Brilho eterno de uma mente que lembra. Muito.
Quando o criminoso mais procurado do mundo se oferece para contar uma história, a gente senta e escuta. Tem sido assim a cada “isso me lembra de uma vez…”. As memórias de Reddington são um reiterado convite ao espectador para seguir acompanhando o presente, seja porque dão enfoque ao tempo em que Red estava acompanhado de figuras mais interessantes, seja porque dão espaço para um monólogo de James Spader.
Sempre me perco, divagando. E se fizessem um spin off do passado do Red, será que conseguiriam manter esse nível que alcançam nas memórias? E se, nessas histórias, estiverem pistas de algo que ninguém pegou? Quantos anos ele tem, quatro mil, seiscentos e doze? Ele está contando algo que aconteceu, assim, de verdade? Por que ele largou essa vida tão incrível e foi brincar de lista negra? Esses lugares existem? Sobre o que era mesmo esse episódio?
Um mestre troll, como se pode ver. Daí porque o troll farmer, o garoto que entrou para a lista negra quase por acaso, não vai merecer lá muita atenção. Na verdade, apenas o suficiente para mencionar que o título é mais adequado ao próprio protagonista, nosso fugitivo preferido, que, ora, vejam, está realmente fugindo, e não se entregando. Alguém tinha dúvida que ele sairia da cidade? Se eu fosse da polícia, apenas teria sentado e esperado. Nem faz sentido ter outra expectativa.
Eu imaginava, na verdade, que a nova temporada fosse ter início numa praia. Como não, carente de paisagens exóticas e tudo que viria junto, fico a divagar como Red descreveria um dos momentos retratados nesse episódio. Algo como… Isso me lembra de uma vez, eu estava em Nova Iorque. Era um dia como outro qualquer, o FBI estava se envergonhando e tentando me pegar. De novo. Eu parei pra tomar um sorvete… Como se chamava aquele lugar? Tinha os melhores sorvetes da cidade, mas não tenho mais idade para lembrar todos esses detalhes e nomes. Enfim, eu pedi de pistache, e Liz, de chocolate. Aquele barulho dos carros da polícia, dos helicópteros, o agente Ressler, coitado, tentando manter a pose e fingir que poderia prosseguir com o espetáculo… e tudo que eu queria era tirar um cochilo, ler as edições antigas da Bass Master e beber alguma coisa.
A fuga de Red era previsível, assim como a não fuga de Elizabeth Keen, o que se podia supor antes mesmo de os dois serem colocados em carros diferentes, quando tantas vezes se insistiu na possibilidade de Liz ficar no extremo oposto dos seus antigos colegas, não à distância, mas bem ao alcance deles. Ela era sua parceira? Ela era uma de nós. Eu acredito nela, e você? E se você pegá-la? etc.
Essa previsibilidade, entretanto, em vez de diminuir o episódio, gerou o curioso efeito de conceder algum destaque a outras personagens e outras histórias, algo tão raro na série. Claro, me refiro ao sequestro da neta de Dembe, esse, sim, causou ansiedade e perplexidade. A descoberta de que ele tinha uma filha E uma neta, ou seja, uma vida sua, à parte do universo de Red, em verdade, engrandeceu esse episódio. Quem não perdeu o fôlego com aquela voz na babá eletrônica não tem coração nem filho nem mãe nem nunca cuidou da criança de ninguém, nem mesmo por cinco minutos.
Para além dos aplausos merecidos pelas cenas de Isabella, Dembe e do mais novo gênio do mal (aliás, FINALMENTE, alguém dessa organização para ser levado a sério, viu), temos a curta, mas belíssima participação de Martha, a gentil senhora que levou pra casa um elogio tão carinhoso do muso Reddington. Por que não mais disso, produção? Quero mais flertes e provas de que Red é, de fato, um criminoso para amar.
E, para não dizerem que não falei, até que a Megan Boone tem melhorado um bocado, viu. Arrepiei no “my name is Masha Rostova”. É um nome bonito, favor fazer bom uso dele.
