Imaginação é preciso.
Durante a primeira análise do ano sobre a audiência das séries, o nosso colega Gabriel Oliveira renovou as perspectivas de Almost Human, colocando a série em um patamar de provável renovação. Isto é uma boa notícia para o público que a acompanha, assim como o aumento de seus números neste começo de ano. Porém, a cada episódio transmitido deste mundo robótico, ao término, não consigo deixar de pensar que: “Está faltando alguma coisa!”.
A verdade é que não acredito que esta questão esteja apenas incomodando minha mente. Na realidade, durante as últimas semanas, em conversa com colegas que também acompanham o seriado, muito está se deixando a desejar nesta grande promessa da Fox. E é lógico, que perante a tanta expectativa não concretizada, eu tentei entender porque Almost Human não preenche o vazio pela busca de um bom roteiro de ficção científica.
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Um dos conceitos que encontramos descritos no prefácio da Trilogia Fundação é que: “Uma obra de ficção implica geralmente em um pouco mais que saber escrever bem. O conhecimento científico é desejável, mas, acima de tudo, o que importa é a imaginação.”.
E como enxergo um grande problema de Almost Human com este preceito, pois a verdade é que temos uma série com um bom embasamento literário, (Isaac Asimov); uma ótima estrutura de elenco e um perfeito universo utópico futurista, (estruturado em belos cenários e ótimos efeitos especiais). Mas então, nos perdermos nos conceitos capturados ao berço desta ficção e não encontramos concepções que conectam tantos elementos a uma nova criação, uma nova mitologia, ou nos transporte a este mundo futurista.
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O piloto da série trouxe consigo inúmeras possibilidades mais do que interessantes para a abordagem do conceito que carrega o fardo da tecnologia: “Homens e Máquinas”, e o impacto que a evolução “descontrolada” pode provocar em um futuro próximo. Ainda que seja impossível acreditar na possiblidade cientifica da existência de Inteligências Artificiais em décadas não tão distante da nossa atualidade, não era difícil mergulhar neste universo, bastava um pouco mais de objetividade…
Veja. No principio, o protagonista John Kennex era o detetive que carregava o preconceito sobre robôs, por consequência de sua logística exata e desconhecedora dos sentimentos humanos. E associado ao fato, havia a sua obrigação em atuar em parceira com esta “máquina fria”, que para ser mais aceito por Kennex, ele acaba recebendo a oportunidade de trabalhar com uma tecnologia diferente, Dorian. Envolto a este cenário, havia a história sobre o incidente com a namorada de John e a possível traição de membros da própria polícia, por conta da explosão ocorrida com o dispositivo em sua perna. Percebe como tudo corria bem? Não há problemas com este plot, de fato eu acreditei que esta seria a grande storyline do seriado: Kennex viveria em “pé de guerra” com robôs e gradativamente a história sobre a morte de seu parceiro e a traição da namorada ganharia uma significância maior e traria maiores consequências ao cenário da policia e do protagonista.
Mas então, onde está o problema?
O problema está na evolução deste enredo.
Semana após semana, Almost Human apresenta casos aleatórios (o tradicional procedural), sem qualquer conexão com o plot exposto em seu piloto, e gradativamente a série desconstrói as características de seus personagens. Foram necessários apenas quatro episódios para que toda a estrutura construída no piloto fosse por “água abaixo”. Kennex se apegou a Dorian e deixou-se esquecer de que ele é apenas uma máquina, uma tecnologia com capacidade para compreender e assimilar os conceitos, ações e sentimentos humanos. Mas que nunca deixou de ser uma máquina.
E durante o episódio Arrhythmia, parte deste conceito poderia ter sido recuperada. Quando um robô com as mesmas características de Dorian cruza o caminho de Kennex, deveria ser o momento no qual o protagonista se dá conta de que apesar de tudo, seu parceiro não é humano. Porém o episódio perde a oportunidade desta construção mais intrigante, e segue por um caminho mais fácil, porém de grande desagrado. Mostrando que Dorian apresenta uma singularidade que o diferencia até mesmo das máquinas iguais ao próprio robô.
Porém, se por um lado a série engana-se ao construir um universo de ficção científica, por outro ela acerta e muito no humor. Confesso que nunca esperei dar tantas gargalhadas em uma série como esta, e neste conceito ela ganha pontos mais do que positivos, expondo uma dinâmica de grande diferencial. E esta característica foi muito bem utilizada no Simmon Says, onde Dorian sofre o preconceito de ser “arcaico” à visão da policia, e não pode carregar suas baterias durante a escassez de energia.
O episódio foi muito divertido, mas acelerou-se em colocar o protagonista na mira de criminosos psicopatas logo no começo da temporada. Não houve muitas revelações e questões morais. A conversa de John com seu possível assassino não foi muito envolvente, deixando por conta de Dorian fazer valer a emoção do momento.
Porém, apesar de ter gostado muito de Simmon Says, acredito que foi necessário ignorar certas questões da ciência e tecnologia para aceitar o roteiro, principalmente por expor o fato de que daqui a 30 anos a sociedade possuíra potencial para construir inteligências artificiais com características humanas, mas ainda não é será capaz de elaborar novos métodos para aproveitamento e geração de energia? Meio paradoxal, não?
Criatividade esta que não foi falha para o roteiro de You Are Here, trazendo mais uma vez a concepção de que a tecnologia é responsável por crimes mais violentos e de difícil resolução. A história do episódio embasou-se no conceito de balas “guiadas”, a falta de privacidade em um mundo conectado pode transformá-lo em alvo, em qualquer lugar. Conceito interessante, mas um caso superficial por gastar um tempo importante para expor a raiva de Kennex. Todos já sabiam que o personagem tem muita raiva, e ele seria mais uma máquina se não a tivesse. Porém, ainda que tenha sido divertido ver o detetive destruir o “rosto” de um robô apenas com um tiro, o episódio inteiro acabou desperdiçando uma ótima oportunidade de trazer algo mais.
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O fato é que no resumo da obra Almost Human falha, comete erros de uma ficção cientifica sem criatividade. Apresenta conceito e tem potencial, mas não é aproveitado. Kennex não ganha o carisma do público e seu personagem ainda é muito superficial, tanto que seria possível escrever a mesma história com outros personagens do roteiro. Dorian, por outro lado, é profundo demais e perde a qualidade de “robô” em muitos dos episódios, transmitindo a sensação de um drama policial comum. Rudy poderia ser mais aproveitado e receber maior credibilidade ao seriado, o cientista precisa ter grande relevância para expor o conceito da ciência com menor superficialidade possível neste tipo de estrutura de ficção.
A credibilidade de J.H. Wyman não sofre grande abalo, mas é questionada, assim como o próprio canal Fox por carregar a “maldição”, propositalmente ou não, de debilitar as séries de ficção cientifica. Desta vez, o canal vem apresentado os episódios fora da concepção programada, e ainda que não afete minha opinião sobre os mesmos, levanta a questão de que a sua influência pode não estar apenas neste mero detalhe.
Enfim… A cada plot acredito na oportunidade de ver o seriado se expandir, explorar todas as oportunidades que o seu conceito permite. Mas até o momento sinto que temos roteiros nas mãos de ótimos escritores, mas sem qualquer imaginação.















