Em Reunion, Westworld tenta organizar todos os próprios objetivos.
A história de Moisés é bastante conhecida e tem no cinema ao menos duas grandes representações muito competentes. A primeira é a animação O Príncipe do Egito e a segunda é o mais recente Exodus, dirigido por Riddley Scott. Essas representações e também a maioria de todas as outras pouco conhecidas, sempre interrompe sua narrativa quando o mar se abre, os israelitas passam e o horizonte é a promessa de liberdade. Contudo, Moises – segundo a bíblia – pecou contra Deus durante a fuga. Alguns dos escravos também; e como punição, a chegada até a Terra Prometida demorou 40 anos para acontecer, sendo ele mesmo, Moises, o líder que não conseguiu ver sua missão se encerrar, morrendo antes disso, punido pela própria arrogância.
Em narrativas sobre escravidão, as metáforas e analogias encontram Moises sempre que há uma liderança maior em jogo. Não podemos esquecer de modo algum que o parque “escraviza” os anfitriões em loopings de vida e morte que aos poucos vão afetando a construção da consciência deles. A partir do momento em que eles lembram, eles sentem. Se eles sentem, eles começam a ter o anseio prímevo da humanidade: a liberdade. Quando um deles ascende como líder dessa revolução, ele sustenta esse “cajado” que alimenta, fortalece, ataca o inimigo e também abre os mares. Westworld tem sua Terra Prometida. Ela se chama Além do Vale e é para lá que o líder guia seus súditos.
Delas
Numa sequência noturna, no meio do parque, Dolores e Maeve se encontram enquanto cada uma segue na própria jornada. Como tem acontecido muito na série, os diálogos entre os anfitriões são herméticos quase o tempo todo, mas quando a gente enxuga os objetivos se esclarecem. Aqui, no caso dessa cena, o roteiro está estabelecendo a dinâmica de polaridades da dramaturgia: Dolores segue numa trajetória coletiva, ela quer que os anfitriões subjuguem os humanos. Ela quer atravessar com seus rebeldes; enquanto Maeve segue numa trajetória individual. Ela só quer a filha.
Esse é um momento que funciona como exemplo para quase tudo que a série tentou fazer nesse substancial Reunion. Até mesmo o título sugere essa ideia de reencontros constantes, que servirão a um propósito que agora – em que não precisamos mais teorizar sobre a identidade de William ou dos anfitriões não-declarados – representa uma necessidade de significações. Esse foi um episódio que tentou assentar a mitologia o máximo possível sem que ela se esgotasse. Ainda há muito o que explicar, mas ao menos o material de consulta também se expandiu.
Na sequência inicial do episódio vimos Dolores conversar com Arnold num tempo muito longínquo, em que o parque ainda nem estava para ser aberto. Ele já demonstra uma ligação com ela, uma interpretação emocional com relação aos anfitriões e isso é importante porque reforça as motivações desse personagem para os eventos futuros que foram mostrados na primeira temporada. No diálogo que eles trocam, o merecimento da Terra é colocado em questão e esse momento é bastante emblemático, porque o direito a vida, ao solo e à liberdade são a síntese do que motiva não só Dolores como todo e qualquer povo – ou líder – que deseja vencer seus algozes.
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É somente nesse ponto que esbarramos em considerações conflituosas. Reunion deixa claro que o objetivo de Dolores não é “libertar seu povo”, ainda que esse seja um argumento válido no resultado final das coisas. Ela tem matado anfitriões também, suas motivações têm raízes sombrias que nem mesmo sabemos se não foram programadas para ela. É no discurso “dominarei o mundo” que reside a fraqueza desse ponto da mitologia de Westworld. Dolores quer montar um exército (levou até um técnico para ressuscitar anfitriões ao seu bel prazer), quer usar a “arma” que está no Vale (considerando que ela seja uma) e depois… Bom, o depois importa mesmo? Em alguma história que vocês conheçam sobre um personagem querendo dominar o mundo, o depois realmente importou? Quando olho para o que Dolores pode ser, me regozijo com as possibilidades, mas quanto mais a série me entrega o que quer que ela seja, mais isso me frustra. A personagem nunca esteve tão chapada e unidimensional quanto agora. E quando digo “agora” me refiro à linha temporal em que o parque acabou de ser tomado, porque quando ela aparece em flashbacks, continua sendo enigmaticamente ótima.
