Quem disse que o mundo quer conhecê-los?

O maior problema de toda deformação é a necessidade de escondê-la para não constranger a rotina “normal” do mundo. Geralmente quem convive com isso – tendo ou testemunhando – se ajusta bem na diferença, por mais desconfortável que ela seja. A questão é dar um passeio entre os pedestres, provocar aquela discrepância de ver formas ou contornos que não se aplicam ao que entendemos como certo. Essas pessoas passam por nós como se nos forçassem a admitirmos a autodepreciação da natureza. Até a sagrada formação de uma vida humana, poetizada pela arte e santificada pelos corações religiosos, até ela é imperfeita.

Esconder-se é o caminho mais viável, porque o olhar do outro sempre incomoda mais que o olhar para si mesmo. Se você não é aceito, junte-se aos que sentem o mesmo que você… Essa é uma metáfora para todo e qualquer sentimento de inadequação. No fundo, o que o “imperfeito oculto” mais deseja é o tédio da “normalidade”… Coisas simples, como ter uma mão com cinco dedos, torna-se para essas pessoas uma chance de viver o prazer maior (subestimado por nós) de ter o que temos o tempo todo: acesso.

Assim, Jimmy se torna o aspecto político principal de Freak Show. Claro que por estarmos falando de Ryan Murphy, esse levantamento de bandeira social é todo distorcido. Jimmy acaba confirmando os medos da sociedade ao perpetuar o estereótipo do “estranho violento”. Na lógica deles, matar era o mais seguro a se fazer, mas essa abertura de portas que eles invocam não combina com isso. Por isso essa temporada é tão interessante… Ao decidir não romantizar a aberração, tornando-a outra representação do “monstro com carinho”, o programa reforçou um ciclo vicioso: a sociedade não confia neles, e eles não são confiáveis.

A gente sabe que normalidade é uma questão de ponto de vista. O que Dandy tem de normal? São fantásticas as cenas dele, não só pelo contraste luxuoso provocado pela austeridade de Gloria, mas também porque ele está entediado com a sorte, com a fortuna… Dandy quer sentir alguma coisa, medo, dor, pavor, ansiedade… Quando começamos a acompanhá-lo, ele ainda acha que poderá conseguir isso ao juntar-se aos mitológicos serem antinaturais. Mas, ao desistir de insistir nesse descabido ingresso no circo, essa projeção pessoal, essa busca por adrenalina, vai acabar se deslocando para perigosas direções.

Saber que Dandy toma mamadeira e brinca de teatro de fantoches foi uma delícia… American Horror Story sempre promove encontros circunstanciais poderosos e esse entre ele e o palhaço tem seu deboche implícito. O que acontece quando a criança mimada que ganha um palhaço assassino, começa a achar que tem que ser seu aprendiz? Esse é um núcleo que está funcionando imensamente pra mim. Sem dúvida nenhuma, a “mentoria” estudada por Dandy agora, vai lhe dar a identidade e o deleite que ele vem buscando há muito tempo… E se a boca verdadeira do palhaço não te enojou, você tem estômago de ferro.

As adições de Michael Chiklis e Angela Basset também foram muitíssimo bem encaixadas. Mesmo que pareça providencial que o pai de Jimmy tenha ido direto pra lá, precisamos levar em consideração que os circos de aberrações estavam mesmo em baixa e ele deve ter tido problemas verdadeiros em conseguir um lugar pra se apresentar. Dell é uma incógnita ainda porque ele não parece ter nenhuma deformidade e dificilmente levante qualquer tipo de peso super fantástico… Só posso crer que sua atração por doses complexas de androginia é o que o levou a esse tipo de vida. Não vamos esquecer que ele teve um filho com uma mulher de barba e agora está casado com uma que também tem um pênis. Não duvido nada que essa seja mais uma ironia de Ryan Murphy, que deu ao “StrongMan”, uma sutil e estabelecida bissexualidade. A mulher de barba até dá pra abandonar, mas a que tem pênis não… Por ela ele até mata. Se isso não é sensacional eu não sei de mais nada.

O sujeito chegou ao circo ditando regras e abrindo uma matinê para que Dot e a irmã possam se apresentar pela primeira vez. Se temos uma personagem de duas cabeças, vamos aproveitar isso e jogar com a vaidade delas. Dot não que ser a estrela, mas manda Criminal, da Fiona Apple, com um arranjo límpido e uma voz que soa quase erótica. A irmã, grudada ao lado, está constrangida e frustrada, situação que vai piorar quando ela descobrir que Dot canta para Jimmy, numa correlação singela com as declarações de Fiona sobre a canção, que ela diz ser “uma canção sobre conseguir algo facilmente usando a sexualidade”. Dot cantar bem fecha o ciclo da apresentação de Elsa na semana anterior, quando, por mais que amemos Jessica Lange, a ouvimos cantar com muito menos beleza e harmonia.

Por fim, o arranjo de Jimmy, sua busca por imposição social, faz mais uma vítima. Meep é um clássico Geek, uma espécie de “aberração de terceiro escalão”, usada nas aberturas dos shows de picadeiros que não se importassem em tê-los, já que circos que se respeitassem mesmo, não tinham esse tipo de “funcionário comedor de galinhas”.

Geek

Geek 2

E era basicamente o que eles faziam, viu? Corriam atrás de galinhas e arrancavam-lhe as cabeças. Um livro chamado Nightmare Alley, de W. Lindsay Greshan, lançado em 1946 (bem perto do tempo da série), deu ao mundo muitos detalhes de como viviam essas pessoas. Já em 1990, um filme de horror chamado Luther The Geek, virou um cult entre os fãs do gênero, ao contar a história de um geek que ao invés de uma mordida comum, tem uma dentição metálica. Vocês podem ver pelo cartaz do filme, que a aparência é bem próxima de Meep, e não vou estranhar se esse filme ou esse livro voltar a ser material de análise para o futuro.

Foi bastante cruel ver a forma como ele foi executado, sendo sentido, sobretudo por Jimmy, que de novo, tal qual no restaurante, não consegue provar seu ponto de vista. O que ficou provado sim, obviamente, foi que forçados a conviver com a imperfeição da natureza, os seres humanos tendem a acabar se tornando esclarecidamente imperfeitos. Esse é um caminho possível para American Horror Story, que, não se enganem, não está aqui fora para conduzir paradas. Estamos aqui apenas para ver muita cabeça rolar… Se cortadas pelo palhaço ou implodidas pela própria arrogância, jamais saberemos.

Freak Link: Desiree, uma espécie vintage de “cura gay”, rsrs. 

Freak Link 2: Pepper que bolo de carne… BOLO DE CARNE!

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