Corram, freiras, corram!!!”

Depois de duas temporadas inteiras, sigo batendo na tecla de que não importa a quantas premiações Orange Is The New Black seja indicada, eu jamais a considerarei uma comédia. Por isso, não dá para não destacar o fato de que nunca em 26 episódios essa série conseguiu me arrancar risadas tão altas como na frase acima, em pleno (e tensíssimo!) season finale! E não só no momento “Corram, freiras, corram!”, como também nas musiquinhas compostas e cantadas por pelo guarda gorducho em protesto contra a Igreja Católica e uma divertida apologia ao divórcio.

O corre-corre das freiras acabou estragando os planos de Caputo, que arquitetou muito bem toda a situação para ser o herói da história. Achei consideravelmente ousado o movimento de torná-lo o novo cabeça da administração da prisão, mas agora é muito claro o fato de que a série passou a temporada inteira trabalhando nisso. Caputo foi um dos grandes beneficiados pela distribuição mais homogênea da atenção do roteiro aos personagens da série, e de um subchefe babaca qualquer passou a ser um cara intrigante, que, apesar da ambição, realmente se preocupa em melhorar as condições de vida das detentas dentro do possível. É curiosa a maneira como a série o humaniza apenas para colocá-lo na posição de chefe no final da temporada, investindo claramente na máxima “o poder corrompe” para o seu terceiro ano. Uma jogada inteligentíssima, visto que não vimos uma Mrs. Fig pré-comando da cadeia para saber se ela realmente era uma bitch antes ou se já foi uma mulher com ideais antes de ocupar o cargo. Por Caputo, poderemos descobrir se o estilo de Fig é uma questão de caráter ou simplesmente de poder.

É claro que, como bem disse o Bigode, se ele não fraudar nem desviar verba, já haverá uma considerável melhora na administração do lugar. Mas confesso que vou sentir falta de Fig. Havia mais ali para ser explorado antes de arrancá-la da série, mas ao menos ela saiu com estilo: usando um clássico bola-gato como última tentativa de se manter no poder e, no fim, safando-se de todas as acusações. Essa é a Fig que a gente ama e admira, não?

Quem teve o fim justo e merecido foi nossa grande vilã Vee. É desesperador vê-la escapando da prisão, com a enorme possibilidade de acabar saindo ilesa de tudo isso. Uma série como OITNB teria, sim, essa coragem de indignar completamente seus espectadores. Mas a verdade é que Vee precisava ter um fim, e um fim bem ruim. Assim, nada mais poético do que usar a sempre ótima Rosa para ceifar a vida da traficante – tudo com direito a uma boa mandinga de Gloria, cujo santo forte voltou a atacar, como o quinto episódio da temporada havia sugerido. Vee foi embora deste mundo com todos os requintes de comemoração a que temos o direito, mas as cicatrizes que ela deixou não vão sair tão cedo do coração dos fãs da série. Taystee, Black Cindy, Watson e mesmo a pobre Crazy Eyes foram o típico caso de too little, too late. Caíram demais no meu conceito, e a mudança de ideia de última hora (e sempre em circunstâncias que não lhes davam muita opção) nem de longe as redime por tudo de ruim que elas fizeram. Decepção define o caminho que o roteiro escolheu para o núcleo negro, que eu cheguei a dizer, no início da temporada, que era onde estava o principal brilho da série. Definitivamente, não mais.

Até porque o coração de Morello e Nicky ao tomarem as dores de Red dominaram totalmente o episódio nesse sentido. Mesmo com participações discretas, essas duas são capazes de alimentar nossa alma ao transbordarem humanidade, e eu tenho uma queda enorme por personagens assim em ambientes tão hostis como uma prisão. Só não tenho queda nenhuma por essa possível trama de Nicky com o vício em heroína com a qual a série insiste em flertar.

O único defeito considerável de We Have Manners. We’re Polite. (“Gentileza é fundamental”) foi a bipolaridade de Healy. Essa história de Healy que se importa / Healy que não se importa / Healy que se importa / Healy que não se importa já deu o que tinha que dar, e me lembra muito o eterno ciclo Regina boa / Regina má / Regina boa / Regina má de Once Upon a Time. Incômodo, chato e conveniente demais para o roteiro. Mas vale registrar que adorei a interação entre ele e Pennsatucky nesta temporada, assim como adorei o novo visual da maluquinha. Sofisticadíssimo, e não tão caminhoneiro quanto eu imaginava que ficaria. Sophia está de parabéns!

