Como sair impune de um assassinato.
Cara, levamos o corpo. Coroa, o deixamos onde está”
É, meus amigos, estamos com uma boa série e um começo digno nas mãos. O que virá depois desse piloto nos próximos três meses que nos passaram aos olhos não se consegue saber, mas, com certeza, conseguiremos prever algumas coisas ao longo destas próximas semanas.
Eu sou um aluno de Direito. Confesso que sou daqueles que me inspiram em grandes personagens nas séries e grandes cenas de tribunal dos filmes, mesmo sabendo (agora eu sei) que muitas coisas que eles fazem sequer são permitidas no Brasil, ou nem lá mesmo, mas é incrível e tão legal ver dramatizado um julgamento assim. Com frases de efeitos, com altos e baixos na defesa e acusação. Com caras e bocas dos advogados, testemunhas. É disso que o povo gosta. É isso que o povo quer. (!!)
Minha personagem favorita de todas as séries que eu já vi é, sem dúvidas, Patty Hewes, de Damages. Ela tinha uma frieza no olhar, uma vida miserável e uma carreira invejável. Ela era uma poderosa infeliz. Uma advogada que ensina a ser duro para conseguir o que se quer, mesmo que isso pareça um tanto quanto cafona. Deus, ela era boa. E, aqui, nesta nova série da ABC percebo a mesma faceta já conhecida dessa marcante advogada da televisão na também toda poderosa protagonista, mas de um viés totalmente diferente.
Annelise Keating, vivida intensamente pela atriz não menos intensa Viola Davis, é uma mulher que tem um casamento estável, porém vive com a tristeza e a pressão de não ter filhos. Vive com a sombra de ter um amante, mas que pode lhe ajudar nos seus casos por aí a fora. E é temida pelos seus alunos. É brilhante e tem uma carreira a zelar. Ela é a força do episódio todo. Viola conduz com os gestuais de uma advogada que sabe aflorar os sentimentos alheios à mercê de sua conveniência, mas também com aqueles de uma mulher que teve que fazer escolhas e abdicar coisas pela vida.
Com o piloto, analisamos o esquema tático da série. Annelise tem um escritório e seus sócios são: Bonnie e Frank. A primeira me pareceu feliz até demais para conversar com o marido da chefa. Abre o olho, porque quem não dá assistência, abre pra concorrência, já dizia alguém. E o outro faz a linha do machista conquistador. Até porque se hoje uma de suas presas o chama de misógino, daqui três meses, ele estará ligando pra ela. Aí tem.
Além disso, tivemos o ambiente estudantil bem demonstrado. Tivemos a festa do início do ano e toda aquela algazarra à la American Pie. O quarto todo bagunçado do Dino Thomas (me identifiquei), a vizinha rebelde e o medo de professores que fazem perguntas nominalmente (sim, isso é terrível, quem inventou isso?). A série não é jovem, mas parte de seus personagens são, e o universo deles tem que ser mostrado de maneira mais crível possível. E foi. Temos ali cinco ambiciosos que dentro dos seus respectivos clichês se mostraram grandes potenciais para a trama. Com suas peculiaridades e personalidades.
Tivemos a ambiciosa que se espelha na professora. Tivemos a chata sabichona que quer responder na frente dos coleguinhas de sala. Temos o mauricinho (ou o coxinha, é adequado este termo?) que nada está fora do seu alcance para conseguir o que quer. Temos o outro lá que ninguém deu muita bola pra ele e quer fazer piada toda hora. E o Dino Thomas (do Harry Potter, sim!! É daí que você sabia que o menino não era estranho), ou o Wes, que tem o seu potencial, mas achou que só foi escolhido para a vaga no escritório da professora porque a viu com um amante. Você é mais do que um simples flagra, amigo da Ordem da Fênix!
Com a aula inicial de Direito Penal, a professora indicou as três regras pra se livrar de um homicídio (alunos de Direito, uni-vos e anotai-las): desacreditar as testemunhas, incluir um novo suspeito e esconder a evidência. E isso foi se mostrando ao longo do episódio com as atitudes dos próprios alunos que aprenderam muito bem a lição. Desacreditaram a testemunha que era daltônica que dizia enxergar a aspirina amarela no prato no velho. Incluíram novos suspeitos como o sócio que queria tudo pra ele. E a parte de esconder a evidência ficou por conta do flashforward de três meses depois com os pupilos de Annelise queimando um corpo enrolado no tapete.
Pode ser que o caso do piloto volte a aparecer em mais algumas cenas, eu acho meio difícil, até porque temos um caso incrivelmente suculento para desbravarmos. Lila Stangard, uma jovem desaparecida foi encontrada num tanque de água de uma república lá nas proximidades da faculdade. Ela, que era namorada de um jogador de futebol, Griffin, e que era amiga de Rebecca, a vizinha estranha do Wes.
O mais interessante foi que eu achei que o marido de Annelise, que era professor da menina no curso de psicologia, tinha ficado muito triste com a morte dela (e pra mim, não tem a ver só com a peninha dos pais da moça, uhum, sei), e daí, não mais que de repente, mas na próxima cena, quem me aparece enrolado no tapete ardendo no fogo dos alunos criminosos no crime de daqui três meses? Sim, o próprio! Muito estranho e muito pano para desenrolar. Falando nisso, a utilização das cenas do crime durante o episódio para fazermos referências com os acontecimentos foram pontuais e acertadas. Onde será que tudo isso vai nos levar?
Enfim, a série me interessou desde a ideia do projeto de Shonda Rhimes e o envolvimento da Viola Davis no projeto. Essa atriz destrói desde o filme “Dúvida”, onde aparece por poucos minutos, mas te deixa impressionado. A série é boa, a audiência então foi fenomenal. O piloto foi bom. Temos muito potencial para ser discutido, e, se essa série vai ser a nova obsessão americana, como os promos anunciavam, só o tempo vai dizer. Mas, o primeiro passo foi dado com maestria. Só esperava um pouquinho mais. Talvez mais reviravoltas. Mas, acho que não foi mostrado tudo que a série tem pra mostrar e devemos ter uns bons trunfos por aí no roteiro. Vale a pena conferir o próximo episódio.
Vamos embarcar nessa? Quer sair impune do assassinato ou não? Cara ou coroa?













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