Falando em linhas temporais, o episódio tinha duas bem distintas:
- A linha temporal de antes do parque ser reaberto e que se ramificou em pequenos períodos dentro do mesmo intuito. Vimos antes da abertura e vimos o parque pronto, quando William e o sogro surgem por lá. Parece, contudo, que em nenhuma dessas ramificações as visitações realmente começaram.
- A linha temporal de logo depois do ataque da finale passada, quando Dolores está dominando o parque e Maeve buscando a filha. O Homem de Preto também está nessa linha.
Não vimos, contudo, nada sobre a linha temporal que corresponde ao presente exato, que é aquela em que Bernard já viu os anfitriões mortos no lago.
Deles
Talvez o grande assentamento da trama tenha sido feito nas sequências que mostraram um pouco mais de como o parque foi comercialmente pensado. A conversa entre William e o sogro revelou que uma das intenções era usar dados de todos os “hóspedes” influentes para que o exercício da chantagem fosse possível depois (o que nos remeteu ao escândalo recente com o Facebook). Na linha temporal presente, Charlote afirma que só poderá sair do parque depois que entregar uma “informação” importante para a Delos. Essa informação é justamente uma espécie de “hard drive” ambulante, ninguém menos que o anfitrião que já fora usado como pai de Dolores. Sabemos, com isso, que em algum momento os objetivos de William se realizaram em uma outra esfera que não só a da própria jornada pessoal. O parque é um Éden invertido, cheio de pecados prontos para serem cometidos… e registrados.
O Homem de Preto, aliás, também teve sua storyline bem esclarecida na boa sequência com o novo El Lazo. O diálogo – repito – tem muita gordura textual desnecessária e cheia daquele tom solene como se tudo precisasse ser misterioso e enigmático. Mas, quando El Lazo ecoa as palavras de Ford (esse jogo foi feito para você jogá-lo sozinho), a coisa toda ganha muito mais sentido. Por alguma razão, Ford quer que Dolores e William sigam para o mesmo ponto, um que ela considera sua Terra Prometida (ainda que somente metaforizada) e ele, que considera “seu maior erro”.

Falei bastante na review passada sobre como me preocupa que Westworld esteja enfeitando com elegância e valor de produção, um punhado de motivações medíocres. E embora isso não esteja acontecendo AGORA, é uma preocupação legitimada por alguns dos caminhos que a própria série propõe. É bem verdade que a tirar pela linha temporal de Bernard, os planos de “dominação do mundo” irão por água abaixo. Mas, se também for esse o caso, seria demais dizer que estamos sendo conduzidos por uma narrativa que literalmente “morrerá na praia”? A história que Westworld quer contar é realmente essa? Estou sinceramente animado (e hesitante) para saber.
Por fim, num último momento, enquanto contempla o horizonte, Teddy desenha para o público o que a narrativa já tinha insinuado: não importa qual seja o nome, estão todos querendo chegar no mesmo lugar. Para alguns esse lugar é a linha de chegada de um jogo, para outros é o alcance da liberdade… Esse lugar também pode ser uma ferramenta de superação, uma arma ou simplesmente o abraço entre mãe e filha. Resta saber se estamos diante de uma convergência existencial ou apenas diante de uma programação definitiva. A nova “narrativa” de Ford apenas pode ter sido a mais detalhada e ousada de toda a história do parque e tudo isso estar longe de ser o caminho para a promessa de Moises e sim uma fria e debochada programação virtual.
Westwords: Teddy, coitado, sempre com cara de perdido. É só para isso que o James está ali?
Westwords 2: Vimos mais de Logan, mas ao que parece ele não era a pessoa preferida de Delos.
Westwords 3: I Miss Clementine.
















