Todo mundo quer uma fatia.

Alcançar grandes objetivos é maravilhoso, todo mundo sabe. Para fazer grandes escaladas, ter quem ajude nos degraus é o ideal. A jornada é mais rápida, mais segura e divertida. Subir sozinho, entretanto, não é impossível e quase sempre significa que você não quer dividir os louros da vitória. Complicado mesmo é quando os dois impulsos se fundem… Não dá pra querer chegar no topo com a ajuda de todo mundo e depois brilhar sozinho.

Alicia vendeu a alma ao capeta pra ganhar essa eleição, todo mundo sabe. Aliás, uma das coisas mais bacanas desse processo todo foi ver como ela teve que distender a própria moral para alcançar seu objetivo. A base dessa flexibilidade era o bem a longo prazo, sem que tivesse havido uma consideração específica a respeito da capacidade de driblar tantos favores para tornar esse bem executável.

Esse episódio, como sempre, foi um deleite. A capacidade de escrever bem desses roteiristas me assusta. Com dois plots paralelos muito interessantes, The Good Wife já estabeleceu tão bem o seu universo, que a gente só se diverte vendo os personagens e as situações se desenvolvendo com total segurança e fluidez. Tudo se encaixa, tudo combina, tudo se completa. E é um festival de bons diálogos, referências divertidas e humor involuntário.

O vazamento dos e-mails da firma pra mim já está na lista de trechos antológicos da série. De novo, o roteiro vai buscar na realidade uma inspiração e todo mundo deve se lembrar do caso do vazamento ocorrido na Sony Pictures, quando executivos trocaram comentários nada elogiosos sobre seus contratados e isso chegou ao mundo como uma cacetada. Tem uma ou outra pessoa que se preserva de fazer comentários maldosos sobre os outros, mas a maioria gosta mesmo é de soltar um veneno eventual, desde que se tenha certeza de que isso chegará aos ouvidos de ninguém.

Foi maravilhoso saber o que todo mundo pensava uns dos outros. As ofensas eram deliciosas e cheguei a torcer pros e-mails anteriores vazarem, justamente porque Alicia devia ter coisas bastante eloquentes pra dizer de todo mundo. Ela e Marissa são um casamento estranho e perfeito. Assim como seria estranho e perfeito se as mentiras de Howard  fossem todas verdadeiras.

Já no lado político do episódio, Alicia teve todos os seus contratos com o capiroto cobrados. Primeiro foi o velho escroto homofóbico, que nem em mil anos vou entender como ela foi capaz de aceitar como seu patrocinador. Depois veio Lemond e para todos os dois ela tentou dar uma de “ninguém manda em mim”. Seria ótimo se fosse justo, mas, em termos diplomáticos, não é. Por uma questão conceitual, a política é sim um jogo de alianças e ceder faz parte da prática da recompensa. Eli deu a lição do dia e recebeu ele mesmo, um retorno de sua cartilha.

Havia um pequeno detalhe acerca da saída de Alicia da firma e do quanto ela ganharia com isso. Esse é um momento crucial dentro da dramaturgia de The Good Wife, porque a vitória da advogada sugere uma retirada do ambiente onde estamos acostumados a vê-la inserida. Além disso, os termos dessa saída interferem sim no julgamento de Alicia quando os casos começarem a chegar em seu escritório. Sem dúvida, os Kings aproveitarão o histórico de rancores para seguirem com as tensões daqui por diante. The Good Wife, desde a temporada passada, tem feito aquilo que toda série que se preza precisa fazer: assumir riscos, deixar zonas de conforto e explorar novas possibilidades. É possível fazê-lo com competência e sem perder o universo que já foi estabelecido.

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