Nunca um estudo de personagens foi tão divertido.

Spoilers Abaixo:

Eu assisto algumas séries cujos seus personagens são unilaterais, criados com preguiça e sempre em uma zona de conforto que rega o personagem desde o piloto até o series finale, e ainda tenta enganar o telespectador com acontecimentos “bombantes” que mais apostam no choque do que na força do personagem em si. E isso vai desde comédias descompromissadas (e supervalorizadas) como Californication, Everybody Loves Raymond e Entourage, até dramas pseudo-cults (e também  supervalorizados) como Dexter, House e até minha querida Damages. Eu não digo que odeio todas essas séries, mas elas perdem muitos pontos comigo em uma coisa que eu considero fundamental: até onde eu me importo com seus personagens, e por esse ponto de vista eu posso até colocar na roda a estreante The Killing.

O fato é que Parks and Recreation tem o melhor conjunto de personagens da TV desde Arrested Development, e o trabalho que os roteiristas da série fizeram e continuam fazendo para que o público “se preocupe” com eles é fantástico (e não é à toa que depois de cada episódio é possível encontrar na internet várias extensões de piadas dos episódios, como eu já mostrei aqui a pirâmide de qualidades do Ron, o seu Turkey Burger, a agência de relacionamentos que uniu Leslie e Tom, a dança maluca do Chris etc.). Mas “Eagleton” superou todos seus antecessores nesse quesito e por isso mais uma vez: um dos melhores episódios da temporada, um dos melhores episódios da série.

Tivemos o foco em dois personagens nesse episódio: Leslie e Ron. A trama de Leslie esclareceu uma das minhas curiosidades que eu tinha com a personagem, que é a do porquê Ann ser sua única amiga. A verdade é que não é só o fator workaholic de Leslie que a bloqueia de amizades mais profundas, mas também uma decepção passada que ela teve com uma antiga melhor amiga do departamento que se torna sua rival após ir comandar o departamento da cidade vizinha Eagleton (e curar seu desvio de séptico e emagrecer 36 quilos). E Eagleton é uma das melhores piadas que a série já criou: uma cidade onde todo mundo é bonito, o ar tem cheiro de baunilha, a cadeia parece um hotel, o fórum público recebe pessoas altamente educadas que batem palmas para cada cidadão que opine, e distribui iPod Touch pra quem participa da “solenidade”, muito diferente dos cidadãos obesos e revoltados de Pawnee. A rival de Leslie, interpretada por Parker Posey, intercepta a divisória da cidade que se situa em um parque com um muro, o que impede que cidadãos de Pawnee e Eagleton se comuniquem, o que reacende um comportamento ultra-competitivo de Leslie, que ela como sempre leva para as últimas consequências. Pra quem viu o episódio, claro que a imagem que fica é a da briga das duas no lixo, eu ri tanto nessa parte que tive de parar o vídeo pra não perder a próxima cena.

Enquanto isso Ron estava neurótico, já que Leslie descobriu a data do seu aniversário e ele não conseguiria impedir a colega a armar uma super festa comemorativa, o que ele odeia. Sua trama serviu como plano de fundo, mas foi tão engraçada como a de Eagleton. Ele primeiramente fez de tudo pra descobrir o plano de Leslie interrogando April, Andy e Ann (a cena em que ele estoura os balões dela e a leva para o seu escritório é demais), e depois percebendo que o desastre seria irreversível se deteriora dia após dia esperando o “golpe de misericórdia”.

E é nesse ponto que a série acerta em cheio ao desenvolver seus personagens com maestria. Eu disse na review anterior que uma característica boa da série é rebuscar piadas e as colocar em um contexto maior sem parecer repetitiva, e o que nós sempre vemos em Leslie é uma alegria involuntária que é sempre incômoda para o seu chefe, tanto que qualquer um ao fim do episódio esperava mesmo uma festa surpresa grandiosa como ela fez com Ann. Só que como ela mesmo disse, o Ron não é a Ann, e o ponto de vista apresentado por ela se interligou com perfeição com o que ela estava passando em Eagleton, e é um ponto em que várias comédias encontram dificuldades: Leslie e Ron, querendo ou não, tem uma história muito longa.

Ron conhece Leslie a ponto de fazer com que ela anos atrás não fosse para Eagleton e continuasse a tentar fazer a mudança em Pawnee, e Leslie conhece Ron a ponto de respeitar a posição do chefe em relação a festas e proporcionar a ele a maior comemoração que ele poderia esperar, sozinho, assistindo “A Ponte do Rio Kwai”, com uma bela bisteca e um bom vinho de acompanhamento. O episódio não poderia ter terminado melhor.

Outras observações:

– Donna: “Eagleton is a bunch of rich snobs. And that’s coming from someone who has a Mercedes… With a Harman Kardon Logic 7 surround-sound system.”

– Leslie: “Ron refuses to tell anyone when his birthday is. He’s even had it redacted on all government documents.”

– Leslie: “Do you remember what you said to me five years ago when Eagleton offered me that job and I asked you for your advice?”
Ron: “Do whatever the hell you want. What do I care?”
Leslie: “Right, but then after, when I pressed you, what did you say?”
Ron: “I believe I said that I thought we worked well together, and that I might disagree with your philosophy but I respected you. And I said that you’ll get a lot of job offers in your life but you only have one hometown.”
Leslie: “Yes, that’s how I remember it.”

– Mais uma vez um episódio guarda atuações maravilhosas. Se Amy Poehler mais uma vez comprova ser a mulher mais engraçada atualmente, Parker Posey esteve maravilhosa em sua participação especial e Nick Offerman roubou todas as cenas com suas expressões de desconfiança e medo do que Leslie poderia fazer.

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