Gelo nas veias, sangue nas mãos e dúvidas na cabeça. [Sem spoilers]

Uma das coisas que mudou na era digital é a nossa relação com as nossas opiniões e as alheias. Com Facebook e Twitter, Whatsapp e Instagram, todo mundo tem opinião, compartilha a opinião alheia, arruma um grupo que pensa igual. É um mundo em que todo mundo parece ter (e ter que ter) opinião sobre tudo, e não só isso como ter certeza absoluta das próprias opiniões e da estupidez/caretice/canalhice de quem pensa diference. Quando, há dois meses, o conflito entre israelenses e palestinos teve mais um de seus tristes violentos capítulos, lá estavam nossos feeds e timelines cheios de links e certezas. E eu me perguntava: sério que aquela tia do interior do Paraná vai sair por aí teorizando sobre a melhor resposta para o “terrorismo” e o “antissemitismo”? Sério mesmo que aquele primo no segundo ano da faculdade de história se sente confortável bradando a plenos pulmões “genocídio”?

The Honourable Woman, minissérie coproduzida pela BBC e pelo canal americano Sundance e exibida nos EUA entre agosto e setembro desse ano (quando aquela parte do mundo ardia mais que o normal) é tudo menos parte desse mundo. Ela é uma espécie de antítese dele. Centrada na questão israelense-palestina, a série já seria corajosa por isso; estreando quando estreou, ela queima com a temperatura de uma supernova.

Quando somos apresentados a ela, Nessa Stein, a mulher honrada do título, está para anunciar um negócio milionário com um palestino, Samir Meshal, na Cisjordânia. Nessa nos é introduzida como uma otimista, imóvel em sua confiança em estar certa, inabalada pelo caos que a segue, tentando encontrar o centro em uma disputa dominada pelos extremos – ou assim ela quer parecer ser, ou acreditar que é. E talvez um pouco de cada, e também nada disso, tudo ao mesmo tempo.

A minissérie segue a melhor tradição dos thrillers britânicos, como as excepcionais State of Play e The Shadow Line, esta última criada por Hugo Blick, que é criador/produtor/roteirista/diretor aqui: muito pouco é o que parece ser no começo, e incerteza e dubiedade não são só inevitáveis, mas também o cerne ao redor do que tudo mais gira. Ao fim dos oito episódios, é quase como se Blick estivesse te desafiando a ter ainda uma única certeza absoluta, um único julgamento moral satisfatório, um fiapo mínimo de confiança ao apontar quem é vítima e quem é algoz.

Nessa, interpretada por Maggie Gyllenhaal de maneira reveladora (ela nunca esteve melhor), é filha de um falecido empresário israelo-britânico do setor armamentista que viveu como um conservador feroz e morreu uma morte terrível. Seu irmão, Ephra (Andrew Buchan, ótimo), se afastou repentinamente do holofote anos antes do ponto em que a série começa, e claramente guarda esqueletos no armário. As atitudes de Nessa tornam velhos amigos da família e radicais de todos os lados contra ela. No momento em que Meshal, o parceiro de negócio dela, aparece morto (suicídio? assassinato? conspiração?), agências de espionagem, governos e interesses conflitantes começam a invadir a vida de Nessa, e no meio do tiroteio (metafórico, mas não totalmente), a coragem dela começa a parecer egolatria. Ao fim do primeiro episódio, fica a sensação de que ela não estava sendo nobre (ou honrável), mas ingênua; ela não estava dando exemplo, mas criando inimigos.

The Honourable Woman vai seguir Nessa e sua história, primeiro lentamente, e a partir de um certo ponto de forma febril. Eu não quero dar spoilers (fuja deles; o que não se sabe, mas se intui ou pressente, é o que faz a alma do roteiro), mas o quarto episódio, quando a série toma um atalho para o passado de Nessa e sua relação próxima com a babá dos filhos do irmão, Atika (Lubna Azabal, protagonista do maravilhoso Incêndios e excelente aqui), é uma obra-prima. E a partir dele a segunda metade da minissérie só melhora.

Não me entenda mal, não há nada de didático ou pedante ou monótono em The Honourable Woman, pelo contrário: há muita ação, com ameaças e sequestros e uma tensão crescente; ela lembra muito em tom e tradicionalismo – uma porrada de coisa acontece em encontros furtivos em parques – o mais clássico (e melhor) dos autores de thrillers de espionagem, John le Carré. Ao mesmo tempo, tanto o terror como a espionagem são hoje digitais, e Blick é um autor esperto o suficiente para usar isso a seu favor. E, como uma boa série britânica, essa tem gente como Stephen Rea, interpretando um espião chamado Sir Hugh Hayden-Hoyle (sério, que nome incrível), e Janet McTeer, como a chefe do MI-6, ambos fazendo a festa e fazendo miséria.

O que é há de digno de honrarias em The Honourable Woman é seu comprometimento intransigente com a visão de mundo de Blick. Trata-se de uma série que arrasta seus personagens pela lama e arrebenta com as ilusões deles e do público sem piedade, sem tergiversar, sem nenhuma piscadela. É uma visão cínica, provocativa, incômoda, com os pés fincados firmemente no chão e que rende ótimo entretenimento – é ficção, e é televisão, não custa lembrar. É, também, uma visão mais sagaz e cheia de nuances do que qualquer coisa que eu tenha lido sobre o tema nos últimos meses.

Não existe previsão de a minissérie estrear no Brasil, mas desonroso mesmo é não assistir a ela.

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