O inalcançável. 

Desde que a antologia de Ryan Murphy estreou, que eu acho que já dei uma passada pelo conceito de horror umas quatro vezes. Uma em cada temporada, pelo menos. Isso sempre se fez necessário por conta dos constantes enganos com o conceito de “terror”, que tem uma pegada diferente. O horror, por essência, é uma alegoria. Clássicos como Rocky Horror Show e Frankenstein deixam bem evidente que além de um exagero visual que passeia pelo choque, os recursos dramatúrgicos trabalham com estereótipos e figuras de linguagem. Eu sempre uso a palavra “alegoria” para falar da série, por razões que já ficam evidentes no seu significado oficial:

“Uma alegoria é uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos que o da simples compreensão ao literal. Diz B para significar A. Uma alegoria não precisa ser expressa no texto escrito: pode dirigir-se aos olhos e, com frequência, encontra-se na pintura, escultura ou noutras formas de linguagem. Embora opere de maneira semelhante a outras figuras retóricas, a alegoria vai além da simples comparação da metáfora. A fábula e a parábola são exemplos genéricos (isto é, de gêneros textuais) de aplicação da alegoria, às vezes acompanhados de uma moral que deixa claro a relação entre o sentido literal e o sentido figurado

O argumento alegórico sempre foi a base da minha defesa para gostar muito do que via em Coven. A terceira temporada foi a que mais “virtualizou significados”, deixando a costura narrativa em segundo plano para trabalhar “sentidos literais e figurados”. O que valia mais em Coven era a expressão visual e a abordagem imediatista de cultura pop. Trabalhar personagens na sua forma dramática (e me refiro aqui ao gênero drama, que por definição investe em impulsos psicológicos atrelados ao homem comum) nunca foi a palavra de ordem daquela temporada. Aconteceu em muitos momentos, mas apenas como consequência de determinadas empatias.

Por essa perspectiva, dá pra entender que todas as outras duas temporadas antes de Coven também tinham suas boas doses de alegoria. Mas, junto dela, um apoio dramático que se estabelecia nas trajetórias de protagonistas. As mulheres vividas por Jessica Lange sempre têm estruturas ligadas ao gênero do drama, mas, as mulheres vividas por Frances Conroy são sempre mais figuradas, com um pé e meio na “virtualização do significado”. Isso não quer dizer que Jessica não olhe para o metafórico às vezes e nem que Frances não sinta como real algumas das energias lúdicas de suas personagens… A beleza de American Horror Story é exatamente essa: ela não nasceu para ser uma janela da vida real, mas ela descobre correlação humana no meio de sua insanidade. Sendo assim, ela não pode ser criticada como se critica um drama em forma bruta (como Mad Men).

Lendo os comentários da review passada eu vi uma quantidade grande de leitores divididos entre não verem desenvolvimento de personagem e acharem tudo dramático demais. Preciso discordar imensamente de que essa temporada não desenvolve personagem, já que ela vai na contramão expressa do que Coven fez. Nada em Freak Show é aleatório e todos os personagens de núcleo tem storyline definida e determinada. É a atenção ao desenvolvimento de personagem que determina que com um filho como Dandy, Gloria não podia mesmo permanecer viva por muito tempo. Que o palhaço assassino seja o arauto das psicopatias latentes de outro personagem. Que Jimmy tenha começado tentando defender a todo custo sua “família” e com isso tenha perdido o controle de suas fraquezas. Ao mesmo tempo, seus laços de sangue vão realmente desmoronando. Desenvolvimento de personagem é Paul falar sobre como seria tudo perfeito se seu rosto clássico fosse acompanhado por braços normais, e acabar namorando uma menina perfeita que se torna um deles. Mais atento ainda é quando o roteiro menciona que Paul fez suas tatuagens para abraçar a estranheza, enquanto sua amada é obrigada a fazê-las. Isso é analogia, correlação e desenvolvimento coerente. Nem sempre claro, mas é perscrutável.

Já o “drama demais” eu não posso refutar, realmente é uma questão de gosto. Acho sensacional que numa obra que lide com alegoria, o drama se force de modo tão elegante. Aliás, o que faz com que American Horror Story não fique no limítrofe do mau gosto onde geralmente estacionam as obras de horror, é exatamente a elegância promovida pelo recurso dramático. Considero o drama necessário porque é ele que faz o trabalho de contenção criativa, que para o horror é tão complacente, e que poderia tirar das histórias seu fator de identificação. Coven navegou por águas descontroladas porque foi sempre mais alegoria do que drama. Freak Show não tinha como não ser drama. A bruxaria não é um conceito literal, mas a deformidade física é. Se não houvesse esforço dramático na hora de lidar com aqueles personagens, não poderia haver uma obra compromissada com a qualidade.

O teaser desse episódio, por exemplo, foi um dos grandes momentos do ano, justamente porque estavam lá, o drama totalmente relacionável de Jimmy e a alegoria de horror nas motivações de Dandy. O psicopata age para comprometer o garoto lagosta e consegue. Quando Dandy costura a cabeça da vendedora da Avon no corpo de Gloria (Ryan, te amo), ele está produzindo um quadro de horror cheio de apelo. Porém, nele, em Jimmy, em Gloria, em quase todos os personagens, sempre houve espaço para as duas abordagens. A série é uma colcha de retalhos de drama, horror, literalidade, alegoria, referência e cultura pop. Alguns acham que isso é confuso, eu acho que isso é brilhante. E a vida segue…

Tupperware Party Massacre foi dividido em dois grandes atos. Primeiro tínhamos Dandy agindo descontroladamente após a morte da mãe. De certa forma, ela era uma das poucas coisas que ainda impediam-no de se jogar definitivamente no desejo de matar. Não esperava outra coisa dele, mas minhas expectativas foram surpreendidas por um personagem diferente, seguro. A constante choradeira de Dandy estava diretamente correlacionada ao seu papel de filho único e mimado. Agora, ainda que de modo delusional, ele é um homem desgarrado do cordão umbilical. Sendo assim, matar por matar passa a ser um hábito protegido pelo maior escudo de todos: o dinheiro. 

