Somewhere Between Heaven and Hell foi um episódio aprofundador sobre os Cães do Inferno: Será mesmo que precisava?
Os Cães do Inferno, por algum tempo, foram umas das criaturas mais difíceis de se lidar em Supernatural. Eu diria que ainda são, dadas as circunstâncias complicadas para matá-los. Com aparições bem espaçadas entre si, sempre carregadas de violência e brutalidade, os Cães do Inferno sempre deram trabalho para os Winchesters. Porém, era mesmo necessário criar uma “hierarquia” de Cães do Inferno? Qual a utilidade disso para a série, tanto historicamente quanto visando o futuro da trama?
Nos moldes clássicos de casos semanais, somos apresentados ao “Monstro da Semana” e às vítimas da vez. A breve conversa inicial dos jovens, apesar de bem genérica, rasa e clichê, nos aguça a curiosidade de quem havia feito o pacto demoníaco, pelo menos. Fora isso, não há nenhum trabalho excepcional e nem nada muito carismático por parte da moça sobrevivente, Gwen, após a abertura do episódio. No fim do mesmo, ela se lamenta e sofre por não ter terminado com o rapaz antes do incidente, tentando criar alguma empatia com os espectadores, mas ao passo que o episódio já se encontrava, era impossível criar ainda alguma relação com essa personagem.
Em relação à recente parceria entre Sam e os Homens das Letras Britânicos, o episódio focou um pouco nas discordâncias entre os irmãos e nas diferenças entre como eles agem. Sam não gostou do jeito despreocupado de Dean se sentando sujo de sangue e tripas na mesa, enquanto o mesmo reforçou o que foi dito no episódio anterior, de que ele era uma pessoa mais de ação, por exemplo. Outra situação que ilustrou bem a impaciência do caçula Winchester para com seu irmão foi quando Dean o orientou excessivamente a cuidar de Baby. Fazia parte do alívio cômico da cena, mas também soou como uma diferenciação entre os irmãos. De qualquer forma, quando Sam revela a Dean seu segredo no fim do episódio, não há dramalhão. Dean aceita tudo numa boa e, apesar de achar que essa revelação foi um pouco repentina, evitamos passar por novas brigas entre os irmãos e que ninguém aguenta mais.
O que não funcionou em Somewhere Between Heaven and Hell?
A constante expansão da mitologia de Supernatural é um dos pontos mais altos da série. Apesar de algumas ideias bem ruins, algo totalmente natural em 12 anos de histórias contadas por artistas diferentes, de modo geral a série consegue entregar boas tramas, bons vilões, novos monstros e evoluções de conceitos já estabelecidos sem criar muitos furos de roteiro. Entretanto, fica difícil engolir essa história de “Primeiro Cão do Inferno”. É muito aleatório, cafona e repetitivo. Ramsey, sendo um animal dito incontrolável, não foi abatida por alguém do inferno antes por qual motivo? Qual a vantagem de se manter um animal tão poderoso preso, ou seja, inútil? Por outro lado, contrariando o que o texto da série nos empurrou goela abaixo, na hora da ação, tal animal se mostrou extremamente ineficaz. A cadela foi facilmente atingida por Gwen e fugiu. Ela não deixou rastros de sangue para ninguém seguir? Se ela estava prestes a atacar a moça, de certo ela atingiu o animal na cabeça, pescoço ou alguma parte frontal, criando algum ferimento mais crítico. Ao adentrar na casa de Gwen, Ramsey não fez barulhos com as patas, não rosnou e inexplicavelmente hesitou em atacá-la, justamente para Dean chegar e convenientemente atacá-la. Houve uma tremenda descaracterização dos Cães do Inferno, sempre criaturas brutais, ferozes e mortais. Dada à facilidade com que Sam matou Ramsey, creio que se houvesse um Cão do Inferno comum, haveria muito mais credibilidade na história contada.

Sam matando novamente um Cão do Inferno: Aqui tem coragem.
