O mundo de Shameless começa sua sétima rotativa apostando mais em comédia.

Já faz algum tempo que Shameless tem estado numa área de questionamentos a respeito de sua longevidade. Depois de uma quarta temporada que elevou ao clímax maior todas as tensões em torno da família Gallagher, o show tem passado por um longo período de reajustes provocados pelas constantes mudanças de elenco e pela evidência maior de que talvez não haja como ir mais além com o trágico e nem com o cômico. O perigo maior numa produção como essa é cair uma espiral de “dramaturgia com esquete”.

É mais ou menos o que tem acontecido em algumas áreas do programa, que só depois de investir em parte desse conceito, começa a colocar os personagens dentro de motivações mais complexas. Basta pensarmos um pouco sobre a premiere dessa temporada, que basicamente dividiu-se em mostrar Debbie, Frank, Kev e Cia; e Carl num apanhado de cenas cômicas com uma natureza completamente transitória, formando pequenos arcos de histórias que serão diluídas o mais rápido possível e se perderão quando a narrativa central da temporada começar a aparecer.

Listando fica ainda mais fácil perceber isso:

Debbie: Obviamente incapaz de cuidar da filha, passa a roubar carrinhos de bebê para conseguir conforto. É totalmente o tipo de coisa que um Gallagher faria, mas é um subplot condenado ao esquecimento.

Frank: Acordou de um “coma” e passou o episódio de estreia e o seguinte traçando planos bizarros e egoístas como sempre.

Kev & Cia: Tudo se tornou uma questão de “poliamor” com esses, mas ao menos a adição de Svetlana é tão deliciosa que compensa qualquer irrelevância dramaturgica. Ela é uma espécie de gênio que esconde todas as habilidades do universo e qualquer investimento nela é tão certo que dá vontade de pedir um spin-off.

Carl: Começou o ano com um subplot estranho em torno de prepúcios.

Esses quatro casos, panoramicamente, são todos investimentos cômicos dignos e contextualizados pelo universo do show. Contudo, eles são uma forma de ir trazendo lentamente o público para o universo transgressor daquela família. Nenhum desses esquetes de humor seguirão numa linha reta até a metade da temporada, mas são um exemplo de como o show tem funcionado durante todo esse tempo. O agravante está no fato de que com a obrigação de fazer seus personagens evoluírem, os roteiristas vão puxando a loucura pelo cabresto e menos arcos centrais são definidos (levando inevitavelmente a um contingente maior de outros esquetes).

Sobraram para tentar costurar o ano, Fiona, Lip e Ian, que acabam sempre sendo mesmo aqueles que dão mais trabalho para os criadores do show. Os três são os mais velhos, os que vivem arcos maiores e acabam segurando a responsabilidade de produzir os apogeus. Ainda assim, desde dois ou três anos para cá que mesmo eles foram colocados em labirintos sem saída. Fiona sempre prometendo não se envolver com homens errados e se envolvendo, Lip sempre cedendo ao legado do pai e ferrando com oportunidades e Ian deixando que seus demônios o confrontem em seu caminho. São sempre variações da mesma nota, da mesma verdade, mas que dependendo do contexto podem funcionar (o que acaba sempre acontecendo).

Podemos, inclusive, esperar para ver se eles aguentam fazer Fiona demorar mais para se envolver com alguém, se aguentam deixar Lip tomar as decisões mais acertadas em alguns momentos e se aguentam deixar Ian ter uma relação saudável. Dos três, o caso de Ian foi um dos que mostrou um potencial interessante para a filosofia, colocando em perspectiva a dinâmica de status presente na comunidade gay, que “se alivia” de seus pesos rotulares quando qualquer porcentagem de sexo heterossexual está envolvida. Bissexual ou não, o “gay que transa com mulher” é uma categoria que se sente e é interpretada como superior por – supostamente – resguardar masculinidade. Há muito o que se falar do assunto e seria ótimo ver os roteiristas colocarem mais dele na roda.

Já quanto a Lip e Fiona a coisa é mais passível de repetições em looping. Foi uma boa sacada fazê-la entrar no Tinder e seria melhor ainda que o foco dela virasse o trabalho e os homens fossem sempre transitórios. Uma temporada assim seria sensacional, sobretudo porque Fiona não tem mais um personagem fixo que passe a fazer parte das nossas expectativas enquanto par romântico. Mas, não duvido que logo ela se apaixone por um cliente ou pelo carinha lá da agência e entre de novo na dança do “eu não sou boa o suficiente para isso”. Que é, aliás, a mesma dança de Lip, que não dá passos seguros em direção ao futuro promissor por achar que “aquilo não é para ele”.

Não me entendam mal, foram episódios bons, engraçados, cheios do espírito do show. Mas, Shameless anda estagnada de si mesma e somente quando souber quando será seu fim é que poderá ser possível tomar decisões mais definitivas. Até lá, temos que nos contentar com esquetes de humor e mesmos erros sob ângulos diferentes (ou não tanto assim). A série ainda é gostosa de assistir, mas passou a ser fácil de desvendar. Para qualquer dramaturgia que nasceu sendo transgressora, não há nada pior do que previsibilidade.

PS: Estive num momento muito atribulado no último mês e muitas reviews precisaram ser atrasadas. É bem possível que vocês tenham a companhia de outro reviewer a partir daqui. Shameless merece a atenção devida e se alguém da equipe do site puder assumir, assim será. Beijos a todos e continuem por aqui.

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