Será que vale a pena aceitar esse drink?
Não vou mentir e dizer que achei ótima a ideia do novato canal El Rey de fazer uma série baseada no clássico filme de Robert Rodriguez, “Um Drink no Inferno” (From Dusk till Dawn, 1996). Primeiros por motivos de “Quem é ‘El Rey’ na fila do pão da cadeia televisiva americana? E segundo, por que, sou daquelas pessoas que acham que um clássico é algo intocável e remakes, sequências e/ou prequels já nascem com uma chance muito maior de fracasso do que de sucesso.
O grande problema é que, com a clara crise criativa atual, filmes e séries do gênero estão surgindo com frequência cada vez maior e, infelizmente, a grande maioria não foge dessa perspectiva de fracasso que fiz e são raras as exceções que conseguem fazer um trabalho fidedigno à obra original e, bem mais raras ainda àquelas que realmente acrescentam algo de valor aquela mitologia clássica, como foi o exemplo recente de Bates Motel, que se trata de uma enorme exceção a esta triste mania de destruir clássicos.
Mas, então, seria From Dusk till Dawn mais uma exceção a esta regra? Inicialmente, ainda não tenho uma convicção sobre isso, mas já assumo que a série foi até competente em seu episódio de estreia.
Na verdade, o que me fez superar a total aversão inicial do projeto da El Rey foi saber que sua distribuição seria feita pela Netflix em outros países e, tendo por base os trabalhos recentes da plataforma digital de entretenimento – isso tudo pra não chamar de “canal” – como House of Cards e Orange is the New Black, já decidi dar uma chance a série já que, mesmo não sendo uma obra original da Netflix (como os dois exemplos acima) ela deveria ter, pelo menos, uma qualidade compatível com o respeito que o site adquiriu nos últimos anos.
E a verdade é que essa dúvida em dar uma resposta direta sobre se valeu a pena ou não reviver o filme deve perdurar por toda a temporada, já que este é um caso bem especial de adaptação, uma vez que o seu público é bem específico, pelo fato de a própria obra original ter esse público específico. Robert Rodriguez é um diretor com projetos bem sanguinolentos, com um texto mais afiado e recursos visuais que, juntamente com a violência do texto afasta uma boa parte do público. É um diretor com as mesmas influências de Quentin Tarantino, de quem é parceiro e grande amigo.
Para mim, que sou um fã de ambos os diretores, Um Drink no Inferno é certamente um dos maiores clássicos do gênero, com tudo o que podemos esperar, sobretudo na alta dose de sengue, violência e nonsense (mas não uso esse termo de forma pejorativa, muito pelo contrário, quando falamos do nonsense de Rodriguez e Tarantino estamos falando de coisas, usualmente, geniais). Gosto ainda mais de Um Drink no Inferno pelo clima western que é empregado em toda a projeção, embora, em sua definição, ela não possa ser considerada como uma obra do gênero.
E a boa notícia é que a série consegue transportar com perfeição todo esse clima do filme para a TV, inclusive porque o próprio Rodriguez assina a direção do primeiro episódio – e o roteiro, novamente, fica a cargo de Robert Kurtzman – repetindo com maestria todos os momentos que marcaram a obra original mesmo em uma nova roupagem.
Outro ponto que merece destaque na série é o fato desta ser completamente fiel ao filme. Como eu revi o filme antes de assistir ao primeiro episódio da série, a semelhança foi absolutamente gritante sem que, em nenhum momento, parecesse preguiça de fazer algo novo. Conseguiram fazer algo bastante fiel à obra original – repetindo inclusive trechos completos de diálogos – sem que isso despertasse no público a ideia de que se tratava de desleixo, mas sim, de uma grande homenagem. Aliás, vale destacar que, ao notarmos as enormes semelhanças entre o roteiro e os diálogos da série e do filme – e este primeiro episódio cobriu todo o primeiro ato da projeção, que dura bem menos de 30 minutos desta – nos damos conta de como o texto do filme, de 18 anos atrás, é completamente atemporal (e acho que fenômenos semelhantes acontecerão quando revermos Kill Bill ou Machete daqui a 20 anos).