É muito difícil falar sobre Castiel. Todos sabemos que o personagem enfraqueceu muito nas últimas temporadas, sendo inclusive deixado de lado na temporada anterior para não desgastá-lo mais ainda. Entretanto, Cass tem agido estranho desde alguns episódios atrás. Em meu entendimento, os roteiristas tem criado um Castiel cheio de remorso e culpa por ter deixado Lúcifer sair da jaula e, posteriormente, ter gerado um filho, além de ter sido enfeitiçado por Rowena e causado alguns estragos, lá na transição entre a 10ª e 11ª temporadas. Porém, tudo tem sido feito de um modo superficial. As tramas secundárias de Supernatural tem caído no colo de Cass faz um tempinho já, mas elas não são aprofundadas como deveriam. É preciso muita força de vontade pra conectar todos esses pontos e enxergar os conflitos internos do personagem. Ele querer ser aceito novamente no Céu é plausível, mas isso não havia sido mencionado nenhuma vez nessa temporada. O único destaque fica para o humor em suas cenas no início do episódio, com a clássica identificação invertida e o codinome “Solange”. Além disso, o gerente da lanchonete também trouxe alguns alívios cômicos bem vindos, apesar de forçados demais algumas vezes.
O que funcionou parcialmente em Somewhere Between Heaven and Hell?
A participação de Crowley foi bastante aleatória nesse episódio também. Lúcifer está em uma sala trancada com uma chave simples? Sem proteções mágicas nem nada do tipo? Um “demônio batedor de carteira” conseguiu a chave com aquela facilidade toda? Antes da revelação final de que o receptáculo de Lúcifer era sua própria prisão, algo que considerei bem bolado, eu estava crente que Crowley daria adeus à Supernatural. Não duvido que a intenção do episódio era mesmo nos fazer sentir isso, dadas as proporções em que o Rei do Inferno foi inserido na trama, os diálogos envolvendo sua relação com Dean e as faíscas trocadas entre ele e Lúcifer. Após a 8ª temporada, Crowley nunca mais foi um vilão de novo. Se por um lado isso é bom, pois assim a série conseguiu o manter por todo esse tempo (e ele é um excelente personagem), por outro lado isso é ruim, pois ele foi desgastado e aparentemente não agrega mais nada para a série. Lúcifer vai conseguir se libertar de alguma maneira e Crowley vai morrer, seja pelas suas mãos ou pelas de seu filho. Anotem aí.
Em um episódio bastante irregular, bagunçado principalmente entre os conceitos que o envolvem, Somewhere Between Heaven and Hell não agradou e soou pretensioso e apressado. A mitologia dos Cães do Inferno foi levemente expandida, apesar de totalmente dispensável; Dean agora está ciente do envolvimento de Sam com os Homens das Letras Britânicos e também participará das missões dadas por eles, mesmo contrariado; Castiel foi buscar ajuda no Céu com a promessa de ser aceito novamente por lá, apesar dessa vontade não ter sido bem retratada antes; e Crowley mostrou soberania ao escravizar Lúcifer e sair por cima. Nessa situação toda ficamos nós, fãs de Supernatural, entre o Céu e o Inferno, exatamente como o episódio é nomeado.
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Curiosidades de Somewhere Between Heaven and Hell:
– Dean faz uma referência à The Walking Dead no começo do episódio ao mencionar que seu pai (Jeffrey Dean Morgan, mesmo intérprete de Negan em TWD) gostava daquele bastão de baseball enrolado com arame farpado. Para aqueles que não estão familiarizados com a série referenciada, Lucille, a inconfundível arma do vilão de TWD, possui exatamente as mesmas características. Vale lembrar que ambos os atores já trocaram brincadeiras no Twitter sobre isso há algum tempo atrás.

– O apelido de Mick Davies (quase escrevi “o nick de Mick”) no celular de Sam era Frodo, sendo uma referência aos personagens de Senhor dos Anéis, em que Frodo tinha uma missão (destruir o anel) e Sam o ajudava durante todo o percurso. Aqui, em Supernatural, o “Frodo” da vez também tem uma missão (acabar com os monstros dos EUA e recrutar caçadores) e as repassa para aquele que o está ajudando e o deu um voto de confiança, Sam. Não é a mesma relação entre os personagens das duas obras, mas é parecida.
– Os codinomes Agentes Baker e Clapton, utilizados por Sam e Dean, são uma referência a Ginger Baker e Eric Clapton, ex-integrantes da banda Cream.














