Caros leitores do Série Maníacos, estou de volta com mais uma cobertura em parceira com minha amiga Vera Tocantins. Como ela disse na review da Parte 01, vivemos em um momento de extremismos e intolerância, e a estreia de Olhos que condenam pode (e deve) servir de instrumento de reflexão. É triste perceber que aqueles responsáveis por nos proteger e agir com justiça são os primeiros a nos condenar. O título da série remete a esse fato. O que condenou aqueles jovens foram os olhos e não as provas. Ao enxergar quatro afro-americanos e um latino no banco dos réus, o que aconteceu foi um massacre, não um julgamento. De acordo com o Dicionário Aurélio, a palavra julgamento pode ter as seguintes definições:
- Proceder ao exame da causa de;
- Formar juízo acerca de;
- Formar conceito.
Durante os mais de 60 minutos deste episódio, não vimos nada disso acontecer. Aqueles garotos já estavam sentenciados muito antes de se apresentarem perante a justiça. Cabe lembrar que os Estados Unidos viveram, durante os anos 1980, um crescimento assustador da violência e da criminalidade. Observando a história daquele país, sabemos que seu passado escravocrata é uma ferida aberta que ainda não se curou. A escravidão em território estadunidense só chegou ao fim em 1863, culminando em uma guerra violenta que dizimou milhares (Guerra de Secessão – 1861/65). Ou seja, é impossível tentar compreender a situação daqueles jovens sem conhecer esse passado. Em termos históricos, 126 anos é um pequeno momento (período entre o fim da escravidão e o crime ocorrido na série), por isso vemos aquelas pessoas decretando a culpa dos jovens sem nenhum benefício de dúvida. Ava Duvernay, roteirista e diretora da série, apresenta muito bem essa ligação direta entre a escravidão, seu fim e a população carcerária dos Estados Unidos no oscarizado e excelente 13ª Emenda. Usando de sua experiência anterior, a diretora nos apresenta a realidade crua e nua dos afro-americanos daquele país, mas que guarda muitas semelhanças com o nosso também.

Adentrando no episódio propriamente dito, a série dá um salto de 6 meses desde as prisões dos cinco jovens. A cena inicial mostrando como a imprensa noticiou o crime, só prova o que disse no parágrafo anterior. Eles já estavam condenados. A opinião pública exigia uma punição, não havia nenhum compromisso com a verdade ou com a justiça. Usando de vídeos da época, Ava aproveita para alfinetar o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (ela faz o mesmo em 13ª emenda). Na época do crime, Trump pagou vários anúncios pedindo o retorno da pena de morte para o estado. Isso só prova como a comunidade negra daquele país era vista pelos mais ricos. Abaixo segue uma imagem de um dos anúncios pagos por ele.

Os envolvidos se preparam para o “julgamento”. Somos apresentados aos advogados responsáveis por defender os rapazes. Nitidamente percebemos como aquelas famílias não tinham as mínimas condições de pagar por uma defesa realmente preparada. A exceção fica a cargo do advogado de defesa Mickey Joseph (Joshua Jackson, Fringe). Responsável pela defesa de Antron McCray, ele parece ser o único que sabe como lidar de fato com a situação. A cena em que eles se reúnem para discutir como será a defesa é dolorosa. O desespero dos familiares ao perceberem que estão diante de algo que não parece ter uma saída é triste, mas o pior estava por vir.
Defesa e acusação, por motivos diferentes, concordam em um ponto: realizar julgamentos separados. Anton McCray, Yusef Salaam e Raymond Santana são julgados primeiro. A cena em que eles estão entrando no tribunal é vibrante. Seguida de uma trilha sonora magnífica e precisa (Michael Kiwanuka – Love & Hate), a letra da canção tem tudo a ver com a situação daqueles jovens. Segue o trecho que toca na cena:
Standing now
Calling all the people here to see the show
Calling on my demons now to let me go
I need something, give me something wonderful
You can’t take me down
You can’t break me down
You can’t take me down
Esses detalhes nos fazem emergir no show, o tornando mais emocional e próximo de nós. É impossível não sentir a dor e sofrimento transmitidos por aqueles personagens. Ponto para a equipe da série que teve todo o esmero em traduzir a atmosfera daquele momento.
Durante os julgamentos percebemos como a promotoria jogou sujo para garantir a condenação dos rapazes. Em certo ponto, vemos a promotora Elizabeth Lederer questionar a credibilidade do que estavam fazendo, mas a detetive Fairstein insiste em condená-los. Quero aqui abrir um adendo (e já quero deixar claro que não concordo com nada do que ela fez): tentar buscar resolução para crimes violentos e não conseguir respostas é algo desesperador, mas nada justifica a destruição da vida de alguém em nome de uma pseudo-justiça. Chegamos então a um dos pontos altos do episódio: o depoimento da corredora Patrícia Meili. A entrada dela no tribunal foi desoladora, o seu relato foi desesperador. Ela não se lembra de nada e carregará sequelas por toda a sua vida. Isso me fez refletir sobre a situação das minorias nos Estados Unidos ou em qualquer parte do mundo: mulheres, negros e latinos são vítimas de um sistema que insiste em categoriza-los como inferiores. O que aconteceu com Patrícia, acontece com várias mulheres ao redor do mundo. O que aconteceu com esses cinco jovens, acontece com vários jovens negros ao redor do mundo. Triste perceber que temos um longo caminho a percorrer para alcançar a propalada igualdade. Olhos que condenam visibiliza a situação e coloca o dedo nessa ferida de maneira brilhante.

Apesar de todos os esforços, os jovens acabam condenados. A cena em que eles recebem a sentença é brilhante. A câmera foca nos olhos dos rapazes, ouvindo a palavra culpado. Sentimos suas dores e sofremos juntos com eles. Parabéns ao elenco da série. Os jovens atores foram magnânimos em traduzir aquele momento. Faltam apenas dois episódios e triste pensar que as dificuldades desses rapazes estão apenas começando.
Quando eles nos veem:
– O diálogo entre o advogado Joseph e a promotora Lederer, a respeito da descoberta do DNA, representou como a vida daqueles rapazes era vista como insignificante. Revoltante perceber que eles eram apenas peões em um jogo muito maior.
Elizabeth: Justo? O que essa palavra significa, afinal?
Michael: Algo relacionado à justiça, eu acho.
Elizabeth: Não se trata mais de justiça, doutor. Trata-se de política. Política tem a ver com sobrevivência. Não há nada justo sobre sobrevivência.
Michael: Sobrevivência a que custo? Esses garotos não merecem pagar o preço…
Elizabeth: Não estou interessada.
– Gostei que os jovens decidiram não aceitar o acordo. Eles já tinham cometido esse erro antes e não deu em nada.
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– Gostaria de parabenizar todo o elenco da série, mas quero destacar a atuação Jharrel Jerome interpretando Korey Wise. A cena em que ele se desespera no tribunal é completamente verossímil. Um jovem humilde colocando diante de uma situação como aquelas? Como esperar uma reação diferente? Foi uma cena magnífica.















