Supergirl investe pesado na sua mensagem em Fallout.

Continuando o trabalho executado em American Alien, o segundo episódio da quarta temporada de Supergirl voltou a lidar com assuntos relacionados a imigrantes e discurso de ódio, mostrando que definitivamente esta será a temporada das mensagens fortes. Muito mais do que explorar as ramificações do preconceito e seus perigos, a série também se aproximou do clima mais descompromissado do seu ano de estreia, na época da CBS, com Kara agindo como repórter em uma sequência cheia de personalidade na LCorp.

Aparentemente a série realmente voltou a considerar a CatCo como um local existente e não apenas um espaço que, ocasionalmente, a Kara aparecia para trocar duas linhas de diálogo com o James, ou a Lena. Este movimento, por si só, já engrandece bastante a produção. Temos na CW, atualmente, 4 séries de super-heróis e uma de Lendas, cada uma com sua personalidade própria, mas três com incríveis similaridades – até pelo menos a temporada passada. Supergirl, Flash e Arrow eram as produções que mais se assemelhavam em dinâmica, quantidade de personagens de suporte e a maneira que lidavam com sua trama – com algumas pequenas diferenças no plot central. O foco, majoritariamente, sempre esteve na vida como herói fantasiado, com raros lampejos do aspecto pessoal.

Supergirl, por ter em Kara Danvers uma mulher que precisa balancear sua vida como repórter e super-heroína, em uma série que ainda lida com a identidade secreta de sua protagonista, figurou como a mais diferente dentro deste trio base do Arrowverse. Bom, isso até metade da segunda temporada. Desde então o time criativo de Supergirl tentou reproduzir a mesma fórmula usada com Oliver Queen e Barry Allen. Existe muito do heroísmo uniformizado e quase nada da vida privada. Logo, ter Kara em uma sequência inteira em que ela não pode colocar o uniforme, foi especial.

Estes pequenos detalhes de interação entre a Kara e a Lena, que vão além dos minutos finais do episódio, com todo mundo reunido para dividir uma refeição, são extremamente necessários para compreender esses personagens como pessoas. Agents of S.H.I.E.L.D. que é uma série que amo, peca neste quesito desde sua segunda temporada. Quase não temos a vida privada dos agentes. Dividida em dois arcos, às vezes até três por temporada, a série dificilmente encontra tempo para que seus personagens descansem, conversem e passem por experiências humanas, mesmo que através de um viés caótico e fantástico. Supergirl mantém em seu cerne este diferencial e deveria abusar dele cada vez mais. Felizmente Fallout fez exatamente isso.

O ataque da Mercy Graves a LCorp foi uma das coisas mais divertidas que a série já construiu, desde sei lá quando. Foi uma ótima oportunidade de ver a Melissa Benoist se divertindo um pouco, e nos divertindo bastante no processo, além de dividir bem a imagem da Kara como protetora de National City e de uma mulher com vida paralela. Supergirl é o que ela faz, Kara Danvers é quem ela é – lembra quando a produção tentava nos vender essa imagem? Parece que eles se lembraram. E está fazendo um bem danado para o ritmo desta recém iniciada temporada.

Claro que o episódio não sobreviveu apenas de batidas divertidas com Kara se desdobrando para manter sua identidade secreta (será?) da Lena. O fluxo da narrativa apresentada em American Alien continuou com muita força. Com Otis Graves preso e sua irmã ainda trabalhando na agenda do já apresentado Agente da Liberdade, a série conseguiu desenvolver melhor o conceito por trás do grupo de ódio que está crescendo na cidade, agora já fora da deep web e posicionado abertamente, um ato que dá muito medo.

