No dia 20 de novembro, sexta-feira, e é celebrado o Dia da Consciência Negra, data que coincide com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo de resistência da luta do povo negro. Coincidentemente assisto o episódio neste dia, e fico com a sensação de ter visto o episódio certo na data certa. Mas calma, chega mais que vocês vão entender o porquê da coincidência.
A gente vive em um país extremamente desigual e racista. O percentual de pessoas que se declaram negras no Brasil é de 56,10%, este é o somatório de pretos e pardos trazido pelo IBGE. No entanto, essa superioridade numérica não reflete certas áreas da sociedade em que vivemos. Não ocupamos nem metade dos espaços e cargos de poder, tampouco estamos em grande número nos papéis de cinema e televisão. E se você se perguntar no que somos maioria, digo-lhes que em: taxas de homicídio, em mortes no interior de supermercados, feminicídio, pobreza, e somos maioria no sistema carcerário, a terceira população carcerária do mundo, totalizando 66,7%, em que de cada três presos, dois são negros. Percebemos então que no Brasil, se prende cada vez mais, mas, sobretudo, cada vez mais pessoas negras. Esses dados são do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública neste ano, dados referentes a 2019.

Essas referências, ainda que trazidas de forma superficial, pela falta de profundidade, refletem que a nossa sociedade não cumpre com o que ela finge querer. A busca pela igualdade é tão somente do ponto de vista formal e isso é comprovado diariamente. Os jovens negros que buscam uma vida melhor, oportunidade e visibilidade, muitas vezes não encontram e veem diariamente portas serem fechadas com um dos argumentos fajutos, o de meritocracia. Certa vez uma amiga me disse que existem lugares que não foram feitos para gente ocupar, e isso me doeu amargamente. O sistema é difícil e a frase do Randall na conversa com o Kevin faz total sentido: “sendo eu, na minha escola, preciso ser o melhor”. Quantas vezes nós temos que ser duas ou três vezes melhores, por que somos os únicos? Ter que brilhar duplamente e fazer um serviço melhor que pessoas brancas, com condições financeiras e sociais. É ter que se destacar e se fazer lembrado, já que as oportunidades simplesmente parecem não existirem.
O diálogo do Randall com o Malik foi uma daquelas conversas que a gente coloca no ranking de melhores da temporada. E digo isso pela profundidade do assunto, pela maneira como ambos foram francos um com o outro, e falaram de pontos de vista diferentes (faixa etária) sobre uma mesma realidade. Malik tem uma vida difícil, é jovem, negro, tem uma filha pequena e cumpre os requisitos que o sistema avalia e entende como “fracasso”. Ele tem um sonho, uma meta e vai em busca do seu projeto pessoal. Encontra obstáculos, mas assim como o Randall da adolescência, ele também precisa ser o melhor, e demonstra entender isso. As coisas não são tão simples no dia a dia e é essa realidade que a maioria da população, dos 56,10% que mencionei no início, enfrenta. Ainda que exista as exceções, as Taís Araújo, Lázaro Ramos, as Maju Coutinho e outras personalidades negras que servem como medidores de sucesso para aqueles que decidem apontar a exceção à regra. A nossa realidade é dura e é diária, e como foi dito no filme Estrelas Além do Tempo, “toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a linha de chegada de lugar”.
E esse dar o melhor de si não é por conta dos pais, não é pressão familiar, que nem a do Kevin, é pressão da sociedade, é a pressão de ser alguém, de ser enxergado quando o mundo inteiro te coloca como invisível. Essa é a nossa realidade, e ver jovens como o Malik tendo sonhos e pessoas ao seu redor para ajudar a alcançar é emocionante demais, e traz aquele sorriso no rosto, acalentando nossos corações.

