Governos ditatoriais sempre prezam pela grandeza do conjunto, do todo. A figura do líder é assim a instância máxima do movimento e através dele que suas vontades são definidas e defendidas. Ir de encontro a esse pensamento é uma afronta não só ao bem-estar social, mas ao funcionamento pleno da sociedade em geral. A grande questão é quando o âmbito familiar se sobrepõe ao âmbito social. Todos somos egoístas quando assim é necessário. E é nessa constante disputa entre o macro e o micro que The Man in The High Castle prepara seu terreno.
A face bondosa da maldade
Nessa dupla de episódios o foco ficou bem definido em blocos narrativos fechados nos protagonistas, alguns com mais peso e evidência que outros, mas mesmo aqueles que não tiveram grande importância contribuíram para elucidar esse complicado panorama distópico em que a série apresenta. Joe vai a Berlin na esperança de conhecer o pai e também descarregar toda a raiva latente sobre a situação de vida decorrente do abandono. Como uma grande figura do governo nazista, Heusmann tem a capacidade de mudar as atrocidades de dentro da barriga da besta, construindo grandes projetos e salvando vidas, mas todo o entorno que permite tais ações é podre e maléfico. E essa dualidade é que incomoda Joe, que percebe (e foi vitima) de tais manipulações práticas. O problema é que mesmo com isso ele começa lentamente a se render perante as tentações da boa vida nos altos escalões, ou como deveríamos chamar, Nicole Becker. A loira vai insidiosamente aproximando as duas figuras contrárias e eu não duvido que ela seja uma enviada de Heusmann para manter o filho em terras teutônicas.
Mesmo regime, continente diferente. Juliana após se render na embaixada nazista em São Francisco é levada para Nova York aos cuidados de John Smith, que como sempre pensando dois passos à frente, pretende usá-la como uma isca afetiva para Joe ao mesmo tempo que tem uma pista direta para o paradeiro do Homem do Castelo Alto. De um lado acompanhamos a ponderada admiração dela com a bondade e caridade de algo que é pintado como o inferno na terra. Aqui entramos em uma característica esquiva. Sabemos que o governo nazista foi capaz de cometer atrocidades tamanhas e era de uma capacidade destrutiva sem igual. Mas para o cidadão médio, aquele inserido além das resoluções governamentais, a vida era muito boa obrigado. E essa representação idílica da realidade era justamente o que cegava o cidadão para as barbáries cometidas em nome do regime. Mas mesmo no “paraíso”, Juliana ainda encontra problemas com a Resistência e agora com a chegada de George Dixon, o inconstante, as coisas prometem ficar mais agitadas ainda.

Frank, por outro lado, vai se afundando ainda mais num jogo perigoso entre duas forças que tem a capacidade de destruir sua vida. Para salvar Ed ele entregou suas habilidades para a Yakuza, mas no âmbito pessoal ele se envolve cada vez mais com a Resistência. De certo modo é uma certeza escapista, um modo de fugir da covardia em que ele se colocou enquanto Juliana lutava na frente de batalha pelos filmes. O problema é que nessa dança a três alguém vai pisar no calo de alguém. E pelo que já vimos do filme, o destino de Frank é a morte seja para que lado dessa balança ele fugir.
Mas os grandes protagonistas até então são Tagomi e Smith. Smith é essa força que batalha contra si próprio para manter a família unida. A doença do filho é seu “calcanhar de Aquiles” e com as leis presentes contra as mazelas presentes na pureza da nação, o caminho correto seria se livrar do garoto o mais rápido possível, tornando aquilo como um exemplo. Mas nem o mais sádico consegue se virar contra os seus. Smith então vai numa disputa interna, ponderando qual alternativa é a melhor perante o amor paterno. A cara que Rufus Sewell faz no lago (e que foi escolhida como capa para esta review) consegue passar uma gama de emoções conflituosas que é um deleite interpretativo. No final das contas ele escolhe se livrar da ameaça contra sua família, eliminando o médico. Mas agora que sua mulher sabe do destino do filho, cada vez mais ele se encerra num jogo perigoso contra aquilo que ele jurou defender com a vida. No lado nipônico, Tagomi vai lentamente aprendendo a utilizar o seu “poder” de saltar entre as realidades e no processo vai nos deixando com ainda mais dúvidas. Ele pode interagir fisicamente com pessoas e objetos de outra realidade? Como funciona o mecanismo para pular entre essas realidades? Existem objetos que servem de gatilho entre esses saltos (como a foto da esposa)? Mas aquilo que me chamou mais a atenção foi a cena em que Kotomichi encontra a fotografia no chão é dá um sorriso. Cada vez mais penso que ele é um habitante de uma realidade alternativa dessas (no caso a do nosso mundo, em que o Japão perde a Guerra) e Tagomi também, já que ele observa as queimaduras no braço de seu secretário após observar a foto do bombardeio nazista em Washington. Até onde as realidades estão misturadas? É uma dúvida que ainda não temos resposta…

Sayonara 1: A série entrega seu contexto em pequenos momentos, como no exemplo das flores havaianas em que dizem que “era” um costume (ficando no ar a dúvida de até onde foi a dominação cultural do Japão nas ilhas) ou no mapa que enfeita a sala de Smith e mostra a divisão mundial entre as duas potências (com o Brasil sendo em grande parte dominado pelos nazistas). São coisas assim que enriquecem a experiência de acompanhar a série, dessas sugestões, do que não é mostrado efetivamente;
Sayonara 2: Os campos de prisioneiros japoneses realmente existiram durante a Guerra nos EUA. Milhares de japoneses e descendentes foram aprisionados após o ataque de Pearl Harbor e mantidos até quase o final do conflito.
Sayonara 3: As constantes baterias de exames em busca de indícios da pureza ariana era uma constante entre os nazistas e outras raças, como modo de comprovar a superioridade física deles, como podemos observar na cena de Juliana.















