Hollywood está em crise (outra vez), 90% dos principais críticos americanos são homens e tudo isso está interligado.
O The Hollywood Reporter publicou na semana passada, um artigo sobre como a indústria cinematográfica está oficialmente entrando em guerra contra o maior site de críticas e números dos Estados Unidos, o Rotten Tomatoes. Logo depois, foi a vez do Huffington Post também tocar no assunto, mostrando que o efeito ‘meleca verde’ e ‘tomate coroado’ está indo muito além dos compartilhamentos em redes sociais, e já começa a causar problemas intensos no mundo dos negócios.
Mas primeiro, vamos entender o Rotten Tomatoes
O site (poderíamos chamar de portal, ou até mesmo uma espécie de rede social?) foi lançado em 1998, e teve um grande ponto de virada no começo de 2016, quando a empresa responsável, Flixster, foi comprada pela Fandango, um site de vendas de ingresso para cinemas, pertencente ao grupo NBC-Universal. A partir daí, eles conseguiram aumentar significativamente o número dos seus usuários, e com isso o seu poder de influência.
Sem dúvida, o principal atrativo do RT é o score (pontuação). Os números apresentados aos navegantes é uma média realizada em cima da aprovação – ou desaprovação – dos críticos selecionados sob as produções hollywoodianas. Atualmente, graças ao seu tamanho e poder de busca, blogs também fazem parte do processo de ranking, mas, críticos como do The New York Times, terão sua estrelinha de Top Critcs. Usuários também dão sua opinião, e dessa forma sempre haverá dois números: score dos críticos e do público. Perceba, não se usa a palavra “nota”, pois não é isso que está sendo exposto ali.
Novas regras para um velho mercado
Em 2016, mudanças significativas aconteceram dentro do RT, mas foi neste ano que eles realmente mexeram com a indústria. Vemos o efeito de forma clara com o filme Get Out (Corra), lançado no dia 24 de fevereiro em “poucas” sala (esse número nunca vai ser baixo para o nosso padrão), e que com o passar das semanas, teve seu público triplicado. Conforme as críticas aumentavam, o filme alcançou 99% de score entre especialistas – algo novo -, tornando o longa mais e mais popular a cada semana, e conquistando 87% de score com o público. O custo da produção foi entre US$5 e US$7 milhões de dólares, e Get Out lucrou US$252,4 milhões – algo inacreditável.
O oposto também aconteceu, como é o caso de Baywatch (19%). Mesmo com muita divulgação, o filme “quebrou” e deu prejuízo de quase US$40 milhões de dólares. Magnatas do meio tentam entender até que ponto é do RT a culpa, principalmente do fracasso das suas obras. Exagero ou não, os 99% versus 19% de score estão trazendo à tona essa conversa: Será que o RT está ditando o que as pessoas estão vendo?
Estúdios começaram a tomar providência para tentar “frear” o efeito. Na última semana, durante o lançamento da animação Emoji: O Filme, atualmente com 17% score, críticos tiveram embargo (atraso obrigatório) em suas publicações até o dia 27 de julho ao meio dia, sendo que o lançamento do filme foi dia 28 de julho. O longa lucrou em sua primeira semana US$24,5 milhões de dólares, número bom para o gênero. Não se pode afirmar que o número vem da medida, mas provavelmente essa não será a primeira ação realizada pela companhia em obrigar o atraso de críticas da mídia especializada.
Apesar dos membros da indústria estarem extremamente desgostosos com toda situação, alguns especialistas dizem que há exagero. Jeff Bock, analista de box office (números do cinema), disse em entrevista ao THR que apesar das “melecas” não ajudarem os números das produções, elas ainda não estão dando a palavra final. O vice-presidente do RT, Jeff Voris, disse para a mesma revista que é um desserviço apenas se concentrar na pontuação. Em contrapartida, um estudo realizado pelo National Research Group nos Estados Unidos, descobriu que sete de cada dez pessoas estariam menos interessados em ver um filme se sua pontuação for entre 0 e 25%, principalmente entre pessoas de até 25 anos de idade.
Polêmicas à parte, existem pontos importantes a serem pensados. Para começar, será que realmente há muito poder em um só lugar? Alguns títulos não têm como defender, entretanto, questiono o que irá acontecer a longo prazo com filmes e séries de menor tamanho dentro desse conglomerado de informações. A situação fica mais alarmante quando lembramos que a grande maioria desses críticos, que faz gerar essas métricas, são homens, e em suma, brancos.

Onde entra a falta de representatividade?
