Juízes 16:4. Nessa passagem da Bíblia, a qual o motorista da funerária citou à Chandra, há a descrição de como Sansão encantou-se e envolveu-se com Dalila e, persuadido por suas palavras e insistência, revelou sua maior força e viu-se traído. O homem de força sobre humana tornou-se escravo em uma prisão… Será Andrea a Dalila de Naz? A mulher que trouxe seu fim? Para ilustrar ainda mais a metáfora dessa história, Nasir também perdeu os cabelos na série…

The Night Of é muito eficiente em envolver o público em sua trama, cultivando dúvidas, inquietações e tensões através de personagens bastante empáticos. Nesse episódio sentimos duplamente angústia por Naz, seja ao vê-lo mergulhando derradeiramente em sua personalidade badass ou vendo-o como um réu prévia e publicamente condenado por um crime que – ainda  –  acreditamos que ele não cometeu.

E por essa capacidade de nos envolver e instigar é difícil não elogiar novamente The Night Of. Semana após semana a série prende toda minha atenção durante 60 minutos e me vejo inteiramente entregue a sua trama. Mas, interessantemente, é nesse Samson and Delilah que consigo levantar algumas críticas ao que parecia tão irretocável. O cliffhanger do último episódio nada mais foi que a sutileza do roteiro em nos mostrar que Stone voltou para casa e para seu tratamento com luz UV, a salvo. Ok, não há qualquer problema em começar esse episódio em um momento diferente, mas eu senti muita falta de qualquer menção ao caso Duane Reade. Diante das descobertas de Stone e da atitude do homem com nome de farmácia, é evidente que ele se torna um importante suspeito e após um episódio que se dedicou tanto a destrinchar essa questão, achei estranho esse Samson and Delilah não ter qualquer referência ao que vimos na última semana.  O episódio voltou a trabalhar a ambiguidade de Naz e voltou as atenções a um novo (velho) suspeito, o padrasto de Andrea, de forma quase independente aos eventos Duane Reade.

Outra questão a ser levantada é o fato do ritmo lento da série ter sido quebrado nesse episódio. Eu que sempre elogiei o trabalho feito nos detalhes, senti que o início do julgamento de Naz foi um pouco abrupto. O diálogo de Stone e Chandra sobre a escolha dos júris (mulheres jovens urbanas), que muito me fez lembrar American Crime Story, me deixou bastante interessada na forma que eles conduziriam o processo e eu gostaria de ter visto esse tópico mais aprofundado. A poucos episódios do fim, é compreensível que eles tenham acelerado as coisas, mas eu lamento não vermos algumas dessas questões minuciosamente trabalhadas.

Fica cada vez mais claro que o foco da série não é o crime ou quem o cometeu, mas como a introdução nesse sistema é capaz de transformar Naz e, talvez por isso, essa decisão do roteiro em um rápido início do julgamento. Ainda assim, a sensação é que mesmo essa transformação de Nasir é apressada. Não estamos falando de um grande intervalo de tempo (o gato ficaria no abrigo por apenas dez dias antes de ser sacrificado) então é no mínimo questionável a maneira como Nasir embarca em um caminho sombrio e violento com tanta facilidade. A não ser que essa sua faceta estivesse escondida de nós ou ofuscada dele mesmo apenas esperando o gatilho ser disparado. Mas para alguém que luta para provar a inocência, é extremamente inconsequente tatuar-se com ‘PECADO’. É quase como se ele gostasse de estar preso e dessas novas experiências de vida.

Xenofobia. O episódio iniciou-se com a TV noticiando o caso de um taxista paquistanês que foi agredido, uma consequência que soa bastante crível ao que aconteceria se o caso Nasir Khan fosse real, especialmente nos EUA, especialmente em Nova York. Após o 11 de Setembro, ‘cada esquina de NY ganhou uma câmera’ e o preconceito aos muçulmanos e árabes foi exacerbado de forma que a cada atentado ocorrido em qualquer parte do mundo, a comunidade muçulmana americana sente-se novamente perseguida e julgada. Nesse episódio descobrimos que Nasir conheceu esse preconceito quando criança e reagiu violentamente, o que é providencial para a Acusação e um novo obstáculo a Defesa que tem cada vez mais dificuldade em construir a imagem de bom moço de Naz.

E ironicamente, o menino que sofreu xenofobia foi a ‘desculpa’ para mais preconceito ser propagado contra um paquistanês inocente. Preconceito que é especialmente sentido pela família de Nasir, seja por seu irmão que apareceu nesse episódio ‘vingando-se’ da escola que o expulsou, seja por seus pais cada vez mais marginalizados.

Riker Island. Na prisão acompanhamos mais do mergulho sombrio de Nasir preenchendo o corpo com tatuagens, fumando crack (?) e aprendendo a faturar com o celular que Freddy lhe deu. O ex-boxeador continua bastante empenhado em ajudar Naz seja fornecendo-lhe a roupa apropriada ao julgamento ou questionando-o sobre sua advogada. Mas nessa intensa relação e idolatria que Naz tem cultivado, a sensação é que mais do que em ‘um preso de verdade’, Freddy pode estar transformando-o em um ‘criminoso de verdade’. Inocente (possivelmente) das acusações que o puseram ali, ele pode estar tornando-se o homem criminoso e violento que imaginam que ele seja.

