The Third Day é a nova minissérie com seis episódios da HBO, criada por Felix Barrett (Diretor Artístico da Companhia Punchdrunk de Teatro) e Dennis Kelly (Utopia). O show é dirigido por Marc Munden (Utopia) e Philippa Lowthorpe (The Crown). O show conta com a atuação competente e luxuosa do ator Jude Law (The Young Pope), dando vida a Sam, um ex-assistente social que, aparentemente, foi pego em um esquema fraudulento em um negócio de jardinagem doméstica. Em meio ao processo de luto, Sam, se vê atraído por uma estranha ilha isolada. A minissérie é uma coprodução entre Sky Studios, Plan B Entertainment e da Companhia Punchdrunk de Teatro, dividida em três partes: a primeiro chama-se ‘Summer’ e conta a história de Sam; a segunda parte da produção chama-se ‘Autumn’ e será um “grande evento de teatro imersivo” ao vivo, feito pela Companhia de Tetro Punchdrunk; e a terceira e última parte chama-se ‘Winter’ e segue a história de Helen (Naomie Harris, 007, Sem Tempo para Morrer); segundo Law, em algum momento essas histórias distintas irão se cruzar.

The Third Day, tal qual o icônico filme The Wicker Man (1973) ou o clássico A Bruxa de Blair (1999) ou o recente Midsommer (2019), flerta abertamente com o subgênero do Horror conhecido popularmente como Folk Horror, que explora muito o medo dos rudimentos antigos, das superstições e do contexto de isolamento, onde a atmosfera restrita e distanciada abre espaço para a contestação do sistema de crenças e do senso de realidade. Nesse tipo de narrativa, geralmente por forças alheias à sua vontade, o/a protagonista acaba parando em algum lugar ermo, com belas paisagens e com uma diminuta comunidade repleta de pessoas estranhamente simpáticas, que mais tarde se provam membros de algum tipo de seita, com rituais violentos e bizarros, de alguma adoração pagã, essas pessoas colocam a mente do/da protagonista em colapso, levando-o/a a questionar a sua própria sanidade . Facilmente localizamos alguns desses elementos no episódio de estreia dessa minissérie, contudo, apesar da semelhança com o panorama encontrado nos contos de terror folclórico, creio que há mais camadas a serem mostradas além do trivial que se espera encontrar nesse tipo de narrativa.

O início do episódio nos mostra Sam, através de um super close-up do rosto de Law, conversando ao telefone sobre um suposto roubo de dinheiro ocorrido em sua casa/empresa, em seguida ele coloca os fones nos ouvidos e, ao som de Dog days Are Over, de Florence and the Machine, ele começa uma espécie de ritual de despedida/luto e, enquanto ele deposita uma camiseta infantil listrada nas águas do riacho, um choro compulsivo lhe domina e somos conduzidos a uma belíssima edição de imagens que cria um surpreendente contraste entre o verde profundo da floresta, o padrão hipnotizante da camiseta e o brilho do fluxo das águas do riacho. Claramente algo nessa cena nos lembra as criações de Wes Anderson, talvez por causa do visual excêntrico, das cenas muito próximas do rosto de Law ou da simetria na composição. Ao ouvir um barulho, Sam escapa da sua profunda dor momentânea e vai em busca de uma resposta, quando se depara com uma jovem tentando se enforcar em uma árvore na floresta e sendo ajudada por um garotinho que foge assim que o avista. Sam impede que a garota cometa suicido e decide que é a sua responsabilidade levá-la para casa em segurança, no entanto, ele não consegue ver o garotinho outra vez.