No começo deste ano, estrou pela HBO a série Big Little Lies, atualmente com 92% de aprovação dos críticos. Eu, desde o primeiro episódio, fiquei entorpecida. Não conseguia imaginar como qualquer pessoa poderia escrever algo negativo dali. Ainda assim, não tenho problema de assumir que há sempre uma chance das minhas motivações pessoais estarem “me levando”, e por isso sou aberta para a opiniões diferentes. Mas a pessoa que me contrariar precisa argumentar com fatos/indícios, sem essa de ‘eu não gostei porque sim’, afinal, gosto é algo em constante construção, e críticas devem ser baseadas no que a obra apresenta tecnicamente (pelo menos é isso que é ensinado na faculdade de jornalismo e muito discutido em aulas de especialização em roteiro audiovisual). Mas, infelizmente, na prática a história não funciona assim.
Na época do lançamento de BLL, eu comecei a ler dezenas de críticas sobre a série. A grande maioria dos artigos eram positivos, e os textos com tom negativo explicavam com clareza os seus motivos. Até que me deparei com uma crítica específica: do The New York Times. Um dos veículos mais importantes do mundo, não é mesmo?! E foi ali, que pela primeira vez, tive uma epifania dentro deste universo. Eu não lembro o nome da pessoa que escreveu, mas fato é que ele odiou a série. O jornalista chamou de clichê, vazia, chamou a personagem interpretada por Laura Dern (Renata) de freak, entre outras coisas horríveis. E eu deixaria passar se não fosse por um ponto: ele comparou Big Little Lies com Cinquenta Tons de Cinza.
Eu não conseguia acreditar no que estava lendo. Um homem que escreve para o maior jornal do mundo não poderia ter interpretado dessa forma. Não parecia ser possível que uma pessoa teoricamente culta (palavra complicada), pensar assim. De todas as coisas que a série transmite, a complexidade de se lidar com um relacionamento abusivo é a principal delas. O fato de haver sexo onde isso acontece é só um adendo. Mas não, ele interpretou que a personagem da Nicole Kidman gostava dos abusos físicos. E ao escrever dessa forma, ele não apenas mostra como vê Celeste, mas também como enxerga mulheres em situação de risco em geral – sem nenhuma empatia.
Pouco depois a própria Reese Witherspoon comentou sobre o assunto em entrevista à Vogue: “Eu só escutei sobre uma crítica negativa de um cara. E eu realmente acho que ele é um velho branco. Então, tipo, quem liga? Talvez não seja pra ele”. Não temos certeza se era exatamente dessa crítica que ela falava, mas acho difícil não ser, ainda mais porque a atriz confirmou não ter o hábito de ficar lendo o que estão dizendo sobre o seu trabalho.
Três meses depois, foi a vez da atriz Jessica Chastain tocar no assunto. Durante a divulgação de Miss Slone na Europa, em entrevista ao The Guardian, ela disse que não adianta ter mais filmes sobre mulheres, se não tiver mulheres escrevendo sobre esses filmes. “O que as pessoas não estão falando é sobre os críticos. Os críticos são aqueles que sugerem para o público quais histórias merecem ser vistas, e quando 90% dos críticos são homens, e muitas vezes esses não são capazes de fazer uma review de um filme de gênero diferente do seu de forma neutra, a gente precisa pensar que precisamos de mais mulheres críticas”, afirmou.
O número citado pela atriz vem do nosso próprio objeto de estudo, Rotten Tomatoes, onde 91% dos top críticos são homens, dado fornecido pelo Gender to the Movies. Melissa Silverstain, fundadora do Women and Hollywood, em entrevista à revista Varity também foi enfática: “Nós precisamos de mais mulheres e pessoas de cor escrevendo sobre filmes de todos os gêneros. Entretanto, é vitalmente mais importante que tenhamos mais mulheres fazendo reviews e comentários sobre histórias de mulheres e dirigida por mulheres, isso porque mulheres tem uma perspectiva diferente dos homens. Não melhor, não pior, mas diferente. Nós temos nossa própria visão de como vemos o mundo”.
E esse é o grande X. Eu realmente não acredito que o crítico do The New York Time é uma pessoa horrível, mas existe uma necessidade gigantesca de ter mais visões de um mesmo lugar, e isso não vai acontecer enquanto apenas homens escreverem sobre filmes, séries, teatro, e qualquer outra manifestação artística. No caso do Rotten Tomatoes, especificamente, estamos vendo que esses números ditados por homens estão começando a mexer com a indústria. Então, quantas ‘Mulher Maravilha’ vão conseguir se salvar? Quantos filmes vão passar batidos porque só há uma visão de crítica? A ascensão (que né, vamos combinar, é daquele jeito, todos os exemplos são com mulheres brancas, o que diz muito) da representatividade dentro das telas pode ir por água abaixo se os projetos pararem de dar lucro.
Ao mesmo tempo que Rotten Tomatoes ajudou tantas produções que mereciam, será que agora pode começar a afundar outras sem merecer?
Fontes: The Hollywood Reporter, The Huffing Post, Variety, The Guardian e Vogue.












