Quando morrer é muito mais difícil que ressuscitar.

Anne Rice, célebre por escrever histórias sobre vampiros, arriscou adentrar o mundo da bruxaria quando intercalou suas crônicas vampirescas com um lançamento em duas partes de uma saga chamada A Horas das Bruxas. Nos dois livros a gente conhece a trágica trajetória das mulheres da família Mayfair, que através das gerações, formou um destroçado clã de bruxas muito poderosas, que de um jeito ou de outro, convergiam sempre para o misterioso solo de Nova Orleans. Por mais que fugissem ou fossem até mesmo exiladas, o chamado da ancestralidade era maior que tudo. 

A palavra clã – segundo o wikipédia – é a forma de uma expressão gaélica que significa “criança”, ou mais especificamente “crianças de uma família”. Essa noção foi levada ao pé da letra pela escritora Anne Rice, que situou a descrição do seu clã como oriunda apenas dos frutos da mesma genética. As bebês Mayfair podiam estar espalhadas pelo mundo todo, mas a força de sua ligação com as potencialidades da natureza, as fazia sempre voltar.  A luta desse clã, entretanto, tinha mais a ver com se manter vivo a despeito da melancolia e da auto-destruição. As bruxas de Anne Rice também não eram ensinadas, mas aprendiam a se defender. 

Um clã, contudo, não necessariamente é formado por laços sanguíneos. Na ausência da ligação genética, os membros podem eleger um ancestral maior como fundador. Ainda que o lado negro da questão tome Tituba como sua propriedade original, as mulheres brancas que desenvolveram esse dom não tem outra saída se não fazer o mesmo. Em Coven, os clãs se desenvolvem sem laços sanguíneos, mas as “crianças de uma família” ainda representam a engrenagem dessa peculiar estrutura social. The Sacred Taking foi um episódio em que as “crianças” de Fiona resolveram agir contra ela. 

Como sempre, o teaser de abertura é o arauto dos episódios de American Horror Story. Nesse, Quennie sai para caçar corações impuros, no intuito de aprender algumas coisinhas macabras com Laveau. Seguida por Zoe e Madison, Quennie já se adianta a deixar bem claro que lugar de boneca-voddoo-humana é do lado de quem pratica voddoo. Quennie é obesa, pobre e negra, e sem tomar juízos de valor a respeito, fica bem óbvio que ela jamais se sentiria de verdade como uma das “garotas brancas de Fiona”. Ela foi parar naquela casa provavelmente porque era  melhor que fritar frango numa rede de fast food. Mas uma menina como ela nunca, nunca mesmo, perde a sensação de inadequação. Laveau estendeu mãos mais críveis e ela aceitou. 

Misty, por exemplo, podia estar bem longe da casa da Suprema, mas se adequaria muito melhor que Quennie, se precisasse ficar. Vamos lembrar que os seres humanos estão sempre em busca de agrupamento (como Misty demonstra, aliás) e até uma mínima coisa como a cor da pele, é motivo suficiente para fazer as pessoas se sentirem unidas. É o anseio da tribo, do coletivo, do clã. E Misty, queira ou não, faz parte daquele que ela mesma rejeita. A personagem é tão bem construída por Lily Rabe, que mesmo os sentimentos que deviam ser eloquentes, permanecem tranquilos, ternos. E enquanto Myrtle revela que ela é a verdadeira nova Suprema, Misty está ali no canto da cena, já envolvida com algumas plantinhas, alheia. Ainda me soa extremamente interessante que uma bruxa solar, vivaz, clara, límpida, seja uma necromântica nata. A necromancia não é para os iluminados, de modo algum. 

O retorno de Myrtle também foi incrível. Ali, no escuro, vista de um ângulo torto, num episódio que usou e abusou de lirismo visual, enquadrando os atores de pontos de vista secundários e borrando rostos e extremidades. Frances Conroy fez seu trabalho, trazendo Myrtle de volta com o mesmo olhar determinado, mas com uma voz estranha, mórbida, sinistra. A chegada dela e de Misty na mansão era algo que eu estava esperando e que me agradou muitíssimo. A compreensão de Myrtle sobre Misty foi bastante satisfatória pra mim, que já havia feito menções ao lado necromântico de Jesus numa outra review, estabelecendo que talvez ele e Misty sejam os únicos praticantes de um dom necromântico natural. 

