Sobre a longa trajetória de perdas de Meredith Grey.
A única coisa certa na vida é a morte”
Esse texto contém spoilers da 11ª temporada de Grey’s Anatomy.
Quantas vezes já ouvimos, ou mesmo falamos esta famigerada frase? Muita, não é mesmo? Então porque será que este fenômeno causa tamanha comoção? Através do percurso de perdas de Meredith Grey, em Grey’s Anatomy, farei uma breve reflexão sobre o processo do luto no ser humano.
Não me aterei a falar aqui sobre os estágios do luto, até porque a própria Meredith já explicou direitinho lá na, agora longínqua, première da sexta temporada. O objetivo aqui será explorar tanto as causas, quanto as reações e consequências das tantas perdas sofridas pela protagonista de um dos dramas de maior sucesso da TV americana.
Os lutos de Meredith começam lá na infância, com a perda da identidade infantil e também do pai que, mesmo não morrendo, acabou virando um estranho na vida da filha, tornando esta lacuna sempre aberta. Nem a frequente presença de Richard na vida de Meredith conseguiu suprir o espaço que Tatcher deixou nela.
Isto fica bem claro quando analisamos a transição da infância em direção à vida adulta da personagem. Meredith não teve um núcleo familiar funcional durante seus primeiros anos de vida, o que gerou também, posteriormente, consequências significativas em sua visão de mundo, relacionadas especialmente a esta fase do desenvolvimento que acabou por ser, muitas vezes, inadequada.
Já na vida adulta, já no decorrer do show, Meredith perde a mãe. E não só para a morte, mas também vai perdendo a imagem que havia construído da progenitora, de mulher “inquebrável”, mas que sucumbe ao Mal de Alzheimer que, aos poucos, vai sugando a lucidez de Ellis e ainda mantendo Meredith presa a um movimento disfuncional, onde acaba tendo que manter aparências e vivenciando o luto da saúde da mãe sozinha, sem muitas chances de elaborá-lo.

Mas claro que a grande primeira perda de Meredith é a morte de Ellis mesmo. O luto só acontece quando há um vínculo, e este é rompido. O vínculo é extremamente importante para a sobrevivência em qualquer espécie e, no caso de Meredith a mãe foi, durante muito tempo, seu único vínculo real e duradouro, o que fez com que a perda acabasse tendo consequências gigantescas na vida da personagem.
Ainda hoje, com a iminência de uma já certa décima segunda temporada, vemos muitos reflexos da infância disfuncional e, principalmente, da grande perda que foi a morte de Ellis para Meredith. É inegável que a protagonista cria mais vínculos do que a mãe o fez no passado (fato que a torna mais resiliente quando o assunto é a perda), porém também é notório que o movimento das duas acaba por ser muito parecido em suas relações e leva Meredith a questionamentos e reflexões referentes à sua própria finitude em comparação à da mãe.
As idas e vindas dos amigos, que faziam parte de sua família também refletem na atual Meredith. George, Izzie, Mark e especialmente Lexie e Cristina foram tirando pedaços de Mer a cada partida dolorosa. E junto a isto ainda perde o filho, abortando-o durante o traumático tiroteio. Considerando que a experiência do luto é grupal, principalmente relacionada ao grupo familiar, após a morte de Ellis e também de Lexie, é Cristina quem toma o lugar principal na vida da amiga. Aliás, as twisted sisters (genialmente apelidadas por Owen) formavam o principal “casal” da série e, atrevo-me a dizer que sim, foi esta a perda de maior gravidade para Meredith.

As reações de Meredith à morte de George, Mark e até Lexie, assim como à saída de Izzie foram, cada uma, particularmente tristes e dolorosas, porém foi a aprtida de Cristina que deixou um vazio maior na vida de Mer. E neste ponto é importante retornar ao que é, essencialmente falando, o luto: a perda do vínculo. Não precisamos ter mais uma morte trágica no caso de Cristina (obrigado, Shonda Rhimes!) para que Meredith tenha vivenciado o luto. Quando a amiga vai embora para a Europa, ela leva junto o vínculo que, por consequência, vai reduzindo a sensação de segurança no sujeito.
Não à toa Meredith tem sido apresentada mais dura. E isto não é algo necessariamente ruim. Quando o ser humano quebra um vínculo tão forte como era o de Meredith com Cristina, precisa desenvolver estratégias de coping, que é a forma de lidar com o estresse e a capacidade de enfrentá-lo, minimizando as consequências negativas. O amadurecimento da personagem, somado às grandes perdas, faz com que ela crie estas novas formas de agir frente aos percalços de sua vida (bem-vinda Medusa Grey).
Mas foi agora na 11ª temporada que a maior “surpresa” acontece (vamos concordar que surpresa relacionada a perda, não se aplica na série). Toda a história de Grey’s Anatomy começa e tem como fio condutor, o relacionamento de Meredith e Derek. O baque foi tão grande com a morte do marido que, pela primeira vez, vimos uma Meredith quase idêntica à Ellis, fugindo com seus filhos daquele contexto que causou tanta dor e que, desta vez, parecia ter tornando-se insuportável.

É preciso deixar claro que fuga e isolamento são sintomas extremamente naturais em sujeitos que sofrem grandes perdas. E, neste caso, após a morte do cônjuge ainda tão jovem, por ser prematura, provoca bastante dificuldade de resolução para a parte sobrevivente do casal, portanto, nada ali foi inesperado. É comprovado que a viuvez pode afetar a adaptação psicossocial e, não por acaso, o salto temporal do fim da temporada mostra o quanto Meredith teve que elaborar, agora acompanhada de três filhos, porém sem mais nenhum porto seguro para poder atracar sua dor.
Mas o ser humano é ajustável e moldável às situações vivenciadas e, ao que parece, teremos em Alex e, possivelmente, Maggie e Amelia, novas possibilidades para Mer criar maiores vínculos seguros no futuro. E para as próximas temporadas, fica a dúvida do quanto este processo longo e recorrente de enlutamento de Meredith vai afetar sua capacidade de criar tais vínculos.
Grey’s Anatomy é uma série visceral em todos os sentidos. Por mais que a licença poética permita ao show explorar o drama com maior ênfase, o que acontece ali na Seattle de Grey’s é o retrato da realidade. A vida não é como um conto de fadas, onde tudo vai se encaminhando para o final feliz. A vida de Meredith reflete o que realmente é a vida. Seria bonito imaginar MerDer juntos até o fim, com vários McBabys em sua McHouse sendo lindos e felizes. Mas a vida não é essa receita de bolo e a série mostra isto com perfeição (mesmo que não tenha sido planejado inicialmente). Hoje temos uma protagonista mais forte e que aprendeu a lidar com suas perdas e lutos. A questão que fica é: saberemos nós, os fãs do show, lidar da mesma forma?














