Um por todos e todos por um!!!

“The Three Musketeers (1844)” é o primeiro livro da série conhecida como “D’Artagnan Romances” e junto com “Twenty Years After (1845)” e “The Vicomte of Bragelonne (1847 – 1850)” contam a história de D’Artagnan desde sua infância na cidade francesa de Gascony até sua morte em 1673. A série de “capa e espada” inicialmente fez parte do folhetim francês “Le Siècle” e posteriormente foi transformada em livro. A série foi escrita pelo autor francês Alexandre Dumas com base em manuscritos que o mesmo afirma ter achado na Biblioteca Nacional da França, manuscritos estes reconhecidos como “Les Mémoires de M. D’Artagnan”, escrito por Gatien de Courtilz de Sandras.

Hoje as histórias dos três mosqueteiros e seu aprendiz fazem parte não somente da cultura francesa, mas também da cultura pop mundial. Afinal, quem nunca ouviu falar de Athos, Porthos, Aramis ou D’Artagnan?

O mais interessante e até mesmo impressionante nessa obra de Alexandre Dumas, foi o fato dele conseguir misturar com eficiência e inteligência o lado fictício com o conteúdo histórico dessa determinada época da França.

Como já mencionei as histórias contidas em “D’Artagnan Romances” foram baseadas em manuscritos localizados por Dumas, portanto são sim romantizadas porém a partir de fatos e pessoas reais. Sabemos que os mosqueteiros realmente fizeram parte da força militar da França e foram criados em 1622 pelo então rei Louis XIII. Também sabemos que um dos antagonistas das histórias dos mosqueteiros escrito por Dumas, Cardeal Richelieu, realmente exerceu forte influência sobre o rei e reza a lenda que ele realmente era cruel. Os próprios mosqueteiros de Dumas são baseados nos reais mosqueteiros Armand d’Athos (Athos), Henri d’Aramitz (Aramis), Isaac de Porthau (Porthos) e Charles Ogier de Batz de Castelmore, também conhecido como conde D’Artagnan (D’Artagnan).

Mais que uma tentativa de relatar história, a obra escrita por Dumas nos passa uma forte mensagem sobre lealdade, amizade, amor, luta contra a opressão e heroísmo em um momento da história francesa onde, o que o povo mais precisava era esperança.  Todos esses fatores são importantes para entendermos a real dimensão da influência de Dumas na literatura, cinema, televisão, teatro e também em jogos.

E assim também entendemos o quão vasto é esse material, que se tornou uma grande fonte de adaptações. De fato são tantas as adaptações televisivas e cinematográficas da obra de Dumas que eu até já perdi as contas. O mais impressionante é que em cada adaptação, mesmo nas mais ruins, é mantido o espírito visionado por Dumas sem se tornar repetitivo e/ou incoerente. Inclusive podemos até dizer que a história dos mosqueteiros é atemporal. Sendo assim não precisa ser gênio para entender o quão lucrativo é a obra de Dumas, justificando o motivo de tantas adaptações.

E eis que chegou a vez da BBC One se aventurar no mundo dos mosqueteiros e da França do século XVII, em uma série que contará com dez episódios nessa primeira temporada. Dessa vez a adaptação veio pelas mãos de Adrian Hodges, que no currículo tem a série “Primeval” e também o roteiro do filme “My Week with Marilyn”. Hodges conseguiu fazer um piloto forte, com um roteiro fiel ao que já conhecemos e ao mesmo tempo fácil para quem ainda não conhece. Foi um piloto pronto para agradar aqueles que procuram romance, ação, aventura e o mundo sedutor dos Mousquetaires de la Garde. Tudo isso com o selo de qualidade BBC, que (quase) sempre conta com uma qualidade fora do normal, principalmente quando o assunto é série de época.

Os elementos e personagens que conhecemos continuam aqui. D’Artagnan (Luke Pasqualino – Skins) o jovem temperamental e até mesmo convencido que se torna aprendiz de mosqueteiro e protegido de Athos (Tom Burke – Great Expectations) o líder dos quatro. Junto a Athos temos Porthos (Howard Charles – Beautiful People) e Aramis (Santiago Cabrera – Heroes).

Claro que em toda adaptação mudanças são necessárias. Aqui D’Artagnan não chega a Paris especificamente para se tornar mosqueteiro. Aqui ele vem atrás de vingança pela morte de seu pai, sendo que o suspeito de matá-lo é ninguém menos que Athos. É interessante notar que essa diferença deixa o personagem mais maduro. Vale lembrar que na série de Dumas, D’Artagnan conhece Athos, Porthos e Aramis através de pequenas confusões em que se mete assim que chega em Paris, confusões essas que o fazem desafiar cada um dos três mosqueteiros para um duelo, no mesmo dia. Essa pequena diferença já nos traz um D’Artagnan um pouco mais ciente do que acontece ao seu redor, e mesmo assim há espaço para o tão necessário tempo de evolução do personagem.

