Questão de timming.

Timming numa comédia é tudo. Ele é o responsável por elevar o filme ao panteão dos mais engraçados ou afundar de vez no lodo fílmico de obras facilmente esquecíveis. No caso de “Zoolander 2” (2016), sequência do filme de 2001, o timming demora a chegar. Continuando a parodia satírica imposta pelo primeiro filme, este segundo exemplar demora a engrenar, mas quando engrena consegue ser interessante, infelizmente o estrago já está feito.

Quinze anos depois do final feliz de Zoolander e Hansel, astros do pop em todo mundo estão morrendo misteriosamente assassinados. Antes de morrer postam uma foto com a icônica marca do ex supermodelo. Valentina Valencia (Penélope Cruz) investigadora do braço de crimes da moda da Interpol vai em busca de Zoolander, numa trama que envolve o mundo da moda, sacrifícios humanos e dizer mais alguma coisa estragaria grande parte do filme, que se mina por mérito próprio.

O filme acaba ficando dividido, o que causa um incomodo estranhamento por parte do público. A primeira parte é uma sequência de vergonha alheia ininterrupta de plots tão nonsenses que beiram o absurdo narrativo. Hotéis feitos de fezes recicladas é o mínimo dos momentos descabidos do primeiro terço do filme. A partir da metade da película, a trama ganha fôlego e é perceptível o melhor entrosamento dos atores com o roteiro e o clímax que abusa da metalinguagem com o mundo da moda acaba sendo totalmente hilário e interessante. O problema é passar pelo calvário da primeira parte do filme, o que pode afastar grande parte do público fisgado a acompanhar o mesmo.

O humor do filme é baseado nos estereótipos do mundo da moda, mas que de certo modo acaba criando uma persona crítica que examina todas as futilidades do meio. Zoolander ao retornar encontra um novo tipo de modelo, próximo dos padrões masculinos em voga hoje em dia (barba, um certo descuido blasê), mostrando que padrões são tão efêmeros quanto as coleções que são criadas ano após ano. Há a questão da androginia (no personagem All) e a coleção do que é “diferente” como chamariz para as passarelas. Outro ponto forte do filme são as participações especiais. São tantas que é necessária atenção redobrada. Valentino, Anna Wintour, Vera e Alexander Wang, Marc Jacobs…. Isso só para ficar no campo da moda. Temos Ariana Grande BDSM, Sting, Katy Perry, Neil Degrasse Tyson e a já icônica morte de Justin Bieber (que bem que poderia ser real). Quando se encontra, o roteiro assinado por Bem Stiller e Justin Theroux consegue amarrar retornos de personagens do primeiro filme de modo natural, assim com as adições ao elenco, no caso Cruz e Kristen Wiig. A Alexanya Atoz, claramente inspirada em Donatella Versace, acaba sendo algo de mais estranho no elenco com um sotaque forçado, que esconde uma virada de roteiro no clímax. Quem se destaca no final das contas é Will Ferrell e seu Jacobim Mugatu, em vez dos dois protagonistas majoritários.

Zoolander 2 é um explicito caso da onda dos remakes, que quando encontra seu ritmo já está em vias de termino. É um filme para aqueles que gostaram do predecessor ou simplesmente quer algo de fácil acepção e consequentemente esquecimento pós sessão. Mesmo com algumas pérolas cômicas inseridas aqui e ali, o conjunto da obra não contribui para um elogio mais caloroso. Timming. Infelizmente aqui ele é tão confuso quanto a trama.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Paramount Pictures do Brasil

Artigo anteriorKung Fu Panda 3
Próximo artigoAudiência USA – 01/03/16: Terça
Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.