To be continued…

Depois de fazer duas temporadas exemplares, em todos os sentidos, My Mad Fat Diary encerra seu segundo ano nos deixando com o gosto amargo da dúvida. Na verdade. É um sabor ruim da “quase certeza” de que a série, apesar de bastante aclamada e bem sucedida, chegou a seu final definitivo.

Esse não é apenas um pânico de infundado de fãs, mas algo que o elenco e os produtores têm disseminado nas redes sociais. Ninguém colocou um ponto final, mas quando os vemos agradecer pelo apoio e usar termos como “Series Finale”, fica difícil pensar que ano que vem teremos mais My Mad Fat Diary.

Além disso, temos os dois episódios que fecham a temporada. Em “Not I”, Parts 1 and 2, o clima é de completa definição. Arcos perfeitamente fechados, resoluções mais do que satisfatórias para tudo e para todos. Como afastar, então, esse fantasma quando tudo nos diz que acabou?

Passei um tempo pensando nisso. No quanto é frustrante e decepcionante que uma das poucas novas séries de qualidade já tenha acabado. É para enfurecer qualquer um, mas no fundo, fico com a sensação de que se My Mad Fat Diary cumpriu seu papel e contou sua história, temos que ficar felizes. E é isso. Minha sensação, agora, é de satisfação e frustração, como se esses opostos pudessem coexistir de alguma maneira bizarra.

Seja esse é o fim ou não. o que fica, de verdade, é o exemplo de qualidade. Posso citar dezenas de qualidades na série, desde o elenco, que atuou diante de grande delicadeza emocional, até a produção atenta à ambientação e referências dos anos 1990. Mas o que realmente faz a diferença aqui são os roteiros honestos e sensíveis, que foram fundo nos problemas emocionais de Rae, sem medo mostrar o lado feio das coisas e das pessoas. Especialmente nesses dois episódios, fomos com Rae ao inferno e voltamos dele. Vimos como ela superou a fase critica de se machucar para começar a se aceitar. É apenas o inicio de longa jornada. Muito longa. Mas ela deu o primeiro passo e está rumo a vida melhor, na qual sua auto-imagem não será mais a pior possível.

Na primeira parte dessa Finale,confesso, fiquei bastante incomodada com o excesso de foco em Chloe e nos problemas dela. Pessoalmente, acho que Finn, Izzy, Chop e Archie mereciam mais espaço, enquanto depositaram todo tempo de tela em Chloe. Mesmo agora, depois de dedicar bastante tempo pensando no paralelo que tentaram traçar, ainda não o aceito numa boa. Não acho que o que Rae passou seja comparável com as inseguranças de Chloe. Aliás, de acordo com boa parte do episódio, notamos que as inseguranças de Chloe são quase 90% em relação à Rae, que é mais engraçada e faz mais sucesso com o grupo de amigos. Jamais diria que isso é irreal ou que uma menina magra não possa ser insegura, mas foi uma observação interessante sobre a origem de tanta insegurança.

As duas amigas com baixa auto-estima, as duas se rebaixando e se machucando pelo simples pensamento de que não são boas, bonitas e inteligentes o bastante. Uma é gorda, a outra é considerada fácil. Parece muito pertinente tocar no assunto nesse momento em que temos cada dia mais provas de que a sociedade ainda tenta esmagar as mulheres com um trator de exigências comportamentais que ninguém consegue cumprir (especialmente quem aponta o dedo).

Acho que essa é grande lição de MMFD como um todo: tenha amor próprio. E não é fácil, na maioria das vezes, mas tente. É nisso que Kester trabalha com Raemundo desde a primeira sessão. É enxergando suas qualidades que ela começa a sair do fundo do poço. “Você é perfeita”. E todo mundo é, de um jeito ou de outro. O nascimento da irmã vem como uma metáfora de recomeço. É a hora de mudar e de fazer melhor. E é também a hora de reconhecer que, com todos os defeitos, a família de Rae a apóia. Inclusive Karim, tão limitado na comunicação, mas que tenta realmente ser uma espécie de pai, seja denunciando o uso de maconha ou reformando um quarto todinho. E a mãe de Raemundo é doida e maravilhosa. Uma das personagens mais interessantes da temporada, por sempre tentar ensinar e proteger, enquanto surta um pouquinho, pois ela também tem direito a isso.

E além dessa família, temos a outra. A gang. Raemundo sendo a cola que une a todos e se esforçando para acabar com os problemas e desavenças. Foi bom vê-los juntos novamente. Ver Chops provando seu amor por Archie, enfrentando os babacas e até beijando o amigo. Sei que há quem já shippe o casal, mas temos Izzy na parada. Não sei se aceito muito essa história dela trair Chop por ele não defender Archie, mas tudo bem. Não tinha como eu ficar mais feliz do que quando eles se juntam novamente. Ou tinha. Tinha, sim.

Não dava para não exultar de felicidade com a doçura de Finn e Rae. Tão lindo que nos faz perceber que a ficção é maravilhosa por isso. Já cansei de repetir que Finn é tão idealizado que ele se tornou irreal. Irreal bom, registre-se. Não querendo deixar ninguém triste, mas a Rachel da vida real não teve a mesma sorte. Na série, no entanto, ela supera seus medos e se abre para um relacionamento saudável e verdadeiro.

E Liam? Ele nunca foi certo para Rae, porque, afinal, ele também precisa aprender a gostar de si mesmo. Mas no fim, o enxergo como um bom amigo, alguém importante no processo de conhecimento de Rae sobre si mesma. Demorou, mas ela entendeu isso também, mas acima de tudo, ela entendeu que antes de tudo e antes de qualquer outra pessoa, é ela quem deve se amar.

O melhor de tudo isso? Esse é um ensinamento para todos nós. Gordos, magros, negros, brancos, baixos, altos, de cabelos lisos ou enrolados… My Mad Fat Diary conseguiu fazer e Raemundo uma representante de todo mundo que se sente diferente. E a verdade é que todo mundo se sente assim. A identificação com ela é imediata porque Rachel Earl é de verdade e passa longe do estereótipo. Foi uma das personagens mais interessantes que já na TV, em muitos anos dedicados a seriados. Não me esquecerei dela, das risadas e dos dramas e mesmo que não continue, valeu a pena. Não é todo dia que uma série nos entrega duas temporadas absolutamente perfeitas.

P.S*Espero que esse tweet não seja a confirmação e que My Mad Fat Diary ainda esteja na categoria “To be continued…”.

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