A segunda parte do retorno de Twin Peaks foi ao ar colada com a parte 1, o episódio começa mostrando um breve diálogo entre Hastings (Matthew Lillard) e sua esposa Phyllis Hastings (Cornelia Guest) na cadeia e como acontecia bastante nas duas primeiras temporadas do seriado, a mentira é um elemento central para a construção dos personagens. Hastings afirma que não esteve na casa de Ruth (encontrada morta no episódio anterior) e que na verdade tudo aconteceu dentro de um sonho. Até aqui nenhuma novidade, o sonho é uma grande paixão do Lynch e está bastante presente nos seus trabalhos. Depois da breve conversa, uma criatura bizarra, algumas celas depois da que está Hastings, aparece e desaparece, algo que poderá (ou não) ser explicado no futuro.
PS: Essa não é a primeira vez que um homem preso, atormentado por sonhos, ganha vida nas mãos do Lynch, em Estrada Perdida ele trabalha bastante esse tema.
O Cooper do “mal” entra em ação, mata Phyllis Hastings (Cornelia Guest), com quem mantinha algum tipo de ligação (reparem no mega buraco deixado pela bala, lembra bastante aquele que é visto no rosto de Ruth). Uma Las Vegas repleta de luzes entra no roteiro e aqui temos uma das minhas cenas preferidas: Patrick Fischler (de Cidade dos Sonhos, filme do Lynch lançado em 2001 e considerado o melhor filme do Século 21 pela BBC) aparece como Mr. Todd e conversa com o seu secretário Roger (Joe Adler) sobre uma vaga de emprego conquistada por uma mulher e em seguida sobre o homem que o obriga a fazer coisas (não sabemos do que se trata).
O Copper “solto” retorna e fala sobre algum tipo de esquema que acontecerá no dia seguinte, onde precisará da ajuda de Dayra e Ray. Logo após isso, Margareth, a Senhora do Tronco, fala com Hawk ao telefone, enquanto ele passeia pela floresta com o pressentimento de que algo vai acontecer naquela noite. Hawk encontra a entrada para as Lodges (Black e White). Aqui cabe uma breve explicação: essa entrada fica na Floresta Nacional Ghostwood, nos arredores de Twin Peaks, o portal é tipo uma piscina onde nela existe uma substância que cheira a óleo de motor queimado, ela também é cercada por um anel de 12 árvores e aparece quando Júpiter e Saturno se encontram.
Uma curiosidade, na série (segunda temporada) Cooper ao se despedir de Hawk, após solucionar o caso de Laura Palmer, diz algo como:

Então sim, David e Frost podem estar finalmente trazendo respostas para eventos pequenos (muitos dos que nem somos capazes de lembrar, tamanha a riqueza de detalhes). Amém.
A câmera passeia pelas árvores e logo estamos dentro da Lodge, o cenário mais icônico da série e que até hoje é lembrado por várias gerações. Um diálogo entre Cooper (o bom) e Laura Palmer acontece novamente e nele Laura diz que Cooper pode sair (é bom lembrar que ele ficou teoricamente 25 anos preso na Lodge). Laura diz que está morta, mas ainda vive e lá vem mais um momento de surrealismo; ela praticamente tira a parte frontal da face, revelando uma luz brilhante que mora no seu interior. Lynch e Frost resgatam a faceta enigmática de Laura, fazendo ela sussurrar algo no ouvido de Cooper, como aconteceu na série. Com gritos assustadores, Laura deixa a cena literalmente voando. Sheryl Lee mais uma vez sensacional, trazendo de volta não só o tom misterioso, mas a malicia que também faz parte da personalidade de Laura.

Cooper continua a jornada e vislumbra um cavalo branco dentro da Lodge (um símbolo presente na série, que apareceu – enquanto visão – antes do abuso sofrido por Laura em Fire Walk With Me e antes da morte da sua prima Maddy, na série). Phillip Gerard (Al Strobel) aparece e pergunta a Cooper: Isto é futuro ou isto é passado? Essa pergunta também foi feita pelo anão no filme que conta os últimos dias de Laura e reforça a teoria de que existe uma quebra temporal na história, talvez estejamos assistindo, em alguns momentos, a fragmentos, passagens que continuam ocorrendo em épocas diferentes. Somos finalmente apresentados a evolução do braço.

Aqui cabe outra explicação: Phillip Gerard foi possuído por um espírito maligno chamado Mike, que costumava a ser parceiro de Bob (o assassino de Laura). Ele conseguiu fazer um tipo de ritual, jogando todo o mal para o seu braço esquerdo e o cortando depois. O braço acabou ganhando vida na Black Lodge e era representando pelo anão (Michael J. Anderson), que não foi confirmado no retorno da série. Lynch está usando a árvore como uma evolução desse personagem. O braço árvore (rs), que tem uma cabeça muito parecida com o bebê que Lynch criou em Eraserhead (seu primeiro longa), pergunta se Cooper (o bom) lembra da sua réplica (aqui usam um flashback) e diz que o Cooper (mau) precisará voltar para Black Lodge.


