“Que tiro foi esse?”
Após os acontecimentos da primeira parte de Islands, era esperado que diversos conflitos acontecessem e possivelmente algumas resoluções não fossem as desejadas, entretanto a sequência de bombas jogadas nesse episódio trouxeram uma carga emocional para o episódio que eu não estava esperando. Quase que uma Shonda Rimes, David Shore decidiu pisar nos corações dos telespectadores essa semana e mostrou que não é apenas usando Shaun que a série é capaz de nos emocionar.
Decidindo mudar de cidade, ter sua vida própria e seguir Lea, Dr. Murphy surpreendeu não só os personagens como a mim, afinal, após sua fuga no último episódio, acreditei que Shaun não abriria seu coração para outra pessoa, correndo o risco de ser quebrado novamente. Entretanto, ficou claro essa semana que muito mais do que o seu afeto pela vizinha, o personagem sonha em ter sua independência e quer provar a todos que é capaz de viver sozinho, sem ajuda. Como boa conselheira que Claire já demonstrou ser, foi interessante ver que Shaun no fundo só queria um voto de confiança e que Dr. Glassman acreditasse na sua capacidade, estabelecendo mais uma vez a relação pai-filho que ambos tentam fingir que não tem, mas fica cada vez mais clara.
Passado esse momento bonito do episódio, o restante da trama veio como uma rasteira e derrubou com certeza muitos telespectadores. Numa sequência de problemas e cirurgias difíceis para tentar salvar as gêmeas, ao longo da segunda parte de Islands, o quadro mudava constantemente e era difícil até mesmo tentar adivinhar qual seria o futuro. Katie vai morrer, não, Jenny vai morrer, não, as duas vão morrer, não, as duas vão sobreviver, não, Katie, Jenny, Katie, Jenny…
The Good Doctor até o momento havia apresentado casos interessantes, porém toda a complexidade da cirurgia de gêmeas siamesas e suas complicações após a separação deram um gás nos episódios e conseguiram roubar a atenção de outras tramas pessoais dos personagens, o que não costuma ser fácil de acontecer. Extremamente tocante a dor da mãe e o amor de Katie, quase incapaz de permitir que ela se separasse da irmã, o final do caso deixou aquela dor no canto do coração capaz de fazer muitas pessoas terem vontade de abraçar seus irmãos e esquecer qualquer pequeno problema.
Seguindo a sequência de tiros, o término de Jessica e Melendez chegou de supetão, porém não foi uma resolução totalmente inesperada considerando a situação em que o casal se encontra. Embora Neil tenha cedido o seu sonho e procurado alternativas a fim de não perder a única coisa boa no seu dia a dia, essa escolha em não ter filhos nunca deixaria de ser o elefante na sala e caso o casal por algum motivo se separasse no futuro, a cessão do sonho seria em vão e impossível de voltar atrás. O discurso de Jessica por mais que pareça sem sentido a princípio, possui uma lógica perfeita, pois é por ela amar tanto Melendez que ela está terminando com ele, é por ela ter certeza de que ele seria um ótimo pai e sua maior felicidade estaria em seus filhos que ela está terminando com ele, é por ela não conseguir aceitar ser o motivo de impedir o amor da sua vida a realizar o seu sonho que ela está terminando com ele.
Com certeza esse término ainda trará muitas consequências e acredito que recaídas ocorrerão, entretanto, com o desenvolvimento da relação e amizade de Melendez com Claire, talvez essa seja a oportunidade que o roteiro precisava para juntar os dois personagens e mostrar que os flertes percebidos por Shaun não eram mentira. Não obstante, sendo ele chefe dela, estando os dois constantemente juntos devido o trabalho e sob a presença de ambos os ex, caso essa relação se torne algo mais do que uma amizade, cabeças com certeza rolarão pelo corredor do hospital.

Por fim, após o cliffhanger deixado no hiato da série, finalmente tivemos um fim no plot do Claire e do Coyle, e a decepção com a resolução da trama não podia ser maior. Enrolando por vários episódios e quase não dando air-time para o Kalu nos últimos episódios, a empatia que podíamos ter por ele no momento da agressão foi passando a cada minuto e a preocupação sobre o que aconteceria com ele foi diminuindo gradativamente. Ainda nesse sentido, considerando a conjuntura e os movimentos criados recentemente, a espera pela luta de Claire e a queda de Coyle criava uma ansiedade pelo próximo episódio e pelo que viria a ocorrer, entretanto, o que tivemos foi uma forma ridícula de encerrar um plot e mudar totalmente o seu objetivo.
O assédio sofrido por Claire diz respeito a sua pessoa, ao constrangimento que passou e a toda descredibilidade imputada a ela até mesmo pelo seu ex-namorado, entretanto The Good Doctor conseguiu em 3 episódios mudar o foco da trama, sair da discussão sobre o assédio e colocar Kalu se aproveitando dos problemas reais e preocupantes de uma minoria apenas para conseguir seu trabalho de volta. Todo o contorno feito pelo roteiro surpreendeu negativamente e conseguiu fazer com sua personagem exatamente o que a sociedade vem fazendo a anos, calar a vítima. Coyle continua trabalhando, o sofrimento de Claire foi totalmente ignorado e Kalu ainda se transformou em um embuste que tira proveito de um movimento sério, se tornando não sei por qual motivo o centro da trama que não dizia em nenhum momento a respeito dele. O desserviço dessa trama foi tão grande que teria sido melhor se não tivessem nem ao menos começado o plot do assédio. Dessa forma, fica o desapontamento e a pequena esperança de que a série arrume essa resolução sofrível.
The Good Doctor continua mostrando seu potencial e demonstra uma maior habilidade para criar uma conexão telespectador-personagem, entretanto a série precisa tomar mais cuidado com as tramas delicadas, tratando-as com o devido respeito e importância que merecem. Com exceção do plot sobre o assédio, David Shore apresentou mais um bom episódio, o que me leva a ter a crença de que erros absurdos como esse não ocorrerão novamente e não atrapalharão a série.















