Procura-se Desiree desesperadamente.
Eu conheci alguns Gallaghers de perto, já contei para vocês? Não eram bem os Gallaghers, mas poderiam ser considerados uma versão brasileira. Moravam do lado da minha casa, na época em que eu ainda estava no interior da baixada fluminense, aqui no Rio. Eles moravam todos num cubículo que nunca estava limpo e era tomado de lixo e tralhas. Eram uma mãe e um pai, que não eram chamados de pai e mãe pelos filhos. Eram quatro filhos e todos eles só foram a escola até quando quiseram, tiveram seus filhos ainda adolescentes e nunca pararam em empregos. A mãe era submissa e o pai era gordo, bêbado, fumava como um louco e ganhava dinheiro enganando pessoas. Havia uma exceção: o quinto filho, que ainda menino, foi tirado desse ambiente por um amigo da família, que era casado e com a esposa nunca conseguira ter um bebê. Esse amigo levou o menino para terminar de criar e ele estudou, arrumou um bom emprego e construiu uma família estável. Ele escapou do ciclo.
A razão desse imenso parágrafo narrativo é pensar um pouco sobre como somos frutos do meio onde estamos inseridos. Assistindo ao episódio desse semana de Shameless, notei que a pequena cena que mostrava Kevin tocando uma fita motivacional para as filhas enquanto elas dormiam, dizia muito sobre as diferenças entre ele e os Gallaghers. Não podemos dizer categoricamente ainda, mas me parece muito mais possível que as filhas de Kevin cresçam sob esse cuidado atmosférico e isso gere melhores resultados, do que alguém que nasça no seio dos Gallaghers, consiga ter algum futuro brilhante. Não podemos esquecer que Liam, o bebê da família, teve uma overdose de cocaína.
Interromper a linhagem da família fica parecendo até uma boa ideia, quando olhamos para a coisa assim. De certa forma, a obsessão de Fiona em convencer Debbie a abortar parte de uma união de todas essas constatações. Não há mesmo nenhuma condição financeira ou psicológica para receber um bebê e quanto mais eles insistem em aplicar velhas regras ao próprio amoralismo, mais eles se frustram, mais eles flertam com o perigo. Pensando de modo prático, um aborto seria uma solução muito correta para a criança, sobretudo. Os Gallaghers só existem numa boa para nós, que rimos deles às vezes. Viver naquelas condições, por mais difícil que seja sair dela, não pode ser prazeroso para ninguém.
Debbie
Ela me dá nos nervos, na maioria do tempo. Alguém como ela, que cresceu onde ela cresceu, deveria saber o que não se fazer para não continuar se ferrando. Mas, seguindo a tradição de cometer erros em loopings eternos, Debbie está cega como uma porta. Ainda que tenha visto por si mesma como a experiência com o saco de farinha adiantou transtornos, ela não mudou de ideia. Entendo perfeitamente que a ausência paterna e o histórico de perdas e fugas tenham tornado a menina uma ansiosa patológica, desesperada para prender e se proteger do abandono. Porém, eu esperava menos histeria, mais esperteza.
Shameless não teve um pingo de pena do politicamente correto. Em nenhum momento do episódio tivemos qualquer cena apaziguadora que apontasse para a possibilidade de que “qualquer vida vale a pena”. Pelo contrário… A cada momento Debbie parecia mais surtada e o aborto parecia mais plausível. É só dar uma olhada no séquito… Lip está arriscando seu futuro com uma professora potencialmente homicida, Carl está formando uma milícia antes dos 20 e Ian herdou um bipolarismo galopante da mãe. Para aqueles personagens o aborto não é nenhum bicho de sete cabeças e para honrar o espírito transgressor do show, o roteiro não se preocupa com exageros e transforma a questão num espetáculo de mensagens de texto deliciosamente nonsense. Shameless sendo Shameless e é assim que a gente gosta.
Fiona
Outro momento bem clássico da série que foi revisitado nesse episódio foi a sobrecarga familiar em cima de Fiona. Eu sei que esperamos sempre a ver naquele estado tenso, quase histérico, tentando lidar com um monte de gente que precisa de cuidados, mas que se rebela contra qualquer forma de zelo, confundindo-o com controle. Ian e Debbie exalam tanta antipatia justamente porque estão em momentos frágeis, precisando de uma “mãe”, mas repelindo a única pessoa que tem credenciais próximas para tentar fazer o trabalho.
Com relação a esse episódio, Fiona teve dois momentos muito importantes. Um que só reforça os ciclos viciosos onde ela se mete. A temporada passada nos mostrou que preferimos Fiona sendo pressionada em casa do que com tempo sobrando para namorar. Mas, péssimas escolhas amorosas fazem parte da gênese da personagem e lá está Sean, voltando a usar heroína e nos adiantando um futuro de muitos episódios difíceis para a nossa protagonista. Parte de mim lamenta que aconteça, mas a outra parte só se lembra de como Fiona foi imbecil dispensando Gus… Enfim, é tudo uma questão atávica, inevitável.
O outro momento acabou sendo uma virada muito boa na dinâmica de pró-aborto. Fiona descobrir uma gravidez enquanto tenta dissuadir a irmã de outra, foi uma sacada notável. Isso pode mudar completamente o jogo, porque de repente a situação de Debbie, que parecia paralela, se torna um dilema maior. Os argumentos contra a menina podem não ser os mesmos, mas a necessidade de não trazer mais vidas para o seio dos Gallaghers vale para qualquer um deles. É como se Fiona fosse obrigada a também abortar por uma questão de lógica. O problema é que ninguém nessa família conhece nada nem perto de coerente e sem dúvida, essa gravidez vai afetar Fiona de formas que ela mesma não espera, ainda que negativamente falando… A natureza pode estar forçando a linhagem, mas o sofrimento crescendo como parte da vida, pode já ser um conceito suficientemente terrível para ser levado adiante.
Desiree Memories: Eu já simplesmente adoro a dinâmica entre Kevin, Yanis e as lésbicas.
Desiree Memories 2: Frank à procura de uma mulher com câncer, matando uma pobre moribunda com uma dose de crack. Ele segue paralelo na trama, mas ainda na linha mais cabal da loucura.