Outra diferença que percebi, mas que dessa vez não me agradou tanto, foi a inversão de papéis entre Porthos e Aramis. O Porthos de Dumas serve também como alívio cômico dentro da história, porém na série ficou mais visível que esse alívio cômico virá de Aramis. Porthos é meu mosqueteiro favorito, ele é cheio de vida. Para Porthos tudo se torna melhor na companhia de seus amigos mosqueteiros, de um bom vinho, uma boa música e uma boa mulher. Muitas vezes é nítido que é Porthos a alma dentro desse grupo de mosqueteiros e eu realmente gostaria de ver o personagem com essas características, mas vou ser mais paciente afinal estamos apenas no piloto. A realidade é que essa pequena diferença do Porthos foi bem superficial e não prejudicou em nada a qualidade do episódio, foi mais uma observação de fã chata.

Falando nas qualidades dos mosqueteiros, o que mais faz “Os Três Mosqueteiros” ser uma obra rica é a forma como se é trabalhada a diferença dos personagens principais. Diferenças essas que fazem com que eles se tornem a “equipe” perfeita, afinal um completa o outro, característica justifica o famoso “um por todos e todos por um”. D’Artagnan o jovem de cabeça quente, convencido e destemido. Athos o líder relutante, com fortes cicatrizes do passado e que prefere afogar as mágoas numa garrafa de álcool. Porthos o cheio de vida e de certa maneira o mais ingênuo. E finalmente, Aramis, aquele que pode sim ser considerado o mais complexo do grupo, afinal ele vive dividido entre sua vida como mosqueteiro – que inclui mulheres, bebidas e farras noturnas –  e sua religião.

Outra diferença que pode ser interessante vem com a personagem Constance Bonacieux (Tamla Kari – Being Human). Constance é uma das damas da rainha Anne e isso a faz ser tanto um alvo dos inimigos como uma valiosa aliada dos mosqueteiros. Aqui, ela continua casada, mas por enquanto sem muita relação com a rainha e acho interessante, já que esse afastamento da realeza pode acrescentar muito na personagem que já mostrou possuir o espírito mosqueteiro. Mas não se preocupem, ao que parece, ela continua sendo o principal interesse amoroso do D’Artagnan.

Mais pontos importantes foram mantidos: como a relação entre Milady de Winter (Maimie McCoy – Doctors) com Athos. Não vou entrar nesse assunto para não estragar para aqueles que não conhecem a história, apesar de ser tudo muito óbvio e previsível. A característica sedutora, vingativa e misteriosa da Milady foram mantidas, características que fazem dela a espiã perfeita do Cardeal Richelieu. Gostei também que toda a metáfora envolvendo a flor-de-lis aparentemente será mantida. Fato é que Milady, junto com o Cardeal, são os antagonistas mais fortes da obra.

E assim chegamos naquele que era o homem mais poderoso da França: o décimo segundo Doctor – opa, espera, tá errado – o Cardeal Richelieu (Peter Capaldi – próximo Doctor em Doctor Who)! Como eu disse antes da piadinha cretina, o Cardeal era o homem mais poderoso da França justamente pelo poder exercido sobre o rei Louis XIII. Mas como todo megalomaníaco, o poder adquirido nunca é suficiente, ainda mais quando se é obcecado pelo poder absoluto. E no caminho da conquista desse tal poder absoluto estarão os mosqueteiros e a rainha Anne. E assim, por dez episódios, acompanharemos até onde o Cardeal estará preparado e será capaz de ir para conseguir o que tanto deseja. Pelo pouco que vimos percebemos que ele chegará longe. Logo no primeiro episódio ele foi capaz de incriminar o Athos, matar a amante e o comparsa, tudo sem dó nem piedade. E aqui está uma chance para, nós whovians, presenciarmos Peter Capaldi brilhar antes da estreia da nova temporada de Doctor Who!

A filosofia dos mosqueteiros é simples: proteger o rei e os interesses da França, isso se torna ainda mais difícil porque o rei Louis XIII (Ryan Gage) é fraco e influenciável. Mas a luz no fim do túnel virá com a ajuda e influência da rainha Anne (Alexandra Dowling) que desperta no rei a real vontade de governar. Ao mesmo tempo essa vontade do rei desperta a fúria total do Cardeal Peter “décimo segundo Doctor” Capaldi (tá, prometo que parei com as referências a Doctor Who). Tudo isso gera o cenário perfeito para uma história cheia de ação, aventura, romance, e acima de tudo competente e interessante.

O piloto de “The Musketeers” serviu puramente para nos reapresentar esses personagens, e o fez de maneira eficaz e precisa. Agora é esperar para ver o que mais a BBC conseguirá fazer usando uma história tão rica e cheia de possibilidades. Digo a todos que eu gostei do que vi. Claro que há aspectos a serem corrigidos e é para isso que serve o piloto, certo? Inclusive, senti falta do Conde de Rochefort, outro comparsa do Cardeal e outra pedra no sapato dos mosqueteiros. Desde já também fico no aguardo de ver mais sobre o capitão dos mosqueteiros, Treville (Hugo Speer – Skins) e também fico no aguardo da aparição do Duque de Buckingham, que na obra de Dumas se torna o amante da rainha Anne e um dos alvos da fúria de Milady.

“The Musketeers” foi inicialmente planejada como uma série de temporada única (não chamarei de minissérie por ter dez episódios), porém já há conversas sobre uma possível segunda temporada, conversas essas que com certeza se intensificaram  depois dos ótimos números de audiência marcados pela estreia da série. A nós, cabe esperar e ser feliz com a volta dos mosqueteiros!

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