Não estou dizendo que não houve mudanças, mas elas foram imperceptíveis em um panorama geral. Aliás, ao mesmo tempo em que a homenagem ao texto original foi um fator positivo, estender um pequeno trecho do filme por quase o dobre do período de tempo (pois praticamente transformaram 20 minutos em 40) talvez não tenha sido uma decisão muito inteligente de timing e as mudanças foram tão sutis que quase não entendemos quando o episódio termina, abruptamente, em um momento que, para quem já viu o filme, é um grande anticlímax.
Além da cena de abertura – que não aparece no original – e uma pequena aparição de Carlos (Wilmer Valderrama), que no filme é um personagem de menor expressão mas, na série, já demonstra ter mais destaque (sobretudo no segundo episódio), a principal mudança apresentada por esse episódio piloto em torno da trama original foi a indicação de poderes psíquicos de Richard Gecko (Zane Holtz). No filme há um momento de alucinação do personagem, mas serve muito mais pra justificar sua mente doentia ao imaginar uma mulher pedindo para que ele fizesse sexo com ela – e o personagem é, declaradamente, um estuprador – do que pra justificar qualquer relação psíquica com os vampiros, como a série deu a entender na pequena cena em que isso acontece no piloto.
Desta forma, se eu sou fã do estilo característico de Robert Rodriguez e a série, pelo menos em seu episódio piloto, o seguiu completamente à risca, quer dizer que adorei o episódio? Não é bem assim… E aqui entra outra questão acerca dos clássicos: o que os torna clássicos é toda a conjectura em que eles foram criados, desta forma, a impressão de uma determinada época é tão importante quanto o elenco e/ou seus produtores e diretores, e aqui há algo quem nem mesmo o envolvimento de Rodriguez e Kurtzman podem superar: nós não temos, na série, Georgey Clooney e Quentin Tarantino interpretando os irmãos Gecko. Infelizmente.
Não estou falando, ao afirmar isso, D.J. Cotrona e Zane Holtz fizeram um trabalho ruim no episódio. Muito pelo contrário. Até senti que eles incorporaram bem as personalidades de Seth e Richie e realmente não fizeram feio. Mas ao se imortalizar um clássico, imortalizamos também seus intérpretes e eles JAMAIS serão capazes de fazerem irmão Gecko melhores do que aqueles criados por Clooney e Tarantino. E só pra reiterar que o problema não é dos dois novos atores: ninguém seria capaz de fazer. É o triste efeito de personagens que já foram imortalizados por grandes atores como é o caso de Um Drink no Inferno.
Assim, entre uma obra que respeita sua fonte de origem, tanto no texto quanto na parte técnica, mas que jamais será capaz de sair da sombra dos grandes intérpretes que a imortalizaram, eu realmente não posso sair de cima do muro e afirmar com plena convicção de que a série From Dusk till Dawn valeu a pena por sua adaptação. Só o que posso dizer é que certamente vale a pena dar uma chance. Para um fã do filme, certamente não serão quarenta minutos desperdiçados… Na pior das hipóteses, irá ao menos despertar um saudosismo em querer ver o filme original.
Então, tudo o que eu posso dizer sobre From Dusk till Dawn é que certamente vale a pena aceitar esse drink (o episódio piloto), mas realmente não sei se ficarei no bar até o sol raiar.
From Dusk till Dawn é a grand aposta do canal El Rey, que apesar de novo, já aprovou alguns projetos interessantes para adentrar nesse grande mercado. Sua distribuição internacional será feito pelo Netflix (inclusive no Brasil) que, diferentemente como faz com suas séries originais, liberará apenas um episódio por semana, no mesmo formato seguido na televisão convencional. A série vai ser desenvolvida pela mesma equipe por trás do filme, contando novamente com o roteiro de Robert Kurtzman e a direção e produção executive de Robert Rodriguez. Seu elenco é encabeçado por D.J. Cotrona (G.I. Joe: Retaliação), Zane Holtz (Make It or Break It), Wilmer Valderrama (That ‘70s Show) e Madison Davenport (Shameless).















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