Um pequeno passo para que Veronica Mars termine com um saldo positivo. 

Séries de televisão normalmente têm um porto seguro para onde elas se direcionam quando a mesma se encontra em uma posição desfavorável. Pode ser um personagem, uma participação especial ou até mesmo um arco tão associável com um personagem que faça com que a execução da história torne-se impossível de ser mal feita. Em Veronica Mars, essa rede de segurança é elaborada ao redor de um tema: confrontos entre os mais afortunados financeiramente e aqueles que não possuem o mesmo privilégio. Esse é aquele que podemos chamar de conflito universal da série. Em “Weevils Wobble But They Don’t Go Down”, é perceptível a existência dele em um tom que não tem um investimento psicológico tão escancarado assim. Weevil retorna e se encontra no lado mais fraco da corda mais uma vez com a denúncia de que ele falsifica cartões de débito utilizados na universidade para transações como livros e alimentação.

Ao longo do episódio, vemos que esse segmento é um dos raros momentos da temporada em que o clima corresponde em parte com o que apreciávamos em anos anteriores. Aquela falsa simplicidade e ingenuidade dos tempos de ensino médio estão de volta sem tons inocentes demais e nem mesmo com reflexões que destoem do espírito da série. Os melhores momentos de Veronica Mars surgem justamente da arrogância das pessoas de classe alta ao esconderem seus erros utilizando-se de outros erros e não se importando com o que acontece com as pessoas ao redor. É um antagonismo que é eficiente nas mãos dos roteiristas da série, rendendo bons instantes que chegam a ser excepcionais às vezes.

Mesmo assim, “Weevils Wobble But They Don’t Go Down” ainda não se encaixa em um nível de destaque excepcional na história de Veronica Mars, completo de cenas recheadas de diálogos expositivos demais. É lógico que uma boa série de investigação tende a entrar nesse campo sem muitos problemas, mas o roteiro dessa semana tem cenas demais para que esse segmento do episódio possa se desenvolver, com Veronica entrando em várias situações em que ela é obrigada a ficar fazendo perguntas entediantes sobre elementos de informática e o funcionamento dos cartões com propósito único de avançar a narrativa, perdendo pontos por sua previsibilidade. Talvez outros recursos como uma cold open voltada para o tema permitisse que esses obstáculos não aparecessem. Além disso, o desfecho com a tentativa de suborno e a confissão final em nenhum momento é capaz de criar um mínimo de suspensão de descrença. No fim, toda a conspiração encerra-se com Veronica saindo no topo de forma fácil demais até mesmo para os padrões da série.

A participação de Weevil que termina surpreendendo positivamente no episódio. Ele e Veronica sempre são colocados em uma posição de igualdade em suas discussões, onde nenhuma das partes termina se sobrepondo a outra, o que faz com que a dinâmica da dupla continue sendo um dos pontos mais bem elaborados da série. Weevil continua objetivo e sem conflitos existenciais que precisam ser colocados para fora em cada um de seus diálogos. Sua decisão de mentir sobre a máquina de falsificação e ficar com ela apenas incrementa aquela tridimensionalidade que Veronica Mars aplica em seus personagens.

O que faz com que esse episódio seja um avanço em relação aos problemas é essa questão de como os personagens parecem estar em mais sincronia ao longo da história. Os arcos mostram-se interligados de uma forma divertida, como quando Piz tenta convencer Keith a ir ao debate com Vinnie e o comportamento de Veronica lá. Aliás, os níveis de sarcasmo e as demonstrações de inteligência de Veronica são bem exemplificados. É bom ver o tom cômico funcionar ao longo de todo episódio, nos trazendo ao momento doce que se transforma num pesadelo em forma de vídeo no desfecho.

É adorável como o roteiro faz com que o embate entre Piz e Logan não aconteça de forma artificiosa. O primeiro está sensacional em sua normalidade e nos comentários musicais. Não dispensando, claro, o seu ótimo “So… Rob Thomas is a whore” em referência aos nomes idênticos do criador da série e do vocalista do Matchbox Twenty. Em um espectro totalmente distante do normal encontramos Dick carregado com um sofrimento bastante demorado diante da morte do irmão na temporada passada. Seu estado emocional frágil e falta de conveniência nos leva até um dos melhores instantes do episódio, com a clássica vergonha alheia unindo-se a lavagem de roupa suja que a temporada necessitava há uns tempos, além do seu xaveco admirável com Mac. A sequência da praia não é exatamente explosiva, é um conjunto de sutilezas incômodas atiradas para os lados em favor da construção do arco do final de temporada, que tem seu primeiro ato colocado na mesa no fim.

A troca de faíscas e o embate entre Piz e Logan é o que Veronica Mars precisava para construir um arco com um clima de tensão suficientemente palpável para nos convidar a acompanhar o final da temporada com olhos mais atentos. Embora “Weevils Wobble But They Don’t Go Down” não seja perfeito, ele possui a capacidade de acertar os pontos vitais que precisavam ser acertados para um desfecho bom para um ano complicado em Neptune.

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