Eu me lembro de segurar o controle e mudar de canal até encontrar algo suficientemente colorido e barulhento pra que eu pudesse me sentar e almoçar antes de ir pra escola. Porém o que eu encontrei e que me cativou a parar de esmagar o botão foi justamente o contrário. Havia uma enorme abundância de cores escorregando de cada canto da tela, sim, mas a programação que mais me intrigou não poderia ser mais silenciosa e em clima de meditação. Essa parte da minha memória está ausente, mas se eu tivesse de apostar, diria que não foi com uma batalha energética que eu fui apresentado a Samurai Jack e sim com um dos seus frequentes (e longos) períodos de quietude e contemplação, nos quais o nosso herói atravessava terras devastadas e procurava alguma beleza em meio ao horror criado pelo seu nêmesis.
Bem, 13 anos se passaram desde que alguém ligou a televisão para fazer a mesma descoberta. A série nunca teve a sua merecida conclusão e parecia que Jack jamais completaria a sua justa missão. Se alguns anos atrás alguém tivesse sugerido que ainda havia a possibilidade de um retorno, provavelmente só teria gargalhadas como resposta. No entanto, hoje essa pessoa certamente está com um sorriso esboçado nos lábios, contente com o respeito com o qual essa obra inacabada foi tratada. Eu sei disso porque essa pessoa não está sozinha. Nós somos muitos, e nós estamos extremamente felizes com o retorno de Jack.
Eu poderia fazer uma pequena sinopse dessa nova e última leva de episódios, e talvez fizesse um trabalho decente e chegasse perto de sintetizar a sua grandiosidade, mas acho que ninguém pode descrevê-la melhor do que o próprio Jack: “50 anos se passaram, mas eu não envelheço. O tempo perdeu o seu efeito sobre mim. Entretanto, o sofrimento continua. O domínio de Aku sufoca o passado, o presente e o futuro. A esperança está perdida. Tenho de voltar. Voltar para o passado. Samurai Jack.”
Esse amargurante discurso de Jack serve como uma abertura provisória para este primeiro episódio, transcrevendo com perfeição a sequência inicial fantástica que a precede. Então sim, podem ficar tranquilos. A clássica e espetacular abertura (que eu juro que não saltei uma única vez durante a minha maratona dos 52 episódios originais) vai voltar também, agora com uma nova animação para acompanhar o gingado viciante. Previsão: vai ser de cair o queixo.
É indescritível a sensação de experienciar Samurai Jack em 16:9. Sério, indescritível. O que torna o meu trabalho mais difícil, porque a responsabilidade que eu tenho é justamente a de escrever sobre essa sensação. Estamos falando de uma animação que estava à frente do seu tempo precisamente pelo seu leque aparentemente imensurável de artifícios visuais e que agora, com um aspect ratio moderno, vai ficar muito mais complexa. Peguemos o poço de brilhantismo que é o episódio “Samurai Versus Ninja”, por exemplo.

Nele, Jack enfrenta um shinobi e os animadores aproveitam que um dos guerreiros é treinado para lutar na luz e o outro na escuridão para criar um jogo de contraste de uma inteligência ímpar entre todas as animações dos anos 2000. Você só consegue ver Jack quando ele está na escuridão e o oposto é o que acontece com o shinobi. É ainda hoje um duelo absolutamente primoroso e que independente do número de vezes que você reveja, ainda vai te surpreender.
Todos, e repito, todos os episódios de Samurai Jack eram recheados de momentos assim. Essa identidade visual complexa é a maior constante da série, mais do que o tom dos episódios ou mesmo o traço e modelo dos personagens. Nenhum episódio de Samurai Jack chega ao fim sem inventar uma nova maneira de mostrar algo (que você muito possivelmente já viu várias vezes), através da composição, do formato/ posição dos quadros de ação, da iluminação dos cenários, etc. É uma animação que até hoje entende melhor o que é televisão do que a maioria das coisas nas nossas grades e eu não tenho como reforçar o bastante isso.

