Mais mistérios e profundidade em Corredor, o melhor episódio de 3% até o momento.

Eu sou daqueles que assistiu 3% no Youtube (antes da Netflix), quando a série, composta por apenas três episódios, ainda lutava para ser enxergada, sonhando que alguma empresa visse seu potencial. Naquela época ela já era de uma qualidade absurda, superior a muitas séries atualmente em vários atributos, sem nem ter patrocinador, efeitos incríveis e tudo mais.

3% era um produto amador, espelhado em temas pós-apocalípticos, com mundos distópicos (para quem ainda fica em dúvida do que é distopia), a “modinha” do momento, seguindo, por exemplo, sagas famosas como Jogos Vorazes, Maze Runner e Divergente. Mas, na minha humilde opinião, seja antigamente ou hoje, com o toque (mágico como sempre, diga-se de passagem) da Netflix, eu digo que ela superou, e muito, todas as citadas anteriormente (apesar de eu ser apaixonado por Jogos Vorazes, sei que ela teve defeitos gigantescos).

O reconhecimento e a qualidade do produto televisivo brasileiro

Toda a premissa de Divergente, JV e MZ se baseia num futuro distante e apocalíptico, onde a humanidade foi drasticamente reduzida seja por guerras, doenças, etc. Nada mudou de uma pra outra, com exceção, é claro, de alguns pontos singulares de cada história. Meu medo era o de justamente ver essa mesma trama ser contada novamente, mostrando claramente uma alusão às sagas americanas. Mas, surpreendentemente, 3% apresentou algo totalmente inovador, com uma trama peculiar, poderosa, realista e corajosa, capaz de conquistar qualquer um.

3% tem seu poder por ser a primeira série brasileira a ser produzida pela Netflix. Eu acredito também que ela é a porta de entrada para um futuro brilhante para a TV brasileira. Se 3% for um sucesso de audiência (como Stranger Things, Demolidor e outras séries da Netflix o foram) ela pode simbolizar muito mais que a qualidade e o reconhecimento dos produtos televisivos brasileiros, mas, além disso, a oportunidade da Netflix e outras empresas de TV “caçarem” outros talentos escondidos pelo Brasil a fora, dando a chance de mentes brilhantes terem suas criações reconhecidas.

Adentrando a Corredor…

Corredor apresentou mais mistérios e profundidade no melhor episódio de 3% até o momento. Assim como os anteriores, com o foco em Michele e Fernando, a trama desse capítulo centralizou a personagem Joana, com flashbacks que se conectaram perfeitamente com a nova prova do Processo. Os participantes tiveram que passar por um corredor escuro, enfrentando alucinações dos seus próprios medos e traumas, superando-os (ou ignorando) para vencer a prova.

3% --- Corredor
3% — Corredor

3% explora seus personagens com cuidado, construindo as bases para suas personalidades. O encaixe do passado com o presente revela a relevância que um possui para o outro, principalmente quando os participantes iniciam o Processo Seletivo. A profundidade que Corredor nos passou foi bem além de Joana, mostrando resquícios de humanidade e compaixão até mesmo naqueles que pensávamos serem isentos de tais sentimentos como, por exemplo, Rafael e até mesmo Ezequiel. A prova (bem louca e cruel, por sinal) foi capaz de extrair a história, os objetivos e as motivações de cada um ali presentes.

Rafael mostrou um lado mais humano, com medo das consequências, não mais tão cheio de si, Michele sentindo-se culpada pela morte de Bruna (mas firme com sua vingança pelo irmão), Fernando preocupado com a sua capacidade de seguir adiante, Marco (provavelmente será abordado em breve) com o peso do nome de sua família em suas ações e, é claro, Joana, uma das melhores personagens de 3%, com seu passado assustador.

Cada um teve um motivo para tentar o Processo, uns por uma vida melhor, outros por motivos ocultos, como a revelação da Michele sendo a infiltrada da Causa (jurava que o Rafael era filho do Ezequiel, o que explicaria o seu conhecimento das provas), mas Joana não, Joana estava conformada com a sua vida. O que culminou em sua tentativa foi a fuga do Continente, para escapar da morte certa. O episódio mostrou que ela, além de Rafael, está disposta a tudo (literalmente) pela liberdade, até mesmo dar o braço a torcer e ajudar os outros.

Todos merecem uma segunda chance

Eu já disse uma frase similar a essa (em minha primeira review de Shadowhunters, outro show infame no mundo das séries de TV por, de acordo com a grande maioria, possuir atuações fracas) e repito mais uma vez: deem uma colher de chá aos atores novos, todo mundo merece uma segunda chance. Quem de nós nunca começou algo de maneira mediana (pode ser desenho, música, canto, atuação, seja o que for) e logo depois, com vários anos de prática, evoluiu e conquistou a todos com seu talento?

3% --- Corredor
3% — Corredor

Eu não concordo com relação aos comentários acerca das atuações da série por dois motivos: 1) porque a maioria são novos na área, ou seja, essa é a primeira chance deles (sendo vistos mundialmente) de mostrar tudo o que aprenderam (se eles estão ali é porque foram qualificados para isso, vale lembrar), então é óbvio que nem tudo vai ser perfeito (apesar de eu achar que tem sido); e 2) eles são atores brasileiros que estão mostrando ao mundo todo que o Brasil têm pessoas com talento, força de vontade e calibre para estarem no catálogo monstruoso de séries originais Netflix.

Então, resumindo… Deem valor a 3%, pelo símbolo que ele pode exercer daqui pra frente, pelo nacionalismo e, último, porém não menos importante, pela mensagem e a crítica social que a série mostrou até agora. No caso de Corredor, por exemplo, foi possível identificar valores essenciais (que todos deveriam ter) como compaixão, trabalho em grupo, confiança no próximo, superação e muito mais, em indivíduos à margem da sociedade, aquela minoria que as classes mais favorecidas (vistas no povo do Mar Alto) tratam como a escória da humanidade. Foi um recado simples, em poucos minutos, mas cheio de sentido, poder e reflexivo.

E o podemos esperar dos episódios restantes?

A trama está apenas começando, mas várias perguntas ficaram no ar, como, por exemplo: quem será a criança que Ezequiel encontrou? Seria ele de fato o vilão nisso tudo? Que mistérios Rafael e Marco guardam? E Michele, será ela apenas uma espiã da Causa ou a chave para a revolução e a luta contra o Processo? As respostas para essas perguntas serão respondidas em breve, acredito eu, então lhes aguardo em Vidro, o sexto episódio da série. Até a próxima, candidatos!

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