Westworld e as fases críticas de seu desenvolvimento.

Dentro do conceito de “Teoria das Crises”, invocado no título do último episódio dessa temporada, existe uma descrição muito interessante do que os estudiosos chamam de “ciclos econômicos”, em que a avaliação da estrutura do método capitalista fica ainda mais clara. Apesar de estarmos falando de economia, a descrição desses ciclos tem algo de orgânico, já que os processos da natureza também passam pela mesma ordem de nascimento, desenvolvimento e morte. A grande diferença é que na natureza a continuação do ciclo é indireta, já que faz parte de seu imperativo inerente deixar que as coisas morram pra valer. A vida se mantém em ramificações.

Para esse setor da economia tudo pode começar, morrer e renascer, da mesma forma ou até mais forte. Joseph Schumpeter, o economista que deu nome às fases de um ciclo, elegeu quatro pontos de sobrevivência para qualquer sistema econômico e que podem existir em looping através do tempo e da história. Segundo ele, o “boom” é o primeiro estágio, quando uma economia média entra em plena ascensão. Uma “recessão” é quando esse pico é perdido e as coisas voltam ao ponto médio. O declínio desse ponto médio é chamado de “depressão”. Se o sistema conseguir retornar até a média, aí então temos o que ele chamava de “recuperação”. É bastante provável que os roteiristas desse episódio final tenham pensado nesse título como uma forma de ilustrar as mudanças drásticas supostamente imaginadas para esse ponto da narrativa. Contudo, tudo em que consigo pensar é no quanto Westworld, depois de ter passado por duas dessas fases, está implacavelmente deprimida.

Boom 

Digam o que quiserem da série, mas seu segundo ano pode ter sido uma das coisas mais bacanas que a televisão americana colocou no ar. É claro que a decisão de já promover uma rebelião no parque na segunda temporada, colocou os roteiristas numa cilada que eles acabaram demonstrando não serem capazes de resolver depois. Mas, ainda assim, havia uma boa dose de coragem no enredo e uma construção catártica de eventos, que culminaram no excelente Season Finale. Westworld não só tinha promovido uma revolta de anfitriões que era coerente com o que havia sido proposto até então, como tinha arriscado tudo ao nos presentear com a impressionante saída de Dolores (no corpo de Charlote) do parque.

A longa espera, as grandes expectativas, faziam da estreia da terceira temporada uma espécie de “estratégia infalível”. A saudade dos personagens era tanta, a ansiedade de ver para onde ia a  história tinha tanto apelo, que errar era quase impossível. Poucos estariam dispostos a olhar atentamente para tudo que foi apresentado, a ponto de conseguir enxergar que os pontos de fragilidade estavam presentes ali desde sempre. Um mundo futurista, Dolores perseguindo a ordem estabelecida e um novo personagem que parecia estar ligado a ela de uma forma casual e surpreendente. É claro que sabemos agora que a boa ideia de que Caleb tenha simplesmente cruzado o caminho de Dolores foi abandonada na finale. Mas, ainda não sabíamos disso. Até aquele momento, Westworld estava vivendo o seu auge, o seu merecido “boom”.

Recessão 

Podemos dizer que a Era de Ouro se encerrou no capítulo 3 desse ano, quando um fantástico episódio sobre os conflitos da nova Charlote nos deixou verdadeiramente comovidos. Aquela ideia de ter sido criada com um corpo que não era seu, por uma guerra que não era sua, dava à personagem uma complexidade que eu sinceramente não esperava. Foi um episódio bonito, bem escrito, com uma bela atuação de Tessa e que abria uma deliciosa possibilidade para o futuro: ao trazer pérolas consigo e dar a elas o corpo que quisesse, Dolores criava uma nova vertente de si mesma. Poderia ser perigoso, afinal a personagem é pisada pelos roteiristas a cada diálogo em que eles a contradizem. Porém, tinha uma força dramática nisso tudo que era inegável.

As primeiras pistas de uma severa recessão no sistema do show já eram visíveis antes, mas quando o mistério sobre a identidade das pérolas foi esclarecido, o alerta vermelho acendeu com força total. Não só Nolan e Joy haviam desperdiçado uma storyline cheia de boas possibilidades, como tinham, com isso, esvaziado duas personagens essenciais para nosso envolvimento com a série: Charlote e a própria Dolores. Percebam que nesse Season Finale eles quiseram fazer o caminho inverso. Charlote, depois de ser queimada, voltou a ser aquela mulher fria, monotemática, como se a real nem tivesse morrido. E Dolores, enfim, é apresentada como uma espécie de mártir, que precisa “morrer” para que todos tenham uma chance. Ou seja, passamos a temporada acreditando numa personagem aparentemente disposta a tudo para o massacre e chegamos ao final da linha com ela fazendo um discursinho capenga sobre “escolher ver a beleza das coisas”. O roteiro parece esquizofrênico.

