A bagunça que é a terceira temporada de Suits.
É natural que, em seu primeiro ano, uma série com essência procedural acabe por se dividir entre diversas tramas, sem no entanto desenvolver nenhuma delas com grande profundidade. Isso diminui no ano seguinte, quando a produção atinge sua maturidade e passa a trabalhar seus arcos de maneira mais complexa e focada. É exatamente essa sequência que acontece com Suits em suas duas primeiras temporadas. Entretanto, a atual parece remeter demais ao ano de estreia, trabalhando arcos muito curtos e chegando a este Bad Faith, que antecede o summer finale, dando a impressão de que não há um grande foco para a temporada.
O episódio, escrito por Ethan Drogin, tem como trama principal o divórcio entre Jessica e Darby, em que a primeira procura arrematar certos clientes para arrecadar dinheiro e aumentar seu valor durante a divisão, colocando-a em posição de vantagem. Para evitar essa manobra, Scottie retorna aos EUA para uma disputa com Harvey, colocando-se em posição frágil ao pedir para o amigo que não a destruísse e a fizesse parecer incompetente para o cargo desejado por ela. Enquanto isso, Mike precisa convencer seu sogro a adiantar recursos para a firma, utilizando uma estratégia pouco apreciada por Rachel.
É curioso como Bad Faith é tão bem executado em certos aspectos, mas evidencia um problema desta temporada. Estabelecendo com maestria os conflitos que envolvem a separação, o episódio cria seus diálogos com extremo cuidado, deixando, a todo momento, transparecer a enorme sintonia que existe entre todos os personagens. Assim, não é por acaso que, em momentos distintos, Jessica e Harvey utilizem metáforas de futebol americano, insinuando que os dois estão, finalmente, alinhados com seus objetivos. Da mesma forma, Suits procura fazer isso com Louis, mas aproveita para fazê-lo de maneira acertadamente cômica, em uma desastrada metáfora que confunde futebol com beisebol, mostrando que seu alinhamento é semelhante, mas que ele está completamente perdido na tentativa de ajudar.
Mas tudo isso apenas evidencia que Suits não conduz suas tramas de maneira fluida. Em nove episódios, vemos a história principal mudar muitas vezes, criando curtos arcos que dão uma sensação de arrastamento. Me parece óbvia a intenção de Aaron Korsh de reinventar sua produção através de uma temporada de transição, mas a cada cliffhanger a impressão que é passada é que a série perdeu a habilidade de trabalhar esses fatos a longo prazo, o que faz com que esses ganchos se tornem mero recurso para o episódio seguinte. Não para ser descartado prontamente, já que a trama não é tão segmentada, mas sem um desenvolvimento mais apropriado.
Ainda assim, Bad Faith é facilmente um dos melhores episódios da temporada. Além dos motivos já mencionados, o roteiro conduz sua narrativa com bastante competência. A começar pelos primeiros minutos, em que a calmaria vista indica um recomeço para todos os personagens. Em seguida, vemos tudo se resumir a como a Pearson Darby Specter, agora sim, tem funcionários que se compreendem e sem batalhas internas. Mais do que isso, vemos até mesmo Mike e Jessica convergirem para um mesmo ideal, o sinal mais evidente de que tudo vai bem, ao menos internamente.
E, como não poderia deixar de ser, Bad Faith ainda dá maior destaque a Louis dentro da trama principal. A proposta é exatamente a mesma do restante do episódio, mas com algumas diferenças. Apesar do apoio de Harvey, Louis tem grandes dificuldades de mostrar serviço quando se sente pressionado por seu grande rival dentro da firma. A presença de Nigel durante as negociações é apenas a gota d’água. A forma como Suits trabalha o personagem, como um advogado extremamente competente, mas com sérios problemas emocionais quando se trata de superar ou agradar a Harvey. Nesse aspecto, é importante que a série restaure a dinâmica entre os dois personagens, desaparecida na primeira parte desta terceira temporada, já que isso acrescenta muito aos dois e cria uma tensão sempre divertida.
Há uma diferença nessa dinâmica, que não existia durante a segunda temporada. A presença de Katrina, como um elemento que torna Louis um personagem mais seguro de si e menos isolado do restante, é importantíssima para que ele tenha maior destaque. A advogada tem aparecido com pouca frequência, o que acredito que irá mudar em breve, mas suas participações sempre acrescentam algo na trama. Aqui Suits deixa de investir em seu paralelo com Mike, já que isso já está subentendido, e a aproxima ainda mais de seu mentor, criando uma interessante dinâmica a ser explorada mais adiante, além de divertidos momentos como o que ilustra este texto.
Mas nem tudo é perfeito em Bad Faith. Em especial as brigas de Mike e Rachel, cada vez mais recorrentes. Repare como, em apenas um episódio, o casal se desentende e se acerta mais de uma vez. A sensação que tenho é que Korsh pretende criar uma crise entre os dois para unir Mike a Katrina, ainda que apenas provisoriamente. No entanto, desperdiçar preciosos minutos com brigas como a primeira, não acrescenta nada a nenhum dos personagens. Já a relação de Mike com Robert é bem trabalhada, mostrando uma dinâmica mais interessante e diferente. O mesmo não se pode dizer do retorno de Stanford à jogada. Imagino ser impensável que Rachel deixará a série por algum tempo, – a não ser por problemas extra-tela – o que torna essa trama desnecessária e que gira em círculos já há algum tempo.
No que diz respeito ao cliffhanger do final do episódio, em que o retorno de Ava é anunciado por meio do processo que move contra a firma, isso não chega a surpreender, já que seria absurdo que uma trama tratada como principal por boa parte dos episódios desaparecesse repentinamente. Mesmo assim, o gancho reforça a sensação de que a firma é uma só novamente, deixando os conflitos internos de lado para focar-se em um só problema.
O que torna Bad Faith um episódio muitíssimo bem executado, ainda que tenha seus problemas. No entanto, isso não remove a confusão que esta terceira temporada de Suits tem criado na cabeça do espectador. Sendo assim, não seria surpresa se o summer finale investisse em algo completamente diferente do que vemos aqui.