3×02: Marvin Gerard
Bon appétit!
Era uma vez um menino, que foi colocado à frente de uma orquestra de um maestro só. Ele, então, acreditou que poderia compor uma sinfonia e ser a estrela do show. O menino estava enganado, e fim da história.
O pobre agente Ressler foi colocado numa posição ingrata, assim como Diego Klattenhoff, seu intérprete. Embora não seja o mais experiente dos atores, nem essa a mais especializada das críticas, Diego não está ruim e cai bem no papel de agente do FBI. Cumpre o estereótipo, preenche a cota de boniteza do episódio e até nos convence de que é capaz de tocar alguma música, mas não passa disso.
E a culpa maior é do roteiro, que jamais poderia pedir que um de nós, mais que o soldado lá, da porta da embaixada russa, sequer piscasse diante do agente. (Talvez essa até seja a intenção, mas custava deixar que alguém desse FBI causasse alguma comoção, ao menos por cinco minutos?).
Esse episódio, nesse ponto, apenas reforça o anterior: Ressler não está no comando. O agente recebe ordens daqueles a quem deveria liderar, não inspira completas obediência e dedicação em sua equipe, não consegue se manter convicto de suas decisões, dança qualquer jogo que Red lhe proponha e antes dançaria a Macarena, mas não representaria nenhum perigo, de fato, para Elizabeth, ao contrário.
Masha Rostova, por sua vez, ainda não se desligou da Elizabeth Keen que a habita. Em vez de tomar as rédeas de sua própria fuga, como foi sugerido que aconteceria no final do episódio passado, se encontrou mais uma vez incapaz de dar qualquer passo sem Reddington, o santo protetor de moças indefesas, e deu espaço para mais das maravilhosas cenas de Red atirando loucamente, feito o dono do pedaço que é.
A propósito, que luxo poder dizer “uma vez fui refém de Raymond Reddington”. A pessoa vai só comer alguma coisa num dia qualquer e ganha uma história pra vida toda. Precisava nem se desculpar, mas o muso tem classe. A propósito número dois, luxo maior é ser servido pelo fugitivo mais procurado do mundo. Invejei.
Marvin Gerard, o episódio, teve a função não de meramente introduzir o advogado de Red, mas de dar um início mais estiloso a essa nova temporada, propiciando as cenas que amamos do protagonista. Teve tiro, porrada e bomba, tudo ofuscado pelo monstruoso transatlântico do final. Teve a reiteração de que Red conhece detalhadamente todos de quem se rodeia, ainda que ninguém, de fato, o conheça. E ainda que, curiosamente, ele ainda não tenha percebido onde Dembe não está: ao seu lado. Ao menos um “não consigo encontrar Dembe” ajudaria.
Por último, ficamos com a declaração de amor ao final. Não o amor romântico que, às vezes, eu queria entre Red e Liz, só pra não cair nessa obviedade não declarada de serem eles pai e filha. As contínuas expressões desse amor paternal, dessa proteção e desse olhar amoroso que ele tem por ela, nada disso me convence nem me alegra. Quero outra explicação. Uma que não pensei nem quero pensar.
Obs. 1. Acompanho o Série Maníacos há algum tempo, e esse negócio de “P.S.” me agrada. Para não ser uma imitação direta, farei “Obs.”. É homenagem.
Obs. 2. Eu ouvi plantação de bananas?
Obs. 3. Tom Keen, da última vez que te vi, estava tocando Rocket man e … nada. Estou preferindo esquecer que você ficou chato. Se quiser umas dicas de vida, contudo, trate de encontrar algo pra fazer, além de perseguir a ex.
Obs. 4. Não gostei de maldade com o Dembe. Não gostei mesmo, mas, repito, finalmente essa organização está para ser levada a sério.
Obs. 5. Estou no SM, Brasil.















