Doe sangue.

Spoilers abaixo!

“You’re completely in over your head, aren’t you?” – Lori Grimes

“Ma’am, aren’t we all?” – Hershel Greene

“Bloodletting” introduz muitos novos personagens, uma fazenda que passa a estranha sensação de ser importante e lida com o cliffhanger do episódio anterior da maneira esperada e necessária – fortes tentativas de conectar a dor de Rick com a audiência e de criar um conflito que possa impulsionar os personagens em busca de um mesmo objetivo. Trazer união para um grupo dividido, por mais que dúvidas e grandes intrigas sejam repetidas inúmeras vezes por qualquer personagem, sem motivo algum.

É um trabalho burocrático que vai de encontro com a própria premissa da série, de pessoas em uma fuga sem fim. À medida que os personagens se movem, eles vão estar em lugares ou realizar missões em ambientes diferentes, o que é agradável para os olhos, mas ruim para qualquer tipo de desenvolvimento: cada vez que The Walking Dead encontra uma localização, ela precisa estabelecer vários detalhes dela. Motivos para os personagens terem parado lá (nesse caso, Carl), seus habitantes (Hershel, filhas, Otis) e como eles vão sair desse lugar, ou a razão por saírem dele. Isso limita a série, limita tempo, sendo uma necessidade que ela vai precisar resolver. Quantos CCDs nós teremos? Quantas Atlantas, quantas fazendas? Assim, a série se restringe a ser tão boa ou tão ruim quanto o seu ambiente, e o cansaço é inevitável (principalmente com o fato de que ela já repetiu várias ideias em apenas oito episódios).

A nossa sorte é que o lugar da vez é bem interessante, com motivos que oferecem bons momentos para os personagens principais. Ainda continuamos naquela marcha de novela, onde tudo deve ser super emocionante a todo o momento. Mas o que faz boa parte dessas tentativas suceder é que existe comprometimento com a ideia. Ela não tenta achar um balanço, aliviar a barra. Bear McCreary senta o dedo em uma trilha que soa antiquada, o diálogo diz o que quer dizer sem muitos contornos, o foco não se espalha e confere ao episódio um ritmo longo em bom, triste excesso…  E ao fazer isso, Rick se remoendo de culpa/Lori agarrando Carl/Shane convencendo Rick a ficar/T-Dog delirando são todos momentos que mesmo hilários ou mal abordados no início, terminam com estranha e surpreendente profundidade.

Ainda acho cedo para dizer se essa é uma série ruim disfarçada de boa ou se é uma série excelente com sérios problemas, mas pela primeira vez em um bom tempo foi possível captar as emoções que The Walking Dead tentou passar – não que ela estivesse sendo confusa em relação às intenções, com tantos gritos e falta de sutileza. O maior mérito de “Bloodletting” é que, dando continuidade a uma tendência iniciada na última semana, agora entendo o relacionamento de Rick e Shane. Ela não berrou o que eles passaram, ela não disse e colocou como verdade absoluta. Ela mostrou, palavra por palavra, com toda a sua brutalidade, estranheza e acidental hilaridade. O mesmo com os problemas que ele passou com Lori ou o medo que T-Dog sente (Carol ainda continua vazia, sendo definida por outros personagens e não por si mesma ou suas ações. Nem tudo é perfeito).

Não é a abordagem ideal, mas fico feliz que a série esteja arrumando meios de fazê-la funcionar.

Já o segundo maior mérito de “Bloodletting” é Hershel, interpretado por Scott Wilson na mais absoluta calma. Com todos afoitos pelas duas crianças em perigo, a série se beneficia imensamente de uma figura esperançosa e pragmática – se os sobreviventes principais brigam dez mil vezes entre si por cada decisão, Hershel toma controle da situação sem precisar nem erguer a voz. É pacífico, com uma rigidez de comando que nunca abre espaço para dúvidas. E não só o jeito do personagem é prazeroso de assistir (sua aparência e roupas brancas dão um ar quase celestial ao velho), mas como ele reflete nos outros: um pai tão zeloso que teve sucesso em salvar a sua família só acentua a culpa de Rick e o seu processo de tentar fugir do que aconteceu. Duas decisões que quebraram a síndrome do herói de ação perfeito, responsável apenas por tudo que é bom e sagrado, tedioso como esperar gelo derreter.

Hershel também é o representante desse lugar que parece mais promissor que as outras “moradas” do grupo, colocando uma fazenda e filhas no mundo da série – fatores que passam uma sensação meio estranha quando se tornam mais presentes. Existe sempre uma sensação de que os novos personagens estão guardando segredos, de que aquela fazenda possui uma natureza assustadora ou algo do tipo. Talvez a sobrevivência deles envolva algo ainda não revelado? Talvez Maggie seja mais do que aparenta, com toda aquela coisa meio Zorro?

De qualquer maneira, não tenho a mínima ideia. Não li as HQs e não sei se a família Greene é uma criação do Kirkman, mas The Walking Dead, a série, ganhou o direito de criar essas perguntas sem parecer que está querendo imitar Lost ou séries do tipo – vide o que Jenner disse para Rick no último season finale, algo no qual o meu interese continua baixo.

Ainda estou cauteloso quanto ao futuro, mas esse foi um ótimo episódio. Vamos ver no que vai dar.

Outras observações

– Ok, ok, Carl levou um tiro. Mas e o veado?

– Quem fizer uma tabela com todos os personagens e o número de zumbis que eles mataram ganha 100 pontos

– Andrew Lincoln era bom quando tudo que o personagem pedia era um sotaque bacana, Andrew Lincoln continua bom agora que ele precisa se dopar de culpa e repetir pela décima vez que o mundo está lascado.

– Para você que estava com medo de passar o resto da sua vida sem ouvir o Jeffrey DeMunn pronunciar “T-Dog” (claramente a coisa mais engraçada na história do universo), The Walking Dead foi renovada para uma terceira temporada de treze episódios. Yay, zumbis.

– Shane indo pegar os equipamentos é uma boa resolução para a história dele tentando ajudar Rick a superar a culpa de ter deixado Carl levar um tiro, dando uma chance de redimir Otis com algo além de palavras. Mas não sou muito fã do cliffhanger: seria anticlimático a série matar Shane sem mostrar Rick descobrindo toda a situação com Lori, e uma morte de Otis seria o tipo de sacrifício genérico que ela deveria evitar, um início muito fácil para a confusão entre o grupo e a família – algo que já parece inevitável, considerando a atitude de algumas pessoas.

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