O revival parece compreender como animar algo cujo tom desvia completamente do antigo, mas deixar a coisa com cara de Samurai Jack. Ao menos é o que esse episódio demonstrou, de várias formas (umas mais sutis do que as outras). Levem em consideração, por exemplo, o novo design dos besouros robóticos de Aku. A bocarra cartunística deles sumiu e as linhas que compõem os corpos dessas máquinas agora são mais corruptos, como a forma do próprio Aku. Os atos de violência de Jack contra essas máquinas finalmente têm impacto perceptível.
Uma das coisas que mais incomodava no desenho original era o quão frágil todo inimigo sintético que Jack encontrava era. A gente entende que mesmo criaturas que eram clara e inegavelmente biológicas no fim acabavam por ser feitas de fios e engrenagens: Jack não podia tirar vidas. Não podia haver sangue ou nada com a possibilidade de chocar uma criança. Jack podia enfrentar um monstro prestes a se alimentar, mas descobriríamos que se tratava de um robô. O sentido era sacrificado em virtude da censura. Mas, de novo, não era o que mais incomodava: o pior era que todo androide ou robô no universo de Samurai Jack podia ser destruído com um simples soco e desfeito numa explosão. Também é compreensível: não é excessivamente agressivo e você ainda consegue tirar a empolgação da criançada com as explosões.
No novo episódio, você vê Jack estraçalhando os besouros, peça por peça. Os tiros abrem rombos enormes que dão uma gravidade muito maior ao combate. Continua não sendo uma ‘vida’ no significado mais literal da palavra, mas já é um passo dado na direção que essa última temporada quer ir. Vi numa entrevista que um dos pontos centrais da temporada pode ser Jack tendo de tirar uma vida humana. Acho que o hilário assassino enviado por Aku sendo outro robô acaba tirando um pouco desse avanço, embora possa ser feito o argumento de que ainda não chegou essa hora. Sendo assim, é complicado imaginar Jack vivendo 50 anos no futuro sem jamais matar a vida de um caçador de recompensas humano. Há quem diga que Jack já fez isso em “The Princess and the Bounty Hunters”, mas o criador não parece concordar.

Seja como for, a transição do Cartoon Network para Adult Swim certamente foi oportuna, já que a audiência de Samurai Jack cresceu e agora está preparada para testemunhar o genuíno desespero e solidão por trás da jornada de Jack, que sempre pareceu tão aventuresca. E Jack parece ter mudado mais do que os próprios espectadores esperavam. Quando ele deixa para trás a família que acabou de salvar sem sequer perguntar se elas estavam bem, já dá pra ver isso. Não precisamos de qualquer comentário sobre o assunto, porque nós conhecemos Jack e a diferença é esmagadora.
E para um novo Jack, certamente precisamos de novos vilões. Dessa vez, o espadachim tem mais com o que se preocupar do que Aku, caçadores de recompensas e inimigos ocasionais de vilarejos pobres. Um culto de seguidoras de Aku deu ao demônio filhas dedicadas e treinadas para assassinar Jack. Adorei a ideia. O termo ‘assassino’ finalmente ganha algum peso com essas personagens e eu já queria algo parecido desde o começo. Eu fiquei bastante decepcionado quando descobrimos que Ikra (a femme fatale que aparece num único episódio) é o próprio Aku, disfarçado para atrapalhar os planos de Jack. Teria sido muito legal ver uma personagem nesse arquétipo (talvez uma figura recorrente, como o Escocês). Leal à Aku, mas com sentimentos pelo Jack. Felizmente, parece que é algo que podemos ver acontecer agora, com as filhas de Aku.
Ah, e o treinamento delas é ótimo. Cria uma empatia por cada uma das meninas, graças ao abuso que elas sofrem diante dos nossos próprios olhos. Talvez não nos afetasse tanto se não estivéssemos acostumados com um cartoon tão amigável. Também mostra o que eu quis dizer sobre os visuais, porque a sequência em que elas sobem a torre é estupidamente bem animada e estilizada.

