Sobre a paixão do ponto de vista feminino.

Nos últimos tempos tenho me encontrado na busca constante por histórias que constroem personagens femininas plausíveis e diversas, colocando-as no centro das tramas. É a necessidade de uma representatividade mais que devida, afinal sou mulher e quero poder olhar para a tela e saber que os tipos femininos não serão limitados a três ou quatro repetições constantes de coisas que já vimos milhões de vezes. Especialmente quando esses tipos se encontram completamente atrelados e dependente de um personagem masculino, sendo a única coisa que as define.

Red é uma web série brasileira que se apoderou disso em sua primeira temporada, encerrada no último dia 18 com 8 episódios. Recebemos o convite de mergulhar nas vidas de Liz e Mel, duas atrizes que estão filmando um curta metragem que recebe o mesmo nome da série. E, principalmente, olhamos como cada uma delas encara o sentimento que começa com suas personagens – respectivamente Simone e Scarlet – e acaba por transpor a ficção e invadir suas realidades.

Aliás, já podemos começar essa review enumerando o uso feito da metalinguagem como fator que coloca as protagonistas em movimento. Liz e Mel vivem uma espécie de inversão quando as personagens que interpretam são uma espécie de espelho da outra. Um dos maiores símbolos é o cigarro, explorado como se fosse uma indicação ao espectador de qual realidade estamos presenciando, a das atrizes ou de Simone e Scarlet. Algo que foi delicadamente estabelecido na sequência inicial do primeiro episódio e que acaba por nos nortear em todos os outros.

E, mesmo com a divisão feita entre os duos Liz-Mel e Simone-Scarlet, é notável como as intérpretes e interpretadas se confundem. Não nas atuações, pois Ana Paula Lima e Luciana Bollina imprimiram assinaturas únicas para cada uma das personagens, mas podemos ver como as trajetórias das duas mulheres do curta acabam guiando sentimentos e decisões das duas atrizes. Uma das sequências mais emblemáticas nesse sentido é a entrevista de Mel na season finale, quando ela explica um pouco dos desafios de Scarlet. Após isso ela faz uma longa pausa e quase é possível ler em seu olhar que a moça está refletindo o que disse sobre seu outro eu e usando as palavras para o entendimento do que está vivendo naquele momento.

Sobre as personagens, por mais que ame Liz e sinta o impulso de estender minha mão cada vez que vejo aquela profunda tristeza em seu olhar, devo dizer que Mel é um grande destaque em Red. A personagem começa como uma espécie de musa para a colega de trabalho, despertando um sentimento platônico em Liz. No entanto, vemos que Mel possui passos próprios e a revelação de sua bissexualidade no quinto episódio merece muitas estrelas. Vivemos em um momento em que os bissexuais pedem para sair da invisibilidade, e Red nos apresenta sua contribuição para essa representatividade.

Mas a sexualidade da personagem não é o único atrativo, para nenhuma das duas. Observamos duas mulheres que conseguem ser fortes e vulneráveis ao mesmo tempo. Liz e Mel são independentes e firmes em vários aspectos de sua vida. São duas personagens femininas que inspiram identificação.

Nessa mesma sequência da entrevista vemos outro destaque importante na série, que é o modo que eles retratam o amor entre mulheres. Mel fala que o desafio de interpretar Scarlet era falar sobre uma mulher apaixonada e vulnerável, e que isso não se tornava mais difícil pelo simples fato dessa paixão ser direcionada a outra mulher. Essa simples fala representa todo o trato dos criadores de Red com as mulheres lésbicas e bissexuais e, mais que isso, sobre as mulheres em si. Como coloquei na frase inicial dessa review, vejo essa web série mostrando a paixão feminina.

Por fim, é indispensável que se fale sobre a qualidade técnica de Red. Mesmo com poucos recursos, o cuidado com a pós-produção dos episódios é de encher os olhos – o que nos faz pensar o que poderia ser feito com mais recursos. Além disso, gostaria de destacar as tomadas do diretor Fernando Belo, com closes que nos convidam a um olhar mais íntimo sob as personagens, como se elas nos chamassem para conversar.

Os 8 episódios da primeira temporada de Red surpreenderam pela qualidade técnica, dos roteiros e atuações, além de ter trazido em sua fascinante história um olhar intimista para personagens apaixonantes e apaixonadas. É com um sorriso nos lábios que parabenizo a iniciativa dessa web série. E espero que em breve possamos saber se teremos ou não uma segunda temporada.

Você pode conferir todos os episódios da primeira temporada clicando aqui.

Artigo anteriorThe 100 2×05: Human Trials
Próximo artigoAnálise de Audiência 3×09: State of Affairs