American Horror Story

A temporada de sentenças, começou.

Spoilers Abaixo:

É tempo de mudanças e renovações em Briarcliff. O que começou frondoso, agora vê a mudança das estações. É assim mesmo… Toda vez que estamos diante de um símbolo de recomeço, fazemos promessas de que nada será como antes. A passagem de um ano, a mudança de endereço, a chegada num novo emprego ou nova escola… Tudo é uma desculpa nossa para fingirmos que seremos diferentes, apenas para vermos essas tentativas morrendo pelo caminho, e nossas personas fracas e dissimuladas arrastando as correntes de outrora.

Com os personagens de American Horror Story está sendo exatamente assim. Todos começaram com promessas de mudança, e começam a alcançar seus destinos percebendo que suas personalidades destrutivas acabam sendo ganhando essa briga. Do louco ao “responsável”, tudo não passa de uma dança das cadeiras, onde terminam todos iguais, sendo, como bem disse Jude, “apenas um número”.

Não foi uma boa ideia fazer um intervalo nesse ponto da temporada. Ficou muito claro que esse trabalho de desconstrução do que os personagens pensam de si mesmos, estava sendo feito gradativamente e que, nesse episódio, haveria uma espécie de clímax trágico, que culminaria com eventos que nos deixariam completamente perdidos, e sem chance de conseguir especular sobre o final. O intervalo funcionou como um coito interrompido: A gente até continua a transa, mas ela perde o ritmo e a crescente corporal. Esse retorno foi bom, mas prejudicou essa pulsação com a qual a temporada vinha acontecendo. Peguei-me esforçando para redescobrir dentro de mim as sensações que a história me provocava.

Mas essas sensações sempre estiveram ali, e me revisitaram quando me vi diante de um episódio que só reforça como American Horror Story é segura de seus objetivos. Chegamos num ponto muito esperado, senhores. É chegada a hora da colheita. É chegada a hora do julgamento.

Começamos com Pepper tirando nosso chão, e falando pelos cotovelos. Toda nossa expectativa quanto a ela foi recompensada, ainda que não façamos a menor ideia de como essa trama de Grace Ressuscitada vai evoluir. Agora temos essa espécie de revigoramento das duas personagens, e temos aquele bebê. Por estarem unidas pelo que parece ser a interferência alienígena, continuo cauteloso. Porém, o quase monólogo de Pepper já deu o tom do dia: começou a sessão no tribunal de Briarcliff e o primeiro a receber sua sentença foi Arden.

A crise existencial do nazista não foi inesperada. Ele achava que ia fazer coro com os aliens, e acabou sendo ridicularizado por eles. É uma notável tentativa de atribuir o mínimo de humanidade ao personagem: Arden acreditava realmente em seus experimentos absurdos, e a constatação da inutilidade deles resultou em conflito. Ele, como quase todos os personagens da história, achava que o êxito precisava existir pelo viés do sofrimento. Ele, assim como os outros, precisou sofrer a própria inferiorização pra perceber que não.

De inferiorização, ninguém entende melhor do que Jude. Jogada no próprio limbo, ela continua perambulando pelos corredores do sanatório sem chance de redenção. Seu delírio – com a canção que brincava com os nomes dos internos – pode ter remetido ao outro trabalho de Ryan Murphy, mas não passou de mais uma ironia dos roteiristas com o que ela acabou se transformando. Jude acreditava piamente no bem de suas ações, transformando pessoas em estatística, mas a perspectiva muda completamente quando você passa para o outro lado. Ela agora quer ajudar Lana, mas apenas porque, de certa forma, ela se transformou na jornalista. A sentença da ex-freira é descobrir-se um número, que não pode nem virar uma divertida rima. Pepinos para Jude, por favor… Uma cortesia de outro número em danação: Shelley.

Lana, inclusive, já passou pelo tribunal faz tempo. Foi presa, julgada e condenada por seus crimes de luxúria e egocentrismo. A pena foi tão dura, que ela agora só vê sentido em divertir-se com os colegas de cela. Thredson é o preferido. A líndissima sequência do retorno dele foi de impressionar, mas apesar disso, sua situação continua a mesma. Nas mãos de Lana, mas por quanto tempo? Está mais do que claro que o foco dos episódios restantes será exatamente a dinâmica entre esses três: Lana, Thredson e Kit. Algo que eu espero ansiosamente que faça a convergência dos eventos do passado e do presente.

