Supergirl prepara o terreno para sua segunda temporada.
Como série, Supergirl sempre esteve no limiar do quase bom e do mediano, felizmente tudo mudou. Por uma temporada inteira acompanhamos os altos e baixos de uma produção procurando sua identidade. Lá no ano de estreia foram necessários dez episódios para que ela finalmente decidisse o que seria. Algumas coisas mudaram, o discurso feminista deixou de ser “jogado” no telespectador e passou a ser incorporado na trajetória de empoderamento de Kara como profissional e como super-heroína, e hoje, em uma nova casa, a série da última filha de Krypton já pode se considerar confortável em seu próprio uniforme. Através de seu segundo episódio Supergirl se despediu de alguns personagens e embarcou de vez no admirável mundo novo da CW.
The Last Children of Krypton é uma brilhante conclusão para The Adventures Of Supergirl, fechando algumas pontas e deixando várias outras abertas para o decorrer da temporada. O principal aqui é perceber como a série está disposta a lidar com as mudanças impostas pela transição de emissora e também de país. Infelizmente uma delas é à saída de Cat Grant do elenco regular, fruto da mudança das gravações da série de Los Angeles para Vancouver, no Canadá. E já com saudades.
Ninguém jamais conseguirá, de fato, substituir Cat Grant, ou Calista Flockhart, porém a adição de Snapper Carr, interpretado por Ian Gomez, representará uma grande mudança de ares, incluindo para a própria personalidade da Kara. O momento em que Kara e Snapper discutem foi simplesmente adorável. Dentro de todas as características positivas da série a atuação de Benoist é simplesmente a com mais peso e relevância. Vê-la tentando encontrar uma resposta para o novo chefe foi um misto de fofo e estranho ao mesmo tempo, algo maravilhoso de acompanhar. Melhor ainda é a nova empreitada da série ao transformá-la em uma repórter. Vou confessar que quando anunciado o novo emprego da protagonista eu não me fiquei muito feliz. Todo o primeiro ano da série foi centralizado em fazer com que Kara se afastasse da imagem de Clark Kent e Superman. A nova proposta se aproxima e muito da já explorada pelo ‘último filho homem de krypto’, mas apesar de não ter aceitado inicialmente a ideia, hoje já a compro com facilidade.
Após um episódio centralizado em demonstrar ao público as influências da nova casa, a CW, The Last Children of Krypton é basicamente uma introdução aos temas que serão desenvolvidos no segundo ano da série. Com grande força o capítulo trabalhou Metallo, Cadmus e a revelação de uma nova vilã, interpretada por Brenda Strong. E apesar de um pouco corrido, tudo funcionou muito bem, incluindo as lutas e as parcerias entre Marciano e Superman, Supergirl e Alex. E mesmo com efeitos mais restritos, a série conseguiu novamente apresentar algo muito bem feito e honesto.

A presença do Superman na série nestes dois episódios serviu para mostrar que ambos os personagens são diferentes um do outro, apesar das similaridades. Diferente de Clark, Kara passa uma imagem muito mais humana e com imperfeições do que o “grande salvador”. Superman sempre teve uma representação muito forte de inalcançável, portador da verdade, justiça e o jeito americano. Este lado do personagem é responsável por parte da recusa em aceitar o Superman de Cavill nos cinemas, muito mais falho. Claro que o personagem criado por Snyder mantém várias outras falhas que também o distanciam do público, mas essa falta de um salvador caridoso e perfeito é a estigma que o estúdio está carregando desde Homem de Aço, em 2013. E o Superman da série mantém e muito os traços mais clássicos. Tyler conseguiu impor o mesmo tratamento que os fãs mais antigos das histórias em quadrinhos, filmes e animações já estavam acostumados. Com isso a diferença entre ele e a Supergirl também cresceu.
Diferenciar ambos os personagens foi exatamente o que o roteiro procurou fazer em dois episódios. Kara é muito mais cheia de falhas, bem mais humana e fácil de relacionar, muito mais interessante. Diferente do primo que foi criado no planeta Terra como um salvador, o detentor do poder absoluto, ela manteve a faceta de pessoa comum. O caminho de Kara ainda está se desdobrando e os próprios trejeitos de Benoist servem para separá-la do Superman de Hoechlin. Por isso o momento perfeito para a inclusão do Super foi aproveitado, logo no início do segundo ano da série e antes de qualquer tipo de imersão na trama central da temporada.
