenções dela, é nojento ultrapassar limites como esse e querer nos fazer acreditar que não existem aspectos pessoais envolvidos.

Tem sido uma boa leva de episódios, cheios dessa natureza psicológica implícita e com bons momentos de tensão. A sequência final foi realmente incrível, e me fez ficar o tempo todo me perguntando o que ia acontecer. Aqueles dois personagens imorais, vítimas de si mesmos, no meio do escuro, no mato, sem rumo nenhum… Ficou muito claro essa semana que não há diferença de hierarquia entre Carrie e Brody. Os dois são completamente falhos, cegos, descontrolados, e pensam que estão fazendo o melhor, quando não estão.

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