Por fim, chegamos ao momento inevitável de falar sobre o destino de Mary Capeta. Foi duro de ver… Se houve uma personagem que roubou todos os holofotes dessa temporada, foi essa. Não só pelo trabalho brilhante de Lily Rabe, mas pelo nonsense das atitudes e declarações do demônio que possuiu a pobre freira, transformando-a num vaso oco, com um nome que não representava mais sua existência. Acho que seu destino foi até justo, por mais que pedíssemos para que isso não acontecesse, e baseado na iminência do fim. Acho apenas que seu algoz não deveria ser Timothy e sim, Jude.

O antagonismo sempre foi entre as duas freiras e Mary vinha dedicando muito tempo a atormentar a vida da outra. O embate psicológico sempre foi esse também, porque Jude não deixava de ser uma farsa, enquanto a genuína personalidade de Mary Eunice foi suprimida pelo mal demoníaco que a aproximou do circo de dissimulações do manicômio. Enfim, esse momento precisava ser delas, mesmo porque, Timothy foi um personagem mal distribuído na temporada, e que tinha, inicialmente, uma ligação dramatúrgica maior com Arden. Por exemplo: Faz sentido que Arden queime junto com Mary, porque sempre houve, durante os episódios, uma relação entre os sentimentos dele pela figura imaculada de uma freira (o que a antiga Mary Eunice representava muito bem) e os sentimentos dela por uma figura masculina hierarquicamente superior.

Mas sejamos justos, até dá pra entender o que os roteiristas queriam com isso. Das figuras religiosas que permeiam Briarcliff, Timothy é o mais próximo de uma relação verdadeira com a igreja. Faz sentido então que o Anjo da Morte dê o recado a ele. Sua primeira investida é totalmente fracassada e ele acaba transando com o capeta. Até aí eu estava bem contente, porque era o começo da criação de uma relação direta com a personagem de Lily Rabe. O clímax entre os dois, com a morte dela, torna a despedida de Mary Capeta deslocada do contexto que a inseriu de verdade na trama. Foi uma boa cena, bem escrita, com a presença sempre linda de Frances Conroy, mas que não fez justiça à personagem. Precisava ser entre Mary e Jude. Até mesmo a Jukebox que Mary trouxe para o sanatório, em resposta à destruição do disco de Dominique, mantinha as duas correlacionadas. Sempre foi sobre elas, sempre.

Ao menos a saída de Arden redimiu os dois personagens. Juntos no fogo, o diabo real e o mitológico. Ainda não sabemos se a incineração significa realmente que é o fim para ambos, mas diante da solenidade do momento, posso até apostar que sim. Ao menos foram 10 episódios de uma participação incrível, e que fez de American Horror Story muito mais que uma série de horror. Agora, enquanto os personagens vão recebendo as sentenças de seus julgamentos de culpa, nós vamos preparando a nossa. O Season Finale está chegando, e o martelo passa pra nossa mão. Vamos querer tudo explicadinho ou vamos manter vivo o espírito ousado e descontrolado do programa?

Antes de encerrar, vale mencionar que esse foi o episódio em que estava escondida, segundo Ryan Murphy, a pista para o que será a terceira temporada. Eu não peguei nada de início, e revendo o episódio (motivo pelo qual a review só foi postada hoje), consegui pensar apenas naquele livro que Thredson encontra no lugar da fita. Murphy declarou que a pista aparecia muito rápido, então, achei que talvez pudesse ser isso. Não consegui ler o nome do dito cujo, então, se alguém aí nos comments puder dizer, vai ser ótimo. O leitor @guigas_marques foi ao meu twitter e me falou sobre duas teorias interessantes que também aparecem lá no site ahsbrazil.com entre as possíveis teorias. A mais forte delas é a bruxaria (por causa da canção I Put A Spell On You) que pode ser ambientada tanto em Nova Orleans (onde viveu a intérprete da canção The Name Game) ou na própria Salem. Qualquer dos dois cenários seria fantástico. Outra teoria bem difundida pelo que vi até agora, é a do circo de aberrações, por causa do discurso de Pepper e da frase dita por Arden (Finnita La Commedia) que remete à ópera italiana Pagliacci, passada numa trupe e que também fala do amor entre um corcunda e uma jovem casada (Murphy também declarou que queria fazer alguma coisa romântica novamente). Há outras teorias no site citado acima, vocês podem dar uma conferida e falar das teorias de vocês aí nos comentários. Seria muito bom.

Semana que vem saberemos pra onde esses roteiristas vão nos levar após o final tão trágico desse episódio. Vemos-nos aqui, sem falta.

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