Resta-nos nossa querida Piper, que conseguiu sabiamente negociar o cancelamento da sua transferência – e, de quebra, manter entre nós também a recente mamãe Ruiz e nossa querida e eterna freira ativista. Cheguei a ficar preocupado, porque a informação do cancelamento da transferência veio cedo demais no episódio, e pensei na possibilidade de a coisa ainda dar errado (Caputo não assumir o comando do presídio, por exemplo) e a mudança acabar acontecendo mesmo. Felizmente, não foi o caso.

Com a divulgação da informação de que Laura Prepon voltaria ao elenco fixo na terceira temporada, ficou fácil prever o que aconteceria, e aconteceu: Piper foi a responsável por provocar a prisão da amada, em uma clara tentativa de salvar sua vida (e, claro, apimentar a própria, sejamos honestos!).

Apesar de tudo, é importante chamar a atenção para aquela que provavelmente foi a questão mais comentada ao longo desta temporada: a redução de Piper a uma mera coadjuvante. Ao meu ver, essa foi, sim, uma decisão prejudicial à série. Ok, é justo que as detentas de Litchfield ganhem um merecido espaço, mas Piper sempre foi a razão da existência de OITNB, que acabou perdendo muito do “fator identificação” nesta segunda temporada. Como bem disse a queridíssima Juliana Apfelgrün enquanto conversávamos sobre a série: “Eu seria exatamente que nem ela se fosse presa, juro. Até a parte de ler sobre a cadeia antes! Rs” Piper é exatamente isso: nossos olhos e nosso estilo dentro de um lugar como aquele.

O que sinto é que a saída de Laura Prepon foi o ponto-chave para “prejudicar” Piper nesta segunda temporada. Com Alex fora da série, restou dar uma reduzida no tempo de tela de Piper para deixar sua história com Alex em banho-maria até o retorno da atriz e, nesse meio tempo, investir na vida de Larry e Polly, que foi chatíssima, sem graça e só serviu para antipatizarmos com personagens que até então eram ao menos ok. Tivemos Soso, claro, uma ótima ferramenta para enxergarmos as diferenças entre a Piper de ontem e a de hoje. Tivemos O Clarim do Xadrez , que foi uma ótima fase da temporada. E tivemos a investigação das falcatruas de Fig, que no fim das contas acabou rendendo muito pouco. Mas, ao meu ver, não foi suficiente. É claro que o crescimento de outras personagens fortalece a série, mas senti muita falta de ser os olhos de Piper na prisão, de sentir todo aquele ambiente de acordo com a percepção dela. Sem falar que é um despautério acompanhar uma suposta protagonista completamente isolada da principal trama de temporada, a do Império de Vee. Fez muita falta um posicionamento de Piper nessa história toda.

Considero ambas as temporadas bastante parelhas, mas o desempate reside justamente na decisão de fazer com que a participação de uma personagem tão representativa do próprio público fosse consideravelmente reduzida nesta temporada, e eu acabo preferindo um pouco a primeira. Até porque o meu episódio favorito de Orange Is The New Black (e um dos meus favoritos de séries), o da galinha, está lá na season 1. Espero, honestamente, que nossa Katyzinha loira esteja um pouco mais presente na próxima temporada. E, com Prepon de volta ao elenco fixo, algo me diz que meu pedido será atendido.

Assim, encerramos nossa maravilhosa segunda temporada, que, apesar dos pesares, manteve a qualidade da série nas alturas! Agradeço MUITO a todos os que prestigiaram o meu trabalho e o nosso espaço aqui no Série Maníacos, principalmente pela paciência de vir acessar as reviews, mesmo com a tendência de binge-watching praticamente inerente ao formato das séries da Netflix. E, assim como aconteceu no primeiro ano, esses treze novos episódios, por mais longos e bem sucedidos que tenham sido em todas as suas tramas, acabaram nos deixando ainda mais famintos por essa delícia chamada Orange Is The New Black. Só nos resta ficar de olho no Emmy, porque este ano OITNB tem tudo pra brilhar muito! Mas cadê 2015 que não chega?

Artigo anteriorPersonagem Maníacos: Hank Moody [Californication]
Próximo artigoPerception 3×05: Eternity
Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.