O primeiro desdobramento do plano de Mercy já apareceu com Brainy, quando a vilã conseguiu brevemente desligar o indutor de imagem dos primeiros usuários da tecnologia desenvolvida pela Lena Luthor. A ação de expor os alienígenas é, sempre, o primeiro movimento de grupos que carregam no ódio sua motivação. Existem muitos imigrantes que carregam em seu rosto traços de fácil identificação de sua origem, e mesmo assim isso não representa que eles, de fato, sejam imigrantes ilegais, mas a lógica do medo impõe que sim. Já todos os outros, que conseguem “se passar” por locais (um tema que foi abordado em One Day at a Time, que eu fortemente recomendo para todo mundo), despertam nestes mesmos grupos um desejo muito forte de identificação. Nos Estados Unidos é bem comum ouvir a frase “me mostre sua certidão de nascimento” – inclusive o atual presidente, Donald Trump, solicitou que Obama encaminhasse a dele, enquanto Barack ainda estava na presidência. Imagina um trabalhador comum?

Nia e Brainy serviram para oferecer dois discursos bem poderosos. Nia, interpretada por Nicole Maines, uma atriz transexual, usou sua história não apenas para defender um alienígena, parte de um grupo hostilizado como o dela, mas também para convencer James de que bancar o “insentão neutro” não ajuda realmente ninguém. Em tempos sombrios é necessário mostrar seu posicionamento, porque não se posicionar já apresenta um partido tomado. Se você não faz nada, você também não ajuda e a omissão beneficia apenas o opressor. E o ponto de vista da personagem é abraçado pelo editor do CatCo, que está bem melhor neste papel do que já esteve como fotógrafo par amoroso ou como Guardião.

“As pessoas temem o que elas não conhecem, mas Massimo me conhecia.”

Brainy, por outro lado, sofreu um tipo de preconceito que ele não conhecia e que desafiou a própria lógica, barco que o personagem maneja muito bem. O medo, que em sua base vem daquilo que o ser humano não conhece, não pode ser a justificativa deste ódio enraizado que as pessoas estão adotando como mantra atualmente. O diferente sempre desperta certo receio, afinal somos criaturas de rotina, mas a reação é bem mais expressiva quando decidimos analisar o comportamento de quem perpetua o ódio. Seu diálogo com Alex foi um soco no rosto, especialmente porque este é um momento que não apenas os Estados Unidos estão vivendo, mas o Brasil e várias partes do mundo, com cada vez mais força (infelizmente). Europeus que se esqueceram de sua história de imigração durante a segunda guerra, fecham suas fronteiras para imigrantes de zonas de confronto. Norte Americanos que no passado receberam de presente uma Estátua da Liberdade, optam pelo cerceamento da base em que seu país foi construído. Brasileiros que sofreram durante a ditadura militar, hoje clamam por uma intervenção. As contradições estão cada vez mais presentes. Por isso a mensagem precisa ser bem exposta e de fácil digestão.

Supergirl não está se envergonhando nesta temporada e a cada episódio ela demonstra mais o seu posicionamento. Felizmente este movimento só está enriquecendo a temporada. Com J’onn distante do DEO, a dinâmica da série também melhorou consideravelmente. Não estamos mais presos em dois cenários e com duas histórias, apenas. Com o Marciano investigando o mesmo vilão que futuramente Supergirl irá enfrentar, a série conseguiu dividir sua trama e entregar para cada um dos seus personagens algo diferente para fazer, mas ao mesmo tempo complementar. Estou muito feliz pelas decisões tomadas pelo time criativo de Supergirl neste quarto ano, e mais ainda por não ter, até agora, vislumbrado nenhum parceiro romântico para a protagonista.

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Easter eggs e outras informações

– Mercy Graves foi uma espécie de irmã mais velha para a Lena e eu estou bem ansioso para o segundo confronto entre as duas.

– Lena também está mexendo com a armadura criada pelo Lex e que sua mãe usou no episódio ‘Foor Good’, na terceira temporada. Será que Lena ficará responsável por criar um traje especial para a Supergirl, como vimos no trailer da temporada?

– Não é possível que a Lena não saiba que a Kara é a Supergirl e eu acredito que ela se fez de boba apenas para perturbar a amiga. Ao mesmo tempo, ela e a Supergirl não estão nos melhores termos, porém a fala a respeito do sistema de segurança não pode ser algo tão isolado assim.

– Todo mundo precisa de uma Alex na vida.

REVISÃO GERAL
Nota:
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