O roteiro de Ryan Murphy se esforçou bastante para tornar a tal “Tomada Sagrada” contextualizada historicamente. E nesse ponto, American Horror Story é mestra. Os flashbacks e a narração sobre o Tribunal de Oyer e Terminer foram interessantíssimos e aproveitaram para continuar correlacionando as coisas. Esse tribunal foi resultado dos eventos iniciados pelos ensinamentos de Tituba na antiga Salem e vê-lo sendo mencionado na série traz um tempero todo especial à trama. De alguma forma, as “crianças de Tituba”, iniciadas e corrompidas por orgulho, também formaram um controverso clã, de onde saiu a morte, mas de onde também brotou o futuro da espécie. 

A decisão de matar Fiona é até acertada… A mulher enlouqueceu e começou a jogar conforme as próprias regras. E todo clã, mesmo esse ou o das Mayfair, ou o de Salem, tem regras. Assim, eliminar a Suprema em exercício, é uma boa forma de antecipar novos tempos. O problema todo talvez seja a contradição do castigo, que pune com a morte de uma bruxa, uma que matou outra. E lá foram as “Crianças de Fiona” atrás do sangue de sua superior. Delia, Zoe, Madison, Nan, Misty e Myrtle… Unidas para renovar um clã deteriorado, cheio de membros em putrefação interna. Uma “escola” como aquela, em tais circunstâncias, não poderia mesmo funcionar. Coven é sobre o desequilíbrio de um sistema, não sobre o apogeu dele. Delia quer matar a mãe, Zoe tem instintos de vingança meio assassinos e só pode transar com gente “morta”, Madison é um cadáver reanimado, Myrtle é movida pela mágoa e inveja… Nan e Misty são a minoria nessa equação bolorenta. 

O revertério era certo… E me processem se quiserem, mas Jessica Lange nasceu para o texto de Ryan Murphy. Em todas as cenas em que foi lentamente diluída, Fiona manteve o nível da série no alto. Esse derretimento da personagem esteve refletido em espelhos o tempo todo, como se a Evil Queen invocada da personalidade da bruxa, estivesse se impondo em deformidades. Jessica defende suas mulheres decadentes melhor que qualquer atriz da televisão americana, e elas serem todas decadentes não muda a sensibilidade artística dessa mulher. E eu destaco, especialmente, a cena em que é perturbada por Madison. Emma Roberts definitivamente sabe o que está fazendo e não baixou a guarda pra Jessica em momento algum. 

A convergência de Coven com a season 1 me irrita um pouco. Acho que preferia que fantasmas não fossem abordados nessa mesma forma física, novamente, nessa temporada. Todo mundo ama o Dennis O’Hare, mas essa é uma morte que eu gostaria de ter mantido fechada. Murphy foi esperto, fazendo o personagem dizer que “no mundo dos mortos ele finalmente tinha uma voz, e que elas (as meninas) não tinham percebido isso”. Porém, ainda que a volta dele tivesse sido justificada, me soa como uma saída fácil para impedir o suicídio de Fiona. 

Ainda não sabemos também se a verdadeira ameaça ao clã é Hank ou a vizinha fanática. Sabemos, enfim, que tem alguma coisa estranha acontecendo na casa ao lado,  que serve não só para explorar a fofura de Nan, mas também para anunciar alguma possibilidade despercebida. Ser ressuscitada por Misty deve dar em coisas interessantes, mas vou me permitir uma crítica aqui também. Na mesma proporção em que acho a volta de Spalding um recurso fácil para impedir o suicídio de Fiona, também acho a “iminência da guerra” um recurso providencial para todos quererem parar de matá-la. É compreensível do ponto de vista prático (Jessica não pode se ausentar com 5 episódios por vir), mas ainda assim, fácil. 

Por fim, demos um pulinho na casa de Laveau e tivemos outro tostão do talento de Kathy Bates. Com Quennie, os olhos eram doces, a voz terna e os argumentos completamente emocionais. Com Laveau, o semblante se ironiza, os olhos ficam opacos e o tom de voz é debochado, destemido… Uma interpretação brilhante, sem dúvida nenhuma. E se as aberturas de American Horror Story são instigantes, os finais podem ser soberbos. Porque só mesmo essa série para fazer a cabeça de Kathy Bates ser entregue para Jessica Lange, numa sequência que invoca o visual trash dos filmes de horror, mas que ao invés de ser tosca e pobre, é de uma força desconcertante. O payback pelo Minotauro veio cheio de esplendor. 

As dinâmicas foram restabelecidas agora… Existem inimigos ocultos além dos declarados e se houver uma guerra, os lados não poderão se unir em prol de bem algum. Enquanto isso, American Horror Story continua indecente, obscena, luxuriosa, explícita e deliciosamente delirante.

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