Todas as vezes que algum episódio é centrado no Kevin eu fico com um pouco de receio. Não por desgostar do personagem, mas por temer uma abordagem tendenciosa. Confesso que não gostei muito da repercussão de Honestly, no sentido da mensagem que ele passou. Vi algumas pessoas reagindo no sentido positivo para a atitude do Jack, em pressionar o filho, sem ao menos ponderar sobre suas escolhas e a problemática disso tudo. Vi outras esquecendo que Rebecca tem papel fundamental nessa criação e é tão merecedora de elogios quanto o Jack, afinal, ainda que o objetivo dele tivesse sido cumprido, a Rebecca deu um freio importante. Que adolescente em sã consciência gosta de ser pressionado dessa maneira? Entender de que forma algo deve ser feito é mais importante do que simplesmente fazer sem entender as suas próprias motivações. Os pais devem dar forças e suporte aos filhos para que alcancem o máximo, e tudo aquilo que eles mesmos não conseguiram na época, mas a maneira como isso deve ser feita é tão importante quanto o fazer em si.
É por isso que me preocupei com qual a mensagem da série para esse episódio, e o que pude perceber foi um Kevin angustiado e perdido, que seguiu uma carreira mais por vontade do pai do que de si mesmo. E essa obsessão do Jack em fazer com o filho sempre lidasse com os problemas por conta própria, é hoje um dos traumas, que reflete na sua carreira atual, a incansável busca pela aprovação, por ser notado.
A maneira que o Randall usa para decorar os assuntos, tópicos e afins, é até hoje utilizada pelo Kevin e se esse recurso conseguiu se manter no presente, imaginem as partes negativas? Digo, imaginem os traumas e os reflexos do comportamento do Jack durante esse processo de treinos em fazer o filho ser o melhor no futebol americano.
Diferente da Kate, não acho que a dificuldade na atuação do Kevin tenha a ver com a briga. O questionamento dela funciona mais como um lembrete da discussão para a série, deixar vivo que a briga dos dois trouxe consequências de modo geral para os irmãos. Mas quem sabe isso não seja melhor abordado nos próximos episódios?

Estava demorando para os reflexos do relacionamento da Kate com o Marc virem à tona. A última temporada focou de maneira certeira e precisa nessa fase da adolescência da Kate, e se não me falha a memória parecia que tinha algo de errado com aquele fim de plot.
A gravidez era algo já imaginável, e acho que mostrar as consequências disso e o possível aborto da Kate vão ser diretrizes importantes, seja pela sua relação com o corpo, como também pela relação com a maternidade e os problemas da gravidez já na fase adulta. Mais uma vez This is Us brinca com as relações pessoais dos personagens, ao confrontá-los com situações passadas e/ou mal resolvidas. A verdade mesmo é que essa série é uma grande terapia para seus personagens. Veja, o quão difícil foi para a Kate guardar isso para si e mais ainda vir a contar ao Toby, 22 anos depois? Imensurável a sua dor e na conversa com o Kevin no carro deu para perceber que ela entende e compreende o que o Randall quis dizer quando mencionou a sua vida na infância. E ela dizer isso ao Kevin é sinal de que compreende também os efeitos que isso pode ter na vida de todos ali.
Agora, a série entra em terreno perigoso e significativo. O foco na gravidez da Kate vai ser importante por diversos ângulos, seja pelo ato de abortar, como pela parte psicológica da mulher que aborta. É mais uma vez a importância de focar em temas importantes, reais e que refletem em inúmeras mulheres.
The Big Four
P.S.: Achei um pouco caricata a forma como o diretor tratou o Kevin. Foi desconfortável de ver, mas mais pelo quesito vergonha alheia do diretor. A troco de absolutamente nada.
P.S.: Que cena ICÔNICA do Randall tirando a roupa e sendo filmado. Queria uma figurinha da Beth o imitando.
P.S.: Eu tô achando fortemente que essa mulher da gravidez vai acabar dando pra trás na adoção. Não sei vocês, mas tá tudo me cheirando muito estranho.
P.S.: De pouquinho em pouquinho, ao final de cada episódio, o quebra cabeça mãe do Randall vai sendo montado. O primeiro passo já foi dado e o carinha lá já deu um saque no nome do Willian sendo dito pelo Randall, agora só falta ligar os pontos e marcar aquele encontro.
Pessoal, nossa queridíssima This is Us entra em hiato e retorna somente em 05 de janeiro. Eu sei, eu sei, é tempo pra caramba. Mas sabemos como isso funciona, né? A gente se vê ano que vem e eu espero todo mundo aqui. Feliz natal, ano novo, um grande beijo e até lá!













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