Aliás, falamos bastante sobre a animação, mas está muito enganado quem acha que Samurai Jack é só o visual. O design de som era uma das coisas mais detalhadas e impressionantes no original. Floresta ou catacumba, cada cenário soava tão rico quanto ilustrado. As sequências de ação incluíam uma enorme energia com os zumbidos da espada de Jack cortando o ar ou com o barulho dos robôs sendo cortados ao meio. E quando a fórmula da série mudava, como já deixei claro que acontecia o tempo todo, o que você ouvia também passava por uma metamorfose. Se você não acredita em mim, é só rever alguns episódios. Lembrar de como a série soube perfeitamente como instalar uma atmosfera de terror em “Jack and the Haunted House” ou uma melancolia noir em “Tale of X-9”.
Não seria tão entristecedor ver Jack perdendo a sua sanidade se não ouvíssemos o que ele ouve de uma maneira tão perturbadora quanto ele e é aqui que os sonoplastas sucedem. Mais do que as imagens chocantes, são os gemidos nas alucinações de Jack que chamam a atenção. Especialmente o choro bem baixinho do bebê na cena do lago. A voz dos pais de Jack é sempre bastante nítida, mas é notável que ela está sempre algumas camadas acima de uma complexa montanha de ruídos diferentes que parecem ter saído de um pesadelo.
A OST continua fantástica também, mas tenho de confessar que não combinou nem um pouco a faixa escandalosa que colocaram na sequência do Jack na moto. Muito barulhenta por motivo nenhum. Seria o tipo de cena que no clássico seria acompanhado com algo quieto e vagaroso, talvez com alguns sons de animais no fundo. Não fez o menor sentido narrativo, porque ele não entregou em batalha depois disso e ela entra tarde demais para ser uma extensão da luta inicial. A música simplesmente some e ele continua pilotando. Com a exceção disso, as músicas continuam bem apropriadas e entusiasmantes.
A única coisa que não vai deixar de me inquietar mesmo é a ausência do Mako Iwamatsu como Aku. Não dá. Vou deixar algo bem claro e se pudesse, cravava em pedra: se você só assistiu Samurai Jack no SBT, você não experienciou o desenho direito. Diga e ache o que quiser sobre o debate do dublado x legendado, é um consenso universal que Maku vivendo Aku é uma das interpretações mais icônicas de toda a história das séries animadas americanas. Muita gente acha que é a melhor parte de Samurai Jack. E embora eu ache que o Guilherme Briggs como Jack também está longe de ser tão completo como o Phil LaMarr no papel, qualquer coisa é mais fácil de engolir do que Samurai Jack sem Mako Iwamatsu. Mas não há nada que qualquer um possa fazer sobre isso. O ator infelizmente faleceu e vamos ter de aprender a viver com uma temporada final que por mais espetacular que seja ainda vai parecer incompleta sem ele. Só ouvimos o Greg Baldwin soltar algumas falas num telefone e foi o bastante pra já sentir uma enorme falta do Aku clássico. Vamos torcer para que seja uma boa dublagem.

Lembram de quando o Jack fala pro Da Samurai que “aquele que usa uma máscara não consegue ver o que existe dentro dele mesmo”? Então, mais um jeito do Jack fugir dele mesmo e, obviamente, dos outros que esperam a sua salvação. O rosto dele era reconhecido o tempo todo e parece que ele cansou de ser o semblante da esperança. Jack está perdendo a sua sanidade, os seus princípios e foi verdadeiramente doloroso ver o curto flashback em que ele perde a sua espada, mas nós o conhecemos e sabemos que ele vai se erguer novamente.
Só tem Spin-off e Revival na TV!Posso continuar escrevendo sobre tudo que fez esse episódio magnífico, mas acho que não é preciso muito mais do que assistir ele pra entender isso. Samurai Jack sempre foi um Berserk pro público infanto-juvenil do Ocidente, mas agora o desenho parece abraçar de vez esse tipo de comparação e querer elevar a missão de Jack. Novas proporções, novos riscos… um épico ainda maior. Uma premiere gloriosa para um retorno glorioso.
Dá arrepio só de dizer, mas realmente está acontecendo. Jack está de volta!

Outras coisinhas perdidas no tempo:
– Será que vamos ver o Jack cheio de verrugas, cicatrizes e da barba cinza que o Guardião visualizou no episódio “Jack and the Traveling Creatures”? Aquele provavelmente é o capítulo mais importante do desenho, depois da origem fenomenal do Aku.
– A mudança do padrão dos títulos é outro detalhe gritante sobre a alteração no tom do desenho. Já não temos títulos aventurescos no tradicional “Jack and [Tema da Semana]”. Foram substituídas pela numeração romana dos capítulos que geralmente aparece nos créditos. O nome desse episódio é “XCII”. Ficou bem sóbrio.
– A alta resolução favoreceu demais esse desenho. Perdi a conta de quantas vezes fiquei encarando a boca dos personagens e como elas se mexiam. Tão mais fluído.
– A animação nova também passa muito melhor o impacto e a velocidade. É só analisar o embate do Jack com o gigante de pedra e com o Scaramouche. A série consegue transmitir o quão veloz e ágil o Jack é sem ter de recorrer tanto aos fundos dinâmicos com as linhas de movimento.
– Achei muito legal ele ficar com a arma do Scaramouche. Espero que vejamos ela de novo e que ele pegue o equipamento de outros oponentes derrotados.
– Adorei o title card novo também. Bem épico. Vamos ver como casa com a abertura.