É Freddy quem levanta um contraponto interessante à segurança que Nasir sente por Chandra. Se para o paquistanês o fato dela acreditar nele já lhe é o bastante, Freddy ressalta que ‘apenas um advogado novo não saberia que não importa acreditar nele ou não’. Mesmo assim, é para ela quem Nasir liga da prisão e é com ela que respiro fundo, ansiosa, ao ouvir “Espero que não se assuste se eu disser… Boa noite”.

Por fim, nesse Samson and Delilah, surge aquele que pode ser um novo problema para Nasir em Riker Island. Ao testemunhar um momento bastante íntimo de Petey e Victor, ele volta a ter sua vida ameaçada, mas dessa vez por um dos braços direitos de Freddy. Começo a me perguntar se Naz sobreviverá até o fim de seu julgamento.

Estado x Khan. Voltamos a ver a Promotora usando a idoneidade e autoridade de especialistas para repetirem o que ela deseja para corroborar sua história. O coquetel que Nasir tomou poderia deixá-lo apático, como seu desmaio sugere, ou disposto a pilotar um avião pelo mundo e, obviamente, a Acusação ficou com a segunda opção.

O julgamento de Nasir nos relembra todos os acontecimentos da fatídica noite aos olhos de uma Promotoria bastante segura, uma Chandra apreensiva com seu desempenho como advogada e um Stone feliz que voltou a ouvir seus passos em sapatos graças a um tratamento alternativo. A felicidade com que o advogado encara seus pés saudáveis é muito bem transmitida por Turturro que faz de Stone meu personagem preferido na série.  Sorri junto com ele.

A cena dele trocando rapidamente de camisa com Nasir foi um tanto quanto questionável. Pergunto-me se os advogados não deveriam ter passado esse tipo de orientação aos pais de seu cliente. Freddy lembrou-se, eles não.

Um personagem que sinto não ter tanto tempo em tela é o Detetive Box. Ainda que o julgamento já tenha começado, acredito que ele ainda poderá ser confrontado com algo que indique uma direção oposta da condenação de Nasir. Em suas pesquisas nas mídias sociais de Naz, além de ter descoberto sobre o incidente sobre seu passado, também viu algo que passou rapidamente e chamou-me atenção: o agradecimento público de Amir. Não acredito que isso foi colocado aleatoriamente, resta saber que tipo de insinuação poderá estar atrelada a essa questão.

Chandra e Stone. A dupla da Defesa avança na procura de novas pistas que direcionem a outros suspeitos, e assim, Chandra tem um encontro assustador com o motorista da funerária e Stone faz descobertas contundentes sobre o padrasto de Andrea. A propósito, a interação entre a ingenuidade e inexperiência de Chandra funciona muito bem com o pragmatismo de Stone.

Desde o primeiro episódio, o motorista da funerária tinha chamado atenção. Não bastasse todo o estranho diálogo que ele teve com Andrea no posto de gasolina, descobrimos agora que ele deixou o local imediatamente após a saída de Nasir e Andrea. Sua cena com Chandra foi extremamente bizarra e mórbida com toda aquela conversa sobre ‘gato e novelo’ e um ódio nutrido contra ‘mulheres que querem te destruir’. Ainda que tudo soe desconfortável e suspeito, e a cena foi construída nos detalhes para nos causar essa inquietação, sinto que é mais um artifício do roteiro para nos confundir. Foi assim com Duane Reade semana passada e também com o padrasto de Andrea nesse episódio. Diferentes indícios que sustentam diversas possibilidades, inclusive que o próprio Naz foi o assassino. Mas qual é a verdadeira?

Seguindo outra vertente, Stone aprofunda-se em outro suspeito: Don Taylor, o padrasto de Andrea. Interessado no dinheiro da mãe de Andrea, ele tinha na jovem seu grande empecilho para herdar a fortuna da mulher. Com um histórico de envolver-se com mulheres mais velhas, o relato que Andrea teria dito que só compartilharia sua herança com Don ‘por cima de seu cadáver’ e a cena final do episódio que funciona para ilustrar toda essa imagem construída, fica claro que Don Taylor é uma boa aposta, especialmente pela violência passional do crime. Mas há uma interessante teoria circulando na Internet: Andrea teria se envolvido amorosamente com o consultor/contador de sua mãe (o que vimos com Stone ao fim do episódio) e estaria ‘fugindo’ dele quando entrou no táxi de Naz. Mais tarde ele chegou a sua casa e a flagrou com Naz. Bêbado e transtornado ele teria matado a menina e teria na figura do padrasto um excelente bode expiatório.

A dois episódios do fim, The Night Of não tem tanto tempo pra abordar o julgamento, investigações paralelas e o chamado selvagem de Naz. Aposto em episódios bastante dinâmicos e torço para que todas as revelações sejam consistentes e, principalmente, que a série mantenha o bom trabalho que vem fazendo até aqui. Nos bastidores da HBO há conversas sobre uma possível renovação da minissérie que foi originalmente concebida como um projeto limitado. Mas antes de comemorar uma renovação, eu desejo que a série finalize essa temporada mantendo todos os elogios que foram feitos ao longo dessas semanas.

Artigo anteriorZoo 2×09: Sins of the Father
Próximo artigoThe Lost Boys vai virar série de TV pela CW com produção do mesmo criador de Veronica Mars