Durante o caminho, Sam descobre que a garota se chama Epona (Jessie Ross, High Life) e mora na Ilha de Osea, um recôndito vilarejo, que possui um único acesso por uma estrada que fica completamente submersa de acordo com a maré; uma outra descoberta assustadora feita por ele é que, segundo a jovem, não havia nenhum garotinho com ela na floresta. A visão desse garotinho teria sido fruto da sua imaginação? Apesar de todos esses estranhos sinais, Sam quer ter certeza de que Epona está bem e, por esse motivo, acaba esperando a maré baixar até a estrada ficar visível para levá-la para casa. No final, ele a leva para Martin (Paddy Considine, The Outsider) e sua esposa Sra. Martin (Emily Watson, Chernobyl), o casal administra o pub local. A dinâmica do casal Martin é muito esquisita, enquanto o homem é muito alegre e acolhedor, a mulher se mostra mais fria e distante, chegando a insinuar que Sam deveria ir embora o mais rápido possível. Ambos garantem que Epona está perfeitamente bem na casa deles e que não corre perigo algum, no entanto, Sam não consegue mais ver a garota, apesar de ela estar hospedada em um dos quartos da parte de cima do pub. A partir daí as coisas começam a ficar desconcertantes para Sam, o seu celular perde o sinal, o telefone local não funciona, o horário de subida da maré está muito próximo, seu carro está preso por um veículo maior a sua frente, impossibilitando a sua rápida partida, todos os moradores que ele encontra parecem conhecê-lo de algum lugar e fazem questão que ele permaneça na localidade. Para piorar a situação, Sam constata que o pai de Epona é bastante violento e que algo muito sinistro acontece entre os moradores, que se preparam para um festival como se fosse a coisa mais importante do mundo, usando máscaras, ornamentando bonecos gigantes e pouco se importando com um estranho que os observa.
Mais tarde, com a estrada já submersa, Sam fica preso em Osea e aceita a oferta de pernoitar em um quarto ofertado por Martim, mas para sua surpresa existe uma turista americana chamada Jess (Katherine Waterston, Animais Fantásticos e Onde Habitam) que já o antecedeu, ocupando o quarto que lhe era destinado. Diante dessa confusão, ambos descem para o pub e, entre uma bebida e outra, Sam descobre que o celular da garota está funcionando. Em um telefonema confuso e desastroso, recebemos migalhas sobre a história de fundo da vida de Sam, mas isso não é o suficiente para sabermos muito mais sobre o homem que diz ter três filhos (duas meninas e um menino) e que diz administrar um negócio de jardinagem. A história é contada, nesse episódio, a partir do ponto de vista de Sam, logo todos as esquisitices, presságios de violência, animais em decomposição e o misterioso garotinho que aparece e some com uma incrível rapidez, são pontuações que nos são entregues à partir de um personagem que nós não sabemos ao certo se realmente está vendo todas essas situações da forma como elas realmente estão acontecendo ou se as está recriando de forma interpretativa de acordo com as suas conveniências.
Segundo entrevista do USA Today, o cenário de The Third Day é uma parte fundamental da sua própria história e funciona quase como um personagem. A ilha Osea é um lugar real na costa da Inglaterra, comprado em 1903, por Frederick Nicholas Charrington, herdeiro de uma cervejaria, que queria construir um centro de tratamento para ajudar as pessoas que lidavam com o vício do álcool e de opioides. Há algumas pequenas pistas deixadas entre uma cena e outra do episódio, por exemplo, o nome da adolescente na floresta é Epona, que na Mitologia Celta era cultuada em muitas regiões como a deusa protetora dos cavalos, burros, mulas e de seus cavaleiros e, não por acaso, é ela quem conduz Sam até a ilha e depois desaparece. Seria Sam uma espécie de cavaleiro conduzido por Epona para uma batalha? Ou para o sacrifício? A personagem de Emily Watson diz para Sam em certo momento da trama “muitas pessoas têm medo da dor, mas não sabem como ela pode ser reconfortante”, é como se ela de alguma forma soubesse o fardo secreto que ele carrega. Uma outra pista interessante é que a camiseta jogada no rio por Sam tem a mesma estampa listrada e o mesmo jogo de cores que a sacola de dinheiro que ele carrega em um momento de desequilíbrio emocional. Será que ele realmente jogou a camiseta no rio? Será que ele realmente foi roubado? Será que ele realmente tem três filhos? Será que ele está de luto por um dos seus filhos? Por que será que algumas pessoas dizem conhecê-lo de um escândalo mostrado na televisão? São muitas perguntas e nenhuma resposta inicialmente, mas, na minha humilde opinião, isso torna tudo mais interessante nessa minissérie.
Para alguns, o problema desse episódio piloto é que ele soa muito familiar, consequentemente, depende muito de para onde as coisas vão a partir daqui para se formar uma opinião mais concreta sobre se realmente é um bom novo show ou não. Por outro lado, esse mesmo problema apontado por alguns, é o que impulsiona muitas outras pessoas a terem vontade de, não só verem o próximo capítulo, mas acompanharem profundamente a jornada misteriosa de Sam, dos visitantes e dos moradores de Osea. Eu faço parte do segundo time, por isso, pretendo acompanhar essa curiosa jornada em busca de respostas para os mistérios apresentados nesse piloto.
Recomendo essa minissérie para quem gosta de shows com suspense, conexões com seitas e rituais em locais isolados, uma pitada de terror rural, uma fotografia de tirar o fôlego, com seus tons de verde e cinza absolutamente fascinantes e vibrantes e uma câmera fora do foco que enriquece ainda mais a atuação madura e segura de Jude Law.