Também é essencial compreender que The Last Children of Krypton impõe uma dinâmica de confronto em cima da imagem perfeita que tanto Kara, quanto a grande maioria das pessoas, mantém a respeito do Superman. Alex é quem entra na discussão para trazer a irmã de volta a realidade, de uma maneira que apenas o texto de Supergirl, tão ríspido em seus sermões, conseguiria fazer. Kara Zor-El foi enviada para a Terra ainda criança para proteger e criar o primo, Kal-El. Contudo, ao chegar no planeta um pouco atrasada, sua missão já havia sido realizada pelos Kent em Smallvillve. Só que Clark, agora o Superman, nunca se preocupou em retribuir o favor e ao invés de inverter o papel com a prima, optou por deixa-la. Este traço impõe um pouco mais de falha em cima de um personagem até então perfeito, mas serve principalmente para mostrar que o mundo real é um pouco menos colorido do que Kara enxerga. E eu sou muito agradecido pela série por ter diálogos tão humanos dentro de uma produção que bebe com tanta força das histórias em quadrinhas mais antigas e espalhafatosas.
Tudo é sobre mudança, e Supergirl está mudando muito bem. Kara agora precisará lidar com uma nova vida dentro da CatCo e sem a sua grande mentora e conselheira, além de retornar para sua missão de protetora de um alienígena novo no planeta, o recém acordado e um pouco arisco Mon-El. E dentro de toda proposta de transformação, o roteiro da série, assim como sua direção, nunca esteve tão afiado. Hoje já é fácil classificar Supergirl como o retorno mais consistente para as séries de “super-heróis” nesta temporada.
Easter eggs e outras informações
– The Last Children of Krypton, o nome do episódio, é uma homenagem a The Last Son of Krypton, romance do Superman escrito por Elliot S. Marggin e publicado em 1978.
– Os primeiros três episódios da série animada do Superman é intitulado The Last Son of Krypton, assim como várias outras histórias em quadrinhos que vieram depois.

– A cena em que o Superman carrega a Supergirl no colo é uma homenagem ao famoso quadro de Crise nas Infinitas Terras, em que a Supergirl morre combatendo o vilão Antimonitor.
– Superman sendo meta e comentando a respeito da famosa linha de raciocínio dos bandidos: Tiro, soco, dor no punho.
– Supergirl e o primo derrotaram uma raça alienígena e mencionaram o nome durante o episódio, os Kigori. Kigori é uma raça de criaturas marcianas com aspecto de aranhas.
– Metallo foi criado em 1987 e teve seu debut em Superman Vol 2 #1. Assim como na série, John Corben recebeu um “coração” de kryptonita e sua missão principal é a destruição do Superman. O personagem já foi adaptado para a televisão, em Lois & Clark e também em Smallville.
– Snapper Carr também é um personagem saído das histórias em quadrinhos e seu nome na verdade é Lucas Carrr. Snapper foi o apelido que ele ganhou por estar sempre estralando os dedos (snapping). Ele teve grande participação no evento conhecido como Invasion e que será o tema do crossover de 4 noites da DC CW.
– A frase “Ele nunca bebe quando voa” é uma homenagem a fala do Superman no filme homônimo, de 1978. Quando Lois o está entrevistando ela oferece uma taça de champanhe e ele responde: “Nunca bebo quando voo”.
– O metal conhecido como Promethium é também nome do material utilizado na confecção das partes robóticas do Ciborgue e da armadura do Exterminador.
– Diferente do filme Batman V Superman, não é o Super que ganha uma estátua, mas sim o símbolo da casa El. Acho que entenderam a pegada do personagem, finalmente.
– Superman não gostou muito do J’onn manter um estoque de kryptonita e apesar dele já ter brigado com o Batman pelo mesmo motivo, em algumas fases ele foi o responsável por dar ao morcego de Gotham um anel com o mineral, para ser utilizado caso ele perca o controle.















