Simplesmente não deu.

Spoilers Abaixo:

Nem sempre boas intenções são acompanhadas de boas execuções. Pelo contrário, estas se mostram tímidas se comparadas com aquelas. Por esse motivo, é uma pena quando uma ideia interessante é mal executada, desperdiçando uma boa oportunidade de causar boas impressões. No mundo das séries, isso não é diferente. Existem uma infinidade de propostas com potencial que jamais chegam a atingi-lo. The Mentalist é uma das que perigosamente flerta com esse tipo de situação, embora, diferente de muitas outras, acerte na maioria das vezes que se propõe a sair de sua zona de conforto. My Bloody Valentine é um ótimo exemplo da minoria, desperdiçando uma excelente chance de se aprofundar em uma personagem que comprovaria a mudança de foco da série.

Enquanto Van Pelt recebe a notícia que a investigação sobre a morte de O’Loughlin está encerrada, a CBI recebe a notícia do assassinato de Gabriel Porchetto Junior, filho de um perigoso criminoso. Durante a investigação, a agente recebe a tarefa de escoltar para interrogatório Janpen, uma prostituta chinesa que poderia ser testemunha do crime. Mas, durante o trajeto, Van Pelt se depara com o verdadeiro assassino, que causa um acidente de carro, deixando a ruiva perdida na floresta. Por isso, a CBI não mede esforços para procurar sua funcionária, enquanto Jane busca ajuda de Porchetto pai para solucionar o mistério.

Um dos pontos que mais elogio nesta quarta temporada de The Mentalist é justamente o fato de a série estar procurando focar-se em coisas diferentes de simples casos da semana, buscando investir, ainda que timidamente, no desenvolvimento dos personagens. Mas, quando os roteiristas finalmente procuram abordar de forma mais direta alguém que não seja Jane, o fazem de maneira extremamente indecisa, parecendo não saber até os minutos finais que caminho pretende seguir. Assim, se Van Pelt recebe do roteiro destaque que nunca recebeu, isso se dá de maneira muitas vezes desnecessária, já que a maior parte dos diálogos propostos não se aprofundam na personalidade da personagem, desperdiçando uma enorme quantidade de tempo abordando com insegura superficialidade os assuntos que a envolvem.

Mesmo cometendo um grande números no caminho, o roteiro consegue, por um caminho desnecessariamente torto, cumprir seu objetivo de caracterizar Van Pelt como uma pessoa completamente diferente da personagem conhecida na primeira temporada. Por isso, é curioso quando Janpen diz gostar dela por ser uma agente durona, adjetivo impensável para ela anos atrás. E embora a aparição do fantasma de O’Loughlin seja artificial e em alguns momentos sem sentido algum (como em certa cena em que o ex-noivo “enxerga” algo que está nas costas de Van Pelt), a decisão dela de guardar o pingente mostra a vontade dela em se fortalecer, ao perceber que o fato de ter assassinado seu noivo não é algo para torná-la insegura, e sim mais confiante de suas escolhas.

Mas os roteiristas não se limitam a envolver Van Pelt apenas com os fantasmas de seu passado. Aliás, esse é o grande problema da abordagem de My Bloody Valentine. Ao invés de concentrar-se nos medos de seu personagem central no episódio, o roteiro prefere abordar, mais uma vez, o romance entre ela e Ribsby, em uma história que não apenas parece não ter fim como gira em círculos e aparenta sempre parar no mesmo lugar. Dessa forma, a gravidez de Sarah surge apenas como um artifício para que essa trama seja alimentada por mais algumas semanas, além de ser atirada na tela sem nenhum cuidado, como se os roteiristas tivessem preguiça de construir histórias bem articuladas.

Se boa parte do episódio dedica-se a apenas um personagem, novamente o caso da semana se mostra repetitivo e arrastado, inserindo uma enorme quantidade de suspeitos que apenas causam confusão, principalmente pelo fato de a investigação não ser a única trama do episódio. É verdade que, ao contrário de Always Bet on Red, ela se integra de maneira eficiente à outra história, unicamente pelo fato de as duas estarem diretamente relacionadas como causa e consequência. Mesmo assim, o roteiro peca ao conferir fluidez à narrativa, que parece picotada ainda que exista um forte elo entre os dois arcos.

Mas o desfecho de My Bloody Valentine consegue atrair a atenção do espectador, principalmente por dar a Jane mais uma oportunidade de resolver casos utilizando técnicas obscuras de encenação. Aliás, é essa característica que faz do personagem uma figura interessante, por utilizar técnicas muitas vezes infantis para fazer criminosos se entregarem. É possível fazê-lo sem que a solução ocorra de maneira óbvia, coisa que não acontece quando, por exemplo, Jane faz com que Janpen se denuncie ao insinuar a existência de algo em seu ombro. Aliás, quando provou-se que a prostituta era uma das responsáveis pela morte de Porchetto, essa situação torna-se ainda mais inverossímil, mostrando que o roteiro do episódio se preocupa muito pouco em manter a coerência.

Em um episódio em que são raras as ideias que funcionam, cabe ao relacionamento de Jane e Lisbon encabeçar a lista de situações que cumprem seu objetivo. Após os acontecimentos do final da terceira temporada, e dos esforços tomados pelo consultor para que a amiga não fosse demitida da CBI, cada vez mais vemos os dois se aproximarem de uma forma muito bem elaborada. Gradualmente, Lisbon parece perder o medo de confiar nas atitudes de Jane, desaprovando-as com frequência cada vez menor. Aqui, é curioso reparar como ela hesita muito pouco ao ter de mentir para os suspeitos para que o plano de Jane siga adiante. Em outros tempos, tal atitude seria impensável, já que ela, policial de formação, via uma grande falta de ética nesse tipo de comportamento. Hoje, embora ainda não se sinta confortável com isso, já acredita nos resultados e nas boas intenções de seu parceiro de equipe.

Assim, embora My Bloody Valentine mais erre que acerte, é louvável a atitude de Bruno Heller de ao menos tentar criar algo diferente, aproveitando seus coadjuvantes. É claro que isso poderia ocorrer de forma mais eficaz, mas ainda assim é interessante ver The Mentalist mudando ligeiramente seu comportamento, evitando estacionar em uma repetitiva sequência de episódios praticamente iguais.

@GabrielOliveira

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