Não com um estrondo, mas com um gemido, retorna a sua coluna preferida sobre séries… Pronto, já podem parar de aplaudir. O momento é de intimidade, então se acomodem nas cadeiras, e recebam o nome de seu novo comediante preferido: Bo Burnham. Antes dos motivos para isso, você precisa saber um pouco sobre o que se passa na cultura do mundo hoje em dia.
Século 17, para o bem ou para o mal, a tradição ocidental, herdeira das imigrações orientais do passado e da matemática de Pitágoras, sofre um golpe e sangra como pode para sobreviver sob o reinado da modernidade que surge com uma proposta mecanicista de responder todas as questões reprimidas do homem com tecnologia e fatos. Isso gera democracia, capitalismo, socialismo, fascismo, direitos humanos, estados nacionais, e a velha e conhecida Ciência com C maiúsculo.
Pós-modernidade, para o bem ou para o mal, a modernidade é colocada em cheque, e uma perspectiva crítica do pensamento entra em cena, em companhias das ciências sociais e da arte de vanguarda. As estruturas de poderes são apontadas, e isso gera uma sensação de liberdade para alguns, e horror para outros. As revoltas são absorvidas pelas mídias de massa, e o niilismo do começo do século 21 vira ou munição para mais e mais revoltas (alguns questionam: financiadas por quem?), ou vira a ironia que alimentou a televisão dos anos 90 e começo de 00.
Tempos atuais, e assim esperamos, começam a surgir pessoas que estão cansadas das guerras ideológicas, e pensando o contemporâneo começam a entregar novas perspectivas de analisar o mundo; alguns chamam isso de ‘nova sinceridade’, outros de ‘integralidade’ ou ‘sinteísmo’, alguns ainda buscam uma identificação e preferem adicionar um ‘alt-’ ao seu movimento preferido, mas para o propósito desta coluna vamos chamar este zeitgeist de ‘metamodernidade’.
Como podemos perceber as diversas verdades da pós-modernidade de uma forma mais factual como a modernidade nos ensinou, mas sem perder a beleza do simbolismo transcendentes das tradições? Calma, falando assim parece que isso aqui é uma aula de filosofia. Existe sim todo um estudo e uma pesquisa sobre a ‘metamodernidade’, mas o que você precisa saber neste momento é que os tempos se encaminham para que exista uma grande chance das suas angústias ficarem cada vez menos pesadas e se dissolverem no ar através de risadas e autenticidade… e é isso o que nos apresenta Bo Burnham.

Apontados por alguns (metamoderna.org, recomendo) como o primeiro comediante da metamodernidade, e admirado por outros comediantes que vieram no rastro desta nova sensibilidade (de momento penso em Childish Gambino e Reggie Watts), o jovem Bo trouxe para o mundo dos stand-ups um tempero diferente e original, avançando o sinal no cinismo que estávamos habituados (através de gênios como George Carlin, Bill Hicks, Louis C.K., Sarah Silverman…) rumo a uma auto-consciência de sua vida como processos mais ou menos semelhantes entre todas as pessoas, por mais que elas pensem diferente.
Ainda está difícil? Tenho que pedir desculpas por este retorno. Fico meses sem falar com vocês, e chego aqui vomitando ideias estranhas. Faz parte! Depois que vocês assistirem ao especial de Bo Burnham para a Netflix, o ‘Make Happy’ (2016), provavelmente isso tudo vai se encaixar. Vamos a motivos concretos para você dar uma chance para o rapaz. Bo Burnham neste especial vai além de contar histórias de sua vida e fazer humor com eles. Ele transforma estes fragmentos de graça numa oportunidade para você perceber que a complexidade do mundo não é tão estranha como nos parece. Esta complexidade já é perfeitamente compreensível para qualquer pessoas que, como ele, curta algo como Kanye West, ou tenha se percebido hipócrita em alguma situação, ou fez algo que se arrependeu. O que faz de Bo Burnham único é o que faz de você único. Ou seja, se ele está errado em algo, e pode fazer graça disso, você também pode. Você está errado em outras coisas, mas os princípios são os mesmos.
O humor aqui é um fractal da própria realidade. As piadas, aparentemente simples, vão se conectando, e quando o show chega ao seu final, parece que o mundo está para explodir, pois Bo coloca no palco situações e paródias e tiradas e lembranças atordoantes, tal como é atordoante acordar de madrugada de um sonho ruim e perceber que era a tristeza que estava te remoendo em sonhos. Quando a tempestade está para cair… um gemido. O final deste show é um dos mais belos que já vi na vida. É tão belo quanto a promessa da metamodernidade de apresentar finalmente uma visão de ordem compartilhada para a nossa existência diversa.
> Minha Série Vs. Sua Série #2 – Feat. Borbs Judão 
Você paga para ver um show de humor, e ganha um vislumbre num cenário arqueofuturista. E você estará acompanhado pelo carisma de um comediante que, como sempre acontece, vai parecer enigmático para alguns, mas para outros será um profeta. Rasgue o ticket e embarque nesta experiência. Se você não gostar, não tem problema. Tem outros shows metamodernistas surgindo que certamente poderão te fisgar em breve (hum hum, alguém pensou em ‘Rick and Morty’?). Mas se você gostar, você certamente estará com sua visão de mundo mudada após esta hora de espetáculo. Ache as várias outras iscas que eu espalhei neste texto, e siga o buraco do coelho até o final (no meio deste buraco está o filme ‘Dark City’, só avisando…). Nos vemos do outro lado!