Depressão 

Aliás, reside aí nesse diálogo entre ela e Maeve o ponto que considero o fundo do poço. Ao decidirem fazer com que as duas “se entendessem” no último minuto, os roteiristas aniquilaram a relevância de todos os embates vistos antes, tornou-os visivelmente oportunistas, superficiais, artimanhas covardes para conquistar espectadores desatentos. Não há NADA de coerente na rivalidade entre as personagens, mas fomos fazendo vistas grossas por conta de um inexplicável fetiche pelo embate feminino com armas e roupas de couro. É clichê, é cafona e ligeiramente misógino também. Quando, naquela conversa, Maeve “descobriu” que Dolores não era tão má assim e virou a casaca, a série assinou seu tratado de incongruências. Para começar, Maeve nem deveria estar ali. A filha estava no Vale, Dolores não queria mexer com ele, mas o texto insistia em tornar isso uma ameaça, afinal de contas, como justificar o ringue das moças poderosas do Velho-Oeste-Sem-Velho-Oeste?

Ao olhar para Caleb a situação só acabou piorando. A presença desse personagem é um dos maiores desperdícios de tempo da história das séries. A escalação de Aaron já é um devaneio provocado pela noção de que até uma pia, se saída do set de Breaking Bad, vai trazer ao novo destino alguma dose de destaque. Era o ator errado para um personagem que já não era muito certo. A analogia promovida pela ideia de que ele era um exemplo humano para o mesmo tipo de manipulação sofrida no parque, esvaziou-se semana após semana, Westworld tropeça feio quando faz um zoom em planos que de longe parecem promissores. Havia algo de muito interessante em um personagem humano, encontrado aleatoriamente; e se envolvendo em uma trama sobre tirar dos homens o direito a viverem suas escolhas livremente. Mas, não… O “big reveal” da semana tinha que ser Dolores esclarecendo que “tudo tinha uma ligação” e que ele foi escolhido porque, enfim, era um cara legal. Que espécie de piada é essa?

Olhando em volta, esse episódio parecia a rebordosa de um tornado, jogando pedaços aleatórios de construções alheias em quem estivesse passando pela rua. A última pérola era Lawrence e isso não tinha a menor graça. Não tinha o menor impacto. Não representava nada para os fãs, que a essa altura, nem mesmo deviam se lembrar que um dia Lawrence foi escada para o Homem de Preto. Parque 5? Outro potencial jogado fora. E teve Bernard encontrando com a mãe do filho de Arnold, o que tinha menos valor ainda. Aliás, se não fosse pela cena pós-créditos, Bernard não teria um só momento de verdadeiro apelo esse ano. E vamos considerar aqui que o pós-créditos do segundo ano também mostrava instalações empoeiradas num futuro distante, apenas para fingir que um personagem subaproveitado tinha importância. Tudo era fraco, oco, insípido e o pior: enfadonho.

Ao final, eu só resguardava em mim uma certeza: se esse ano eu não me deixei enganar o tempo todo, ano que vem estarei mais cético ainda. Seja com o retorno de Dolores, com a parceria entre Maeve e Caleb ou com a “nova faceta” do Homem de Preto, Westworld vai precisar de muito trabalho para nos fazer acreditar novamente, para conseguir retornar pelo menos à média, para ser capaz de, quem sabe, experimentar a última fase desse ciclo: a recuperação.

Westwords: Joy e Nolan precisam descansar muito. Do enredo ao pobríssimo texto, tá tudo errado. 

Westwords 2: Está evidente que Dolores volta de algum jeito. E acho bem provável que seja reconstruindo o corpo antigo na Charlote de agora. Sei que o episódio deu a entender que ela como conhecemos partiu, mas eu não acredito mais no que esse pessoal me vende. 

Westwords 3: William é o novo Highlander das séries. 

Westwords 4: Como disse, soubemos o que era o Parque 5, né? 

Westwords 5: Apesar do hate ocasional, foi mais uma vez um prazer cobrir essa temporada de Westworld. Amo falar sobre a série mesmo que ela me decepcione. No ano 4 nos encontramos aqui de novo.

REVISÃO GERAL
Nota:
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westworld-3x08-crisis-theory-season-finaleAo final, eu só resguardava em mim uma certeza: se esse ano eu não me deixei enganar o tempo todo, ano que vem estarei mais cético ainda. Seja com o retorno de Dolores, com a parceria entre Maeve e Caleb ou com a “nova faceta” do Homem de Preto, Westworld vai precisar de muito trabalho para nos fazer acreditar novamente, para conseguir retornar pelo menos à média, para ser capaz de, quem sabe, experimentar a última fase desse ciclo: a recuperação.