Arrow transforma um episódio promissor em um verdadeiro pesadelo.
O que é ter potencial? Ter potencial é estar destinado a fazer coisas grandes, utilizando aquilo que você já tem em mãos. É um exercício de fé, na verdade. Arrow é um série que desfruta de tal potencialidade. Tanto para o bem, quanto para o mal, o roteiro da produção sempre deixou claro que existem sempre dois caminhos a serem seguidos: o da luz e o das trevas. Utilizando a própria temática desenvolvida para a temporada, o que aconteceu desde a inclusão do ano três, foi uma imersão gigante em um emaranhado de más decisões e pura escuridão narrativa. A série do Arqueiro Verde deixou de ser uma fonte de boas histórias permeadas por relacionamentos amorosos e interpessoais, se transformando no exato oposto. Hoje o potencial ainda existe, mas a quantidade de más decisões já sufoca lentamente qualquer nova tentativa de resgate do que antes era reverenciado e utilizado como exemplo.
Monument Point é o típico episódio desenhado para se transformar em um grande motivador de final de ciclo. O time é colocado para frustrar o grande plano do vilão, mas ao mesmo tempo sem qualquer confronto direto. Este é o momento em que o envolvimento emocional do telespectador ditará a condução dos últimos capítulos da história proposta. Geralmente tudo se torna extremamente pessoal. Foi exatamente assim com Slade Wilson, após o assassinato da Moira, e também como funcionou com Ra’s ao ter uma ameaça direta a cidade e todos os outros personagens que ali existem. O grande problema deste “fôlego” antes do grande mergulho, é que ele se baseia no extremo oposto do envolvimento, terminando por afastar a audiência de uma aproximação maior. Tanto que Damien só aparece no minuto final, e a interação entre o Calculador e Felicity apenas supriu parte do necessário. O grande erro, contudo, foi ter se baseado em uma decisão complexa e muito arriscada para a premissa da série.
A explosão da bomba nuclear é um tipo de recurso interessante, especialmente por inferir, mais uma vez, uma carga dramática muito grande para o time de heróis de Star City. Contudo mantém um peso grande demais, um que vai além do que a série, ou o próprio universo compartilhado da DC está disposto a chegar. A destruição de uma cidade através do uso de uma bomba nuclear não é um assunto leviano e que expõe apenas Arrow a qualquer tipo de consequência, mas sim todo o mundo. Em pleno século XXI a destruição de uma cidade e a morte de milhares de pessoas retém uma importância gigantesca, especialmente quando levamos em consideração que a destruição veio de um silo russo. Qualquer explicação derivada precisará corresponder a algo superior a culpa pessoal. E para ser totalmente honesto apenas dois resultados fariam sentido dentro desta equação: 1) Barry voltar no tempo, impondo outro peso para a “correção” da morte de várias pessoas. 2) Terceira guerra mundial. De qualquer maneira, sendo a primeira, ou a segunda opção, o desfecho não será agradável.
Neste ponto questiono a própria função de “contadores de histórias” dos roteiristas da série. É sempre importante criar períodos de choque, eles fazem parte fundamental da abordagem televisiva moderna, especialmente após a introdução de séries como Game of Thrones e Grey’s Anatomy, recheadas de eventos em que ninguém está seguro. Mas até mesmo estes eventos precisam de muita responsabilidade. A morte, a destruição e a mudança brusca de personagens, não devem funcionar apenas dentro do episódio exibido, ou para criar comentários após o final. É mandatório que exista um tipo de aprendizado, ou consequência, direta ou indireta. Entretanto ao analisarmos não apenas o vigésimo primeiro episódio, mas todo o contexto de Monument Point, a morte da Laurel não é ao menos um eco. Então fica fácil acreditar que a explosão da bomba não terá o peso que precisa ter.

