O julgamento onde o júri fica tão famoso quanto as vítimas, as testemunhas, os acusados, os advogados, o juiz… Enfim, em People Vs OJ Simpson não há fronteiras para o escrutínio.
O júri escolhido para fazer parte do julgamento de OJ Simpson foi uma questão maluca desde o começo. Houve até manifestações para que o acusado fosse julgado por um júri completamente formado por negros. Do momento em que o julgamento começou até o seu fim, nem mesmo os responsáveis pelo veredicto foram poupados do circo midiático que se abateu sobre Los Angeles. A pressão para encontrar mais “detalhes rentáveis” sobre o caso, conseguiu furar toda e qualquer barreira. Alguns sofreram por isso, outros foram atrás disso.
A Jury in Jail foi outro espetacular episódio de American Crime Story, cheio de um planejamento de roteiro que beira a genialidade. E como sempre, tudo já começa no teaser, algo que Murphy e sua equipe conseguem fazer com precisão em todas as produções com sua marca. E teasers são importantes, porque marcam o tom do episódio e preparam a atmosfera. Prestem atenção e verão que toda série muito boa, tem sempre fantásticos teasers. Os de ACS conseguem condensar as analogias que veremos em seguida de modo perfeitamente relacionado, o que só torna as constantes declarações de abandono porque “Ryan Murphy dirige o show”, ainda mais injustas. Essas pessoas que deixaram a série não tem a menor ideia do que estão perdendo.
Como todo mundo sabe, esse não foi um julgamento apenas de um crime, mas um julgamento social. Naqueles anos 90, Los Angeles vivia um estabelecimento racial claro: os brancos da elite se isolavam e os negros eram perseguidos por forças autoritárias que atiravam primeiro e perguntavam depois. O impressionante é que esse quadro – que é bastante panorâmico – pode ser reduzido a pequenas interações e o que vimos no episódio dessa semana foi o comportamento que ronda todo o caso, refletido na rotina daquele número reduzido de pessoas, que até brigavam pelo seu show preferido de acordo com o público que ele representava.
Ver o júri de dentro também ajudou muito a entender como as teorias sobre “narrativa” de Johnny eram eficientes. Um ponto importante dessa semana foi a abordagem às evidências de DNA. Nas entrevistas que Marcia Clark deu após a exibição do episódio, ela insistiu que confrontar a dramaticidade de Johnny com detalhes forenses era muito difícil. Ainda assim, ela tentou conduzir o depoimento de Dennis Fung de forma a torná-lo mais claro para a o júri. O curioso é notar que o DNA não era tão conhecido do público porque séries de TV ainda não tinham espalhado o pseudo-conhecimento adiante. A própria Marcia afirmou isso em suas entrevistas e Mark Fuhrman disse a mesma coisa para Oprah, anos mais tarde.
O vídeo acima mostra o momento em que Fung é pressionado pela defesa. Os erros cometidos por ele foram tantos, que qualquer acerto ou evidência concreta ficaria perdida no caminho… O uso de um lençol da própria Nicole para cobrir seu corpo foi de um amadorismo colossal e realmente eu mesmo ficaria grilado com evidências de DNA partindo de um pedaço de pano onde OJ poderia facilmente ter estado. A defesa derrubou uma acusação já em frangalhos por causa do episódio das luvas e ninguém deu atenção para o sangue do dedo cortado de OJ em praticamente toda a cena do crime.
Mas, sem dúvida, a grande força desse episódio esteve na insana batalha entre Marcia e Johnny para dispensar jurados emblemáticos. Marcia podia não seguir as artimanhas do rival no tribunal, mas sabia como bater de frente com ele nos bastidores. Tivemos boas cenas entre os dois e toda a guerra declarada para não perder membros importantes do júri foi tão real quanto fantástica. Esse júri… Que passou impressionantes OITO meses confinado num hotel, gerando todo tipo de mito e rumor a respeito. Um desses mitos, por exemplo, diz respeito a tal jurada que teria saído correndo e gritando pelos corredores e que na série, acabou creditado a Tracy.
No minuto 03:20 da entrevista acima, Tracy – que posou para a Playboy depois de sair – confirma a história que vimos no episódio sobre sua saída. Havia entre os membros negros e brancos do júri, uma constante guerra fria acerca de privilégios e a cada um que saía ou era liberado, um novo cerco midiático envolvia o julgamento de superficialidades que faziam o trabalho de Johnny ainda mais fácil. Cada um desses membros do júri que saiu antes do fim, se tornou uma sub-celebridade instantânea e Tracy na entrevista acima, não disfarça o deleite com a atenção e com o spot. De todos que saíram, ela foi uma das que mais investiu nos 15 minutos de fama.
Enfim, apesar de termos um episódio voltado para o júri, foi um julgamento velado que transformou esse episódio num grande pico emocional do show. Percebem como escolheram justamente a semana de enfoque no júri para fazer com que um membro da defesa fizesse ele mesmo o próprio julgamento? O trabalho de Marcia no depoimento sobre o DNA pode não ter convencido os jurados, mas convenceu Robert Kardashian. Foi simplesmente incrível acompanhar os conflitos do melhor amigo de OJ ao ver que não se podia lutar contra tantas evidências. Robert era o jurado maior dessa semana e não por coincidência, ele também estava numa espécie de prisão.
Pelo menos para mim, David Schwimmer está fazendo um trabalho muito especial. A escolha dele para viver Kardashian foi por conta de sua capacidade de conseguir imprimir o latente, o não-dito. Mas, ele não reproduziu essa habilidade nas mesmas diretrizes de Ross. Robert tem uma dor nada cômica e no momento em que ele vê OJ sendo treinado para um possível testemunho, ele percebe a arrogância, a vaidade, a ausência total de tristeza e pesar… Naquele momento ele tem a confirmação que vinha evitando: OJ é culpado e Kris tinha razão o tempo todo. Ele então vai até ela e tem um dos grandes momentos dramáticos desse ano.
Provavelmente um outro grande drama está por vir depois que as infames gravações de Mark Fuhrman vazarem… Estamos a dois episódios do fim e está na hora de lidar com os aspectos mais decisivos desse julgamento. A despeito da maioria saber ou não o desfecho dessa história, Los Angeles aprenderia da pior forma possível que o crime não tem cor, a mentira não é privilégio de uma raça e que mesmo aqueles com maior inclinação para heróis, podem acabar escondendo os verdadeiros monstros.
Notas De Um Crime:
• Ryan Murphy deu uma ajudinha de custo para o ator que fazia o dançarino sem nome da primeira temporada de Glee e ele apareceu fazendo (mal também) o oficial invocado que tomou conta do júri.
• Segundo o livro que deu origem ao show, a equipe de Johnny realmente usava apelidos para se referirem aos jurados. Era a forma que eles tinham de evitar que imprensa ou a promotoria descobrisse sobre quem eles falavam.
• Houve realmente um dia em que os jurados entraram de preto no tribunal. E ao que tudo indica foi um protesto contra a troca dos oficiais que os acompanhavam há meses.
• E sim, a defesa realmente contratou uma sósia de Marcia (que também era advogada) para treinar OJ. O nome dela nunca foi divulgado.















