Chegando ao fim.
True Detective se iniciou como uma série que se propõe mais a explorar o relacionamento entre seus protagonistas do que o verdadeiro culpado por um crime. Isso é uma bela forma de fazer com que uma produção ganhe em profundidade e deixe de ser uma série policial carregada de clichês. Mas, em algum ponto, a investigação precisa tomar conta da trama, e há um momento crucial em que esse caminho é tomado, já que esse ponto de virada pode ser também a hora em que a história perde vitalidade e força. Estes Haunted Houses e After You’ve Gone tem exatamente essa proposta, e, como de costume, True Detective se sai excepcionalmente bem.
Haunted Houses já começa rompendo com o paradigma da série, ao trazer Maggie para a sala de entrevistas, dando seu depoimento para Gilbough e Papania. Mesmo assim, a estrutura de True Detective, em que os detetives são descaradamente feitos de idiotas por uma sequência de mentiras evidenciadas pelos sempre precisos flashbacks posicionados com precisão por Cary Fukunaga, tornando curioso como os dramas pessoais dos personagens interferem na investigação de um crime atual, e deixa a dupla de detetives ainda mais perdida em sua busca por culpados.
Especialmente Rust. Sua obsessão pelo desaparecimento de crianças que coloca em xeque sua carreira como policial é coerente com o que Nic Pizzolatto propõe para o personagem. Aliás, é inteligente como o showrunner não usa a morte de sua filha como uma artificial conexão dele com os crimes, mas como um motivador para ir atrás dos verdadeiros culpados por outros crimes semelhantes. O que traz uma enorme diversidade de diálogos marcantes, conduzidos com maestria por Fukunaga. Especialmente sua conversa com a pequena Kelly, em que o homem com as cicatrizes é revelado. Mais uma vez, é digna de nota a atuação de Matthew McConaughey, que incorpora seu personagem de forma perfeita, fazendo um trabalho sublime de composição vocal e corporal.
Do outro lado, está Marty e seus problemas pessoais que o fazem uma pessoa extremamente imperfeita, até mais do que seu parceiro. A começar pela cena que abre o episódio, em um poderosa explosão que o afirma como um ser humano explosivo e instável. True Detective sempre busca criar cenários de oposição entre seus dois protagonistas, em mais uma maneira de romper com clichês do gênero e se afastando de figuras maniqueístas. Assim, se mais uma vez se envolve com uma garota muito mais jovem que ele, provocando mais uma decepção em Maggie, isso se revela como mera consequência dos fatos, e não como desvio de caráter.
O que obviamente nos leva ao momento em que a personagem de Michelle Monaghan decide se vingar de seu marido levando Rust também para o buraco. O fato de Maggie jamais revelar a Papania e Gilbough o real motivo da briga entre os dois ex-parceiros indica o tamanho de sua vergonha por ter provocado esse desentendimento de maneira irresponsável, ainda que Cohle tenha igual responsabilidade no acontecimento. Esse rompimento representa o final de toda a investigação antes de Rust retornar a Louisiana, o que podemos comprovar com a primeira cena dos dois fora da sala de entrevistas no presente, que encerra o episódio.
Assim, chegamos a After You’ve Gone. Pautado pela urgência pela captura do verdadeiro culpado, o episódio cria uma brilhante atmosfera de tensão. Nesse aspecto, Fukunaga mais uma vez se sai muitíssimo bem, adotando planos mais fechados, o diretor aposta muitas vezes em primeiríssimos planos para criar um tom claustrofóbico nos diálogos entre Rust e Marty. Da mesma forma, ele cria um tom de clara distância entre Marty e Maggie nos momentos em que eles aparecem juntos em cena, jamais aparecendo dividindo o mesmo quadro. O oposto acontece quando ela aparece no bar em que Rust trabalha, quando percebemos um grau de intimidade muito maior entre eles, mesmo que o ex-detetive ainda esteja profundamente magoado com ela.
Aliás, é curioso como o rancor que Rust guarda de Maggie é algo inédito para ele. Isso revela um traço de personalidade que não conhecíamos, o trazendo como um homem extremamente leal, mesmo que por vezes tome atitudes que podem ser consideradas condenáveis. É impressionante como ele é um personagem extremamente tridimensional, que foge do padrão de um detetive competente em uma série de televisão, em mais um esforço de True Detective em ser uma experiência televisiva diferenciada.
No que diz respeito à investigação, After You’ve Gone traz avanços muito maiores do que em outros episódios, graças ao foco da série em encerrar esse ciclo e ao fim dos flashbacks da época de 2002 para trás. As descobertas em relação a Tuttle são até previsíveis, mas não se tornam o principal dessa investigação. Pelo contrário. True Detective prefere destacar a natureza cruel e selvagem dos crimes. Em especial na cena em que Marty assiste ao vídeo roubado por Rust, quando este prefere ficar de costas a ter que rever a brutalidade de um crime contra uma criança.
É louvável que a série não tenha apostado no envolvimento de Rust ou Marty com os crimes. Muitos showrunners poderiam pensar que este seria um plot twist chocante. E de fato seria, mas traria um número gigante de incoerências que revelariam um enorme desespero pela atenção do espectador. Assim, True Detective prefere se ater à sua proposta, sendo impactante de sua própria maneira. O que acontece na cena final do episódio, em que os atrapalhados Gilbough e Papania acabam por pedir informações para a pessoa que estavam procurando, sem saber disso, claro.
A partir disso, True Detective consegue criar grande expectativa para seu season finale, colocando tanto a investigação quanto seus personagens em uma situação crítica. Não é difícil afirmar que a série é algo muito especial. Vamos torcer para que encerre sua temporada com o mesmo nível grandioso com que construiu sua história até aqui.