Minha mãe fazia reuniões de Tupperware na varanda da nossa casa, o que só torna a coisa toda do massacre mais perturbadora. Notem como até mesmo as escolhas criminosas de Dandy tentam se relacionar com o que já vimos na temporada. Estava claríssimo que ele também teria que se livrar de Regina e acho SENSACIONAL a forma como isso aconteceu. Ele jogou com ela usando o argumento mais que apropriado: principalmente naquela época, o dinheiro comprava tudo. Ainda assim, o tiro certeiro e inesperado que o policial dá em Regina me deixou com a boca aberta alguns segundos. Foi uma bela virada e mal posso expressar como estou satisfeito com todas essas mortes. Em obras do gênero é assim, as pessoas morrem. E mesmo que os mortos ainda apareçam em visões e lembranças, na proposta de Freak Show a morte efetiva é essencial. 

O outro ato dizia respeito a Dot e Bette, que pressionadas pelo plano de Elsa, não deram as caras na semana anterior. Eu compreendo perfeitamente que na vida de gêmeos siameses, a cirurgia de separação seja uma espécie de assunto recorrente. Essa é a razão pela qual esse tem sido o plot principal das duas. Ao mesmo tempo, me incomoda um pouco que Dot e Bette não entendam que o tipo de ligação delas impossibilita que as duas permaneçam vivas se separadas, sobretudo porque não dá pra partir um corpo só no meio e cada uma ficar com uma perna, um braço, meia barriga e meia vagina. É inconcebível e elas deviam saber disso. A discussão teria que ter sido, desde sempre, sobre quem iria sobreviver. Talvez por isso o foco tenha sido esse nessa semana… Propositalmente, a semi-consciência a respeito partiu de Bette, que renunciou em nome da irmã, aniquilando seus diabolismos. 

O trabalho de Sarah Paulson esteve irrepreensível. Por várias vezes eu me esqueci que se tratava da mesma atriz. Bette e Dot tem energias muito diferentes e na longa sequência em que decidem não se separar mais, esses impulsos ficaram ainda mais evidentes. A cena em que Dot tenta se entregar a Jimmy também foi muito bonita, com texto sensível e cheia de delicadeza. Adoraria ter visto o sexo acontecer com Bette do lado “saindo de órbita”, mas, infelizmente, Jimmy continua declarando seu amor por Maggie enquanto parte pra cima da moça gorda. Ele não tem sido coerente e tem enchido bastante o saco, mas precisamos levar em consideração que ele perdeu a mãe quase ao mesmo tempo em que descobriu o pai, some-se a isso a morte de Meep e Ma Petite, e dá pra entender que de acordo com a personalidade dele, o luto alcoolizado é condizente.

Correndo por fora de tudo isso, estava Dell. Gosto imensamente do personagem justamente porque sua homossexualidade latente é o que ele considera como sendo o que o assemelha aos deformados do circo. Já havia falado sobre isso antes, em outras reviews. Freak Show explora a ideia de que todos somos aberrações sociais, mesmo com braços extras ou menos pernas, mas também dá a pista de que nossos comportamentos e instintos podem ser disfarçados, possibilitando uma existência mais segura. Com aqueles que tem deformidades evidentes, não dá pra ser assim. Isso, de certa forma, liberta. Em plenos anos 50, a homossexualidade era mais abominável do que ter duas cabeças, mas era tão difícil sobreviver ignorando-a, quanto sobreviver sem sua cabeça sobressalente. O suicídio foi uma saída previsível, mas coerente. A cena entre Chiklis e Denis tinha uma energia sexual grande, era maledicente no olhar de Spencer e perturbada no olhar de Dell, mas precisava ter ido mais longe, para que o inferno do strong man fosse ainda mais palpável… Não resistir a fazer sexo com o homem que o obrigara a matar um inocente.

Como tem acontecido toda semana, a dinâmica continua mudando de um episódio pro outro. Agora Dandy se livrou de suas testemunhas, Jimmy está preso, Elsa não tem como ludibriar as gêmeas e os planos de Spencer perdem cada vez mais suas opções dissimuladas. Essas possibilidades abertas a cada episódio ajudam a defender a dramaturgia da série… Mesmo que envolta da alegoria do horror, ela tem o drama pessoal na pauta, assim como a costura narrativa crescente. Está ali, pode não agradar a você e ao seu amigo, mas não é o mesmo que não existir. Freak Show é uma das temporadas mais bem planejadas da série, mas que tem sim uma pulsação diferente, mais atrelada ao aspecto humano (assim como Asylum) e fazendo, com isso, uma volta de conceitualização que considero ainda mais poderosa: o bizarro e o estranho deveriam ser alegóricos, mas existe tanta estranheza na alma humana, que a maior alegoria mesmo é a pureza e a generosidade.

Esmerelda’s Notes: Pelo barulho que fazia enquanto Spencer sacudia o pênis, ele devia estar batendo em seus tornozelos. 

Esmerelda’s Notes 2: O admirador de Desi será outro Dell ou só o que lhe interessa é o terceiro peito? 

Esmerelda’s Notes 3: Finalmente uma cena com Maggie dando uma consulta.

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