Em seguida o Cooper (mau) descobre está sendo enganado por Dayra e Ray, ele assassina a moça na cama do hotel, tentando extrair dela os motivos pelo qual alguém com muita grana está tentando matá-lo. Cooper diz que no dia seguinte será sugado de volta para a Black Lodge, mas que não pretende deixar que isso aconteça, tendo já um plano elaborado. Obter alguma informação da secretária de Hastings (que está preso, como sabemos), parece ser algo crucial para que o plano seja bem-sucedido. Cooper, antes de disparar a arma, mostra para Dayra uma carta de baralho com um símbolo aparentemente igual ao desenho que fica cravado no anel usado para marcar as vítimas de Bob (incluindo Laura).

Outro momento misterioso vem em seguida, a ligação entre Cooper e o homem que ele acredita ser Phillip Jeffries (personagem de David Bowie no filme Fire Walk With Me). Nesse diálogo duas coisas curiosas acontecem: o possível Phillip falando sobre o atraso de Cooper e depois afirmando que sabe que este encontrou o Major Garland Briggs (personagem de Don S. Davis na série (o ator faleceu em 2008), um homem que trabalha para o governo americano e que guarda mistérios sobre Twin Peaks). Cooper, por fim, baixa os dados com a planta da prisão federal de Yankton e encontra Chantal Hutchens (Jennifer Jason Leigh) no quarto ao lado, esta que parece ser uma parceira mais confiável na vida de crimes que ele anda levando.

De volta à Black Lodge (BL), o braço árvore fala três números para o Cooper bom, 253 (gravem) e repete o nome de Bob 3 vezes, pedindo em seguida que Cooper se mande. Aqui vem um combo de cenas legais: Copper encontrando Leland (Ray Wise), o pai de Laura, que foi usado por Bob para assassinar a própria filha. Leland pede que Cooper ache Laura, o que também reforça a tese temporal, ou seja, Laura pode estar viva em uma realidade que pode ser acessada através da Lodge. Cooper aprecia a estátua de Vênus e ao abrir as cortinas enxerga a sua réplica no carro em uma estrada deserta. Phillip Gerard sente que algo de errado está acontecendo e o braço árvore diz que é a sua réplica. Cooper logo é atacado pelos galhos do braço, enquanto o chão da Black Lodge parecer querer se abrir. O braço árvore grita: não-existente (frase que deverá ser importante no futuro) e Cooper é lançado para fora, caindo exatamente na parte externa da caixa de vidro, em Nova York. Depois de deslizar para dentro dela, exatamente no momento em que Sam, ao receber Tracy, procura o policial que sumiu da portaria. Cooper é lançado para fora da caixa (que efeito sensacional aquele que vai dando profundidade a caixa) e continua sua viagem através do “espaço”.
A cena seguinte é de cair o queixo, lá está Sarah Palmer (Grace Zabriskie, mãe de Laura), naquela Twin Peaks, 25 anos depois, sozinha, assistindo na tv um programa onde onças devoram um gnu. A projeção é refletida no espelho, criando uma atmosfera intimista e violenta. Por fim chegamos ao Bang Bang Bar, palco de muitas emoções na saga de Twin Peaks, aqui aparecem dois personagens importantes das temporadas anteriores, Shelly Johnson (Mädchen Amick), que agora tem uma filha chamada Becky e James Hurley (James Marshall), odiado por muitos, amado por poucos. Uma piada interna surge nesse momento: Shelly dizendo que James é o máximo, que ele sempre foi o máximo, essa é certamente uma resposta direta para a galera que sempre detestou o personagem (David Lynch sabe o que é fandom e manda um shade). Sabemos que James (acompanhando no bar por Freddie Sykes (Jake Wardle)) sofreu um acidente, o que talvez justifique a ausência de Donna, que pode ter morrido nesse acidente. Enquanto Shelly flerta com Red (novo personagem, interpretado por Balthazar Getty), reparem que Jacques Renault (Walter Olkewicz) aparece ao fundo, um dos personagens importantes da série e que esteve com Laura pouco antes dela ser assassinada. Para finalizar com chave de ouro, lá está a banda Chromatics, cantando Shadow, eternizando mais um momento musical e mostrando que sim, Twin Peaks inventou também a música indie.
Apontamentos do Log
– Para mim a teoria que Lynch vai reunir personagens dos seus filmes na série continua firme, são muitas referências e todas com gatilhos bem possíveis. Pensando assim, ver os longas do diretor parece fundamental para entender melhor o enredo.
– Maravilha que o diretor se mantém fiel aos elementos que habitam o seu imaginário, trazendo de volta inclusive os efeitos toscos que tanto amamos. Se o mundo é digital, que a tecnologia também esteja a favor do bizarro e da forma livre.
– Suspeito e muito que o Bowie deixou algo gravado, todo mundo diz que não, já que ele não foi creditado, mas eu quero acreditar que sim.
– Quem é o ser que assassinou o casal e apareceu depois de Cooper deixar a caixa de vidro? Laura Palmer? O braço-árvore?
– Onde está Bob?
Até a próxima.