Após a última participação de Anarquia eu comentei que o melhor para a série e para a personagem Thea seria um envolvimento maior entre os dois. Por sorte trouxeram o “vilão” de volta para criar algo realmente interessante para a jovem Queen. Dentro do episódio este foi um dos lados mais proveitosos, especialmente pela compreensão do futuro de Thea e a exposição de como as mulheres da série terminam. Anarquia é um personagem fabricado principalmente pelas atitudes da Speedy. Ambos funcionam de maneira similar, com mentalidades quebradas. Até pouco tempo atrás a sede de sangue daquela mulher competia a ela um peso significativo dentro da trama, mesmo que por vezes pouco interessante. Dentro da narrativa sua posição hoje é insignificante e girar ao redor de um homem não é mérito e sim demérito. Aquele diálogo final deverá funcionar como força de mudança para uma heroína que precisa se reinventar. Infelizmente o próprio roteiro barra um desfecho satisfatório ao impor a morte de Alex. Qualquer atitude tomada agora soará como uma consequência da perda daquela vida, não apenas da compreensão do caminho a ser tomado através da força. Mesmo quando oferece o empoderamento, Arrow termina por tomá-lo com extrema crueldade.
Optei por desprezar completamente a existência dos flashbacks, já que não agregam absolutamente nada a trama principal da série, mas não consigo fingir que não estão acontecendo, especialmente quando a cena utilizada neste episódio também já havia aparecido na visão do Oliver no anterior. Quando aconteceu eu imaginei que havia sido um pedaço de informação que eu não tinha me atentado, mas na verdade era uma revelação de um momento “importante” para o desfecho da trama na ilha. Essa falta de cuidado apenas expõe que não existe mais nenhum motivo real para que a série continue explorando o passado do Arqueiro, especialmente quando o próprio presente não está recebendo a devida atenção da equipe criativa. Utilizar o “plot twist” do flashback em uma visão durante o episódio anterior é praticamente uma confissão de que ninguém está dando a mínima para aquela porção, nem mesmo produtores e roteiristas. Qualquer outra história dentro do passado, independente da qualidade, soará como teimosia e não mais necessidade do roteiro. Que tipo de Oliver nós precisamos conhecer anos atrás, para enriquecer a personalidade do atual? A resposta é nenhum.
Arrow teve a oportunidade de ouro de começar a funcionar sua trama nesta reta final, mas optou por tomar decisões com um peso maior que a própria produção. Detonar a bomba nuclear não foi apenas um movimento questionável, mas demandará uma explicação acima da média. Contudo ao relegar a própria imagem de Laurel um tipo de continuidade dentro do roteiro, a produção de Marc Guggenheim já mostrou, pela vigésima vez, que o foco não é na coesão e sim no choque momentâneo. Milhares de pessoas perderam a vida, mas essa morte não poderá ser apenas mais uma motivação para o embate entre Oliver e Damien, que já havia recebido a queda da Canário como bom motivador. Principalmente, não poderão fazer deste evento um motivo para girar ao redor de Felicity, afinal este é um assunto maior do que ela. Decisões erradas podem afundar qualquer premissa boa, imaginem o que ela não fará com uma já abalada?
Easter eggs outras informações
– Nem mesmo a direção de Kevin Tancharoen ajudou a elevar o padrão de lutas da série. O embate entre Thea e Anarquia foi interessante, mas alguns confrontos físicos deixaram a desejar. E sim, estou me referindo a luta em que o inimigo deixa uma nuvem de poeira antes de atingir ao chão, bem padrão Power Rangers. Lembrando que Kevin é irmão de Maurissa Tancharoen, showrunner de Agents of S.H.I.E.L.D., e diretor e roteirista de Mortal Kombat: Legacy.
– Marc Guggenheim já havia criado uma Monument Point e o subúrbio de Havencroft, que é o nome da cidade que recebeu o impacto da bomba nuclear. Isso aconteceu durante seu período cuidando de Justice Society of America.
– Para quem não sabe, Guggenheim também está, atualmente, cuidando da revista em quadrinhos de Agents of S.H.I.E.L.D. E o trabalho dele lá na Marvel dá um banho no que está acontecendo em Arrow. Quem entende?
– Também foram feitas menções as cidades já exploradas pela série: Markovia e Corto Maltese.















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