Uma comédia de erros com certo potencial.

Happy Endings faz falta na TV americana. Direta, objetiva, e com uma quantidade absurda de piadas por minuto, a finada sitcom podia não acertar sempre, mas contava com uma linguagem diferente das comédias românticas atuais. Marry Me, nova empreitada de David Caspe, criador da série já citada, traz rigorosamente a mesma proposta, ainda que vestida de outra forma. E, ainda que nada original, é algo muito bom em diversos aspectos.

O piloto narra a história de Annie (Casey Wilson), que após uma semana no México com seu namorado de seis anos, Jake (Ken Marino), entra em um turbilhão emocional ao desabafar sobre a inabilidade do companheiro em assumir um compromisso, enquanto o mesmo a aguarda ajoelhado com um anel de noivado em mãos. Tudo isso gera uma série de desentendimentos que levam a outras propostas de casamento e lembranças de momentos passados, até que os dois fatalmente se acertam e podem seguir com seu relacionamento renovado e feliz.

Essa premissa é muito semelhante ao que vemos no início de Happy Endings, utilizando o casamento como pedra fundamental para um acontecimento bizarro que coloca o relacionamento de duas pessoas em xeque. Embora partir de um mesmo lugar não torne Caspe um showrunner exatamente criativo e cheio de ideias, isso torna Marry Me quase como uma sequência espiritual da sua criação anterior. Isso pode ser suficiente para que a série se encaminhe ao longo dos episódios sem grandes tropeços, o que é importantíssimo para o desenvolvimento de uma sitcom.

Aliás, como quase todo piloto de comédia, Marry Me é irregular. Se por um lado introduz seus personagens diretamente em ação com alguma habilidade (é interessantíssimo como conhecemos Annie e Jake de forma quase definitiva apenas com o primeiro diálogo), por outro insere uma avalanche de coadjuvantes de uma vez só, sem que eles consigam ter qualquer destaque.

Quando começamos a falar de humor, a série também alterna altos e baixos. A cena que dá início ao piloto, e que serve de alicerce para toda a trama, é bastante interessante no início, mas se alonga demais. Quando mostra todos os amigos e familiares, volta a se tornar engraçada, mas a aparição da amiga atrasada de Annie é desagradavelmente artificial. É bastante natural essa oscilação, mas Marry Me precisa se acertar ao longo do tempo, para que entenda melhor seu próprio timing cômico.

O curioso é que, ao olharmos para esse piloto, é extremamente difícil entender qual será o caminho tomado por Marry Me. Toda a história, incluindo até mesmo o título da série, gira em torno do pedido em casamento de Jake para Annie (ou vice-versa). O que significa que, terminada essa trama, a série não dá nenhuma pista sobre o caminho que irá seguir. Embora isso provoque uma certa curiosidade no espectador, também pode ser um grande problema, já que Caspe pode demorar algum tempo para encontrar um ritmo certo para explorar histórias e piadas.

Uma coisa é certa: Marry Me conta com personagens carismáticos. Ainda que Annie seja uma réplica perfeita do que era Penny em Happy Endings (e Casey Wilson faz novamente um ótimo trabalho), e que Ken Marino precise mostrar um pouco mais de expressividade, o casal protagonista mostra uma química interessante, onde a cena em flashback em que os dois se conhecem se revela como um merecido destaque. Por outro lado, os coadjuvantes deixam bastante a desejar, falhando em praticamente todas as suas investidas cômicas (em especial o projeto de Zach Galifianakis, Gil). Não é segredo para ninguém que qualquer série precisa de um corpo de coadjuvantes sólidos para funcionar, e comédias precisam ainda mais disso, principalmente quando contam com apenas dois protagonistas.

Em todo esse texto, é possível notar que a proporção de pontos bons e ruins é quase 1:1. E é exatamente isso que me impede de adorar Marry Me. No entanto, é inegável que a série possua potencial de se tornar uma comédia interessante com uma veia cômica que falta à TV americana. Resta saber se algum dia chegaremos a ver esse potencial